O Parque Municipal Itapeti

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Situada bem no meio da Serra do Itapety, em Mogi das Cruzes, a área de preservação que atende pelo nome de Parque Municipal Itapeti já serviu como parque urbano entre as décadas de 70 e 80, mas a partir de 2009 foi transformado em reserva ambiental e desde então suas visitações são monitoradas. Sanando então uma antiga desfeita, eis aqui o relato da minha visita às trilhas desta incrível unidade de conservação, que não bastasse suas particularidades e belezas naturais, ainda guarda outro dado pitoresco. É o único parque que tem ainda mais duas denominações; oficialmente leva o nome de Parque Natural Municipal Francisco Affonso de Mello, mas os mogianos preferem carinhosamente chamá-lo de “Chiquinho Veríssimo”.

Entrada do Parque

O Parque Municipal Itapeti era um dos lugares que há muito tempo estava na minha interminável lista de pendências, mas por algum motivo sempre foi protelado. Recordo mais de década atrás de perguntar a amigos mogianos a respeito dele, mas sempre falavam com bastante desinteresse dele, o que de certa forma terminou me desanimando. Depois quando fui atrás de informações tomei conhecimento que havia necessidade de agendamento prévio, mas a dificuldade em conseguir contato novamente diluiu meu entusiasmo em lá pisar. Mas somente na semana passada, durante a visita á Ilha Marabá, que meu interesse ganhou novo fôlego quando o pessoal de lá me passou informações pra agendamento certeiro. Dias depois eu então liguei ao tal número fornecido, passei meu nome e o da minha companheira e lá fomos nós. Enfim, foi mais fácil do que imaginei.

Sendo assim, eu e a Lau saltamos meio apreensivos em virtude do horário avançado, coisa das 8h20, na Estação Mogi das Cruzes, da CPTM. Apreensivos devido a que a visitação estava marcada para as 9h, e da estação até o parque ainda tínhamos uma boa caminhada. Apressados, tocamos na direção norte cruzando o bairro residencial Mogilar, passamos a ponte sobre o Rio Tietê e pisamos enfim na Via Perimetral, onde tocamos pra esquerda. Em tempo, o Parque Municipal está muito bem sinalizado por toda Mogi, portanto chegar lá não é problema, pois é praticamente o mesmo caminho que vai para o badalado Pico do Urubu.

Mas não deu muito tempo na Av. Perimetral que logo a abandonamos, começando a subir em direção á serra pela Estrada Benedicto Ferreira Lopes. Só aí que atentamos pro tempo daquela manhã de sábado, pois a cumieira da serra estava totalmente encoberta, porém sem chuva. Melhor assim. Pois bem, a ascensão da serra se deu de forma bem lenta e morosa, afinal o desnível desde a estação até ali foi além dos 150m. Mas ao passar por um clube de campo (ABECAR), abandonamos a via principal pra tomar uma precária via de chão á direita, que atende pelo nome de Estrada do Parque Municipal, onde a farta vegetação enfim passou a nos envolver em seus quase 1 km de extensão.

Centro de Visitantes

As 9h15 chegamos finalmente à entrada do parque, onde uma guarita abandonada e portal bem simples nos dão as boas-vindas. Mais adiante a estrada de chão dá lugar a uma via de paralelepípedos com um enorme rochedo prostrado bem no meio, um pouco antes do estacionamento. Dali pro centro de visitantes foi um piscar de olhos, onde fomos avisados que as atividades começariam apenas ás 9h30, tempo extra apenas pra aguardar os demais visitantes retardatários. Enquanto isso ficamos apreciando os arredores da sede, como o exuberante jardim composto de bromélias e muitas flores, logo ao lado, e uma simpática fonte de onde escorria água fresquinha oriunda das entranhas da serra. Além, claro, do minúsculo museu com exemplares da flora e fauna da unidade de conservação.

Pois bem, devido ao tempo instável o grupo de visitantes daquele dia era pequeno e limitou-se a este que vos agora escreve, a Lau, um casal com seu filho, uma jovem e seu barulhento rebento e outro rapaz. Com todo mundo reunido fomos recepcionados pela monitora Yolanda, jovem estudante de biologia na UMC, que inicialmente nos deu uma pequena palestra, apresentando um breve histórico do parque, dos ecossistemas presentes e da importância dos recursos naturais existentes na Serra do Itapety. Uma palestra audiovisual bem interessante e divertida, potencializada principalmente pela performance de “preguiça” da jovem educadora ambiental.

Palestra sobre o Parque

Resumidamente, a área do parque antigamente pertencia ao tal Francisco Affonso de Mello, mas em 1912 foi adquirida pela prefeitura para proteção dos mananciais de água utilizados no abastecimento da cidade até 1951. Atualmente, antigos dutos e tanques de canalização podem ser vistos dentro do parque. A área permaneceu então ociosa até 1971, quando foi criado o Parque Municipal Itapeti, com a finalidade de proporcionar recreação e divertimento á população, com direito a quadras, pedalinho e teleférico, condição que o alçou a maior opção de lazer dos mogianos. Pra se ter uma ideia, a casa onde está atualmente o centro de visitantes era o restaurante. Mas em 1986 o parque foi fechado por exceder sua capacidade de visitação, resultando no acúmulo de lixo, depredações e contaminação dos cursos d’água. Desde então o lugar passou por um longo período de recuperação pra somente em 2008 receber o reconhecimento de Parque Natural Municipal. Funcionando como unidade de conservação e gerenciado pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente, o lugar agora só recebe pesquisadores e promove visitas monitoradas de educação ambiental, visitas estas que se tornaram mais bem estruturadas e frequentes a partir de 2018.

Laguinho

Terminada a palestra, foi a vez de partir pra trilha que nada mais é um circuito que emenda várias veredas interpretativas existentes em torno da sede e ao todo não ultrapassa sequer os 2 km. O intuito, segundo os monitores, e explicar a importância dos recursos naturais existentes na Serra do Itapety, que em língua indígena significa “pedra achatada”. Além da companhia da Yolanda, desta vez tínhamos o Edi na dianteira que – além de servir de guia – nos auxiliava a interpretar a paisagem, reaproximando as pessoas do grupo do ambiente natural, despertando a curiosidade, conhecimento, imaginação e reflexão sobre a relação homem-natureza.

Na trilha

A chinelada começou perto do estacionamento, onde mergulhamos na mata por meio de um caminho de cerca de 150m chamado de “Trilha do Pau-Jacaré”. Esta vereda, que é bem larga e toca pra oeste sem desnível nenhum, leva este nome porque exibe vários exemplares desta árvore, cuja casca do caule possui rugosidades e espinhos que lembram a pele de um jacaré. Além dela, o arvoredo ao redor exibe uma área para reintrodução de micro-orquídeas, cujo colorido destoa do ambiente ao redor. A via acompanha á distância uma área alagadiça e desemboca num descampado onde esta sendo construída uma casa pra futuras pesquisas.

Orquídea e Pau-Jacaré

Na sequência adentramos na “Trilha das Bromélias” que, com quase a mesma declividade e extensão que a anterior – porém tocando pra nordeste – exibe inúmeras bromélias ornando matacões e arvoredo rente á vereda. Circundando o trecho alagadiço, esta via também ostenta exemplares de cerejeiras e aroeira-pimenta, cujos frutos o Edi faz questão de colher direto do pé e apresentar aos integrantes do grupo. O caminho desemboca num laguinho ao lado duma rústica capelinha, onde alguns fungos de coloração esbranquiçada dividem espaço com uma casa de abelhas boca-de-sapo. Daqui sai uma breve ramificação pro norte – de menos de 70m – que leva a uma antiga bica d’água, onde escorre o precioso líquido vindo diretamente da serra. No sopé dela, inúmeros coquinhos de palmeira jerivá se espalham em sua superfície concretada, esverdeada de musgo.

Antiga bica

Dali tangenciamos uma área descampada pra adentrar novamente noutra vereda em meio a mata, a “Trilha dos Palmitos”. Com mais de 500m, este é o maior caminho do circuito e percorre a encosta serrana ganhando altitude de forma imperceptível, tocando pra leste. A vereda é bem mais rústica que as anteriores e a vegetação mostra-se bem mais densa e exuberante, repleta de Palmito-Juçara em sua margem, de todos os tipos e tamanhos. Além deles há muito bambu, samambaias e embaúbas, que segundo os monitores é a árvore preferida das preguiças, que infelizmente não deram o ar da graça durante nossa visita. Muito menos os saguis e esquilos. Em compensação, o sapinho dourado pintou e bordou durante nossa presença, pois praticamente presente durante todo trajeto, escondido sob as folhas rente á trilha. Este sapinho é endêmico do parque e é preciso dum olhar mais apurado pra encontrá-lo, pois tem o tamanho duma unha, quando adulto. Além do mais, bastava apenas fazer um pouco de silêncio pra ouvir de leve mais habitantes da floresta, principalmente aves.

Sapinho dourado, do tamanho duma unha!

No final o caminho tem uma ramificação em “T” onde tomamos a vertente da esquerda que toca pro norte, na chamada “Trilha da Nascente Modelo”. De pouco mais de 300m, esta vereda já começa de forma bem íngreme e inclinada num caminho repleto de musgo, demandando cautela a cada passo dado. Mas logo acima o caminho estabiliza, cruza um trecho enlameado e se torna mais simpático, permitindo apreciar as particularidades do entorno. Palmitos vistosos, helicônias de cores intensas, embaúbas de porte respeitável, liquens, musgos e toda sorte de fungos pincelam a paisagem á nossa volta, quando de repente o som inconfundível de água inunda nossos ouvidos. Não bastasse, o próprio caminho exibe vestígios da antiga canalização que levava o precioso líquido á Mogi. E assim, num piscar de olhos alcançamos a tal “Nascente Modelo”, onde num cantinho discreto da encosta borbulhava o precioso líquido, que depois escorria por um rústico aqueduto vale abaixo. Estas águas irão abastecer um dos milhares afluentes do Rio Tietê. Pausa pra fotos e molhar a goela diretamente da fonte, claro!

Nascente Modelo

Toca dos Morcegos

Retrocedemos então á bifurcação em “T”, agora tocando pra vertente da direita, que começa a descer na direção sul e, na sequência, pra oeste, retornando aos poucos para o centro de visitantes. Este caminho leva o nome de “Trilha do Martim Pescador” e basicamente acompanha o vale do Córrego da Cruz do Século (sim, aquele da nascente!) e alterna trechos nivelados com outros bastante íngremes e repletos de musgo, onde é preciso caminhar com cautela pra não carimbar o “quinto apoio”. O destaque deste trajeto fica por conta duma enorme grota rente à trilha que, segundo a monitora, é habitada por morcegos e por vestígios do antigo calçamento brotando eventualmente do chão.

E assim, por volta do meio-dia, retornamos ao centro de visitantes bastante satisfeitos pela experiência vivenciada, agora com as brumas lentamente se dissipando no alto da serra. Sim, reconheço que pra quem esta habituado a trilhar por conta própria foi um exercício de paciência fazer os quase 2 km percorridos em aproximadamente duas horas. Mas também hei de concordar que todo esse tempo foi extremamente necessário pra entender melhor as particularidades do rico ecossistema alocado neste rincão privilegiado da Serra do Itapety. Na sequência, eu e a Lau nos despedimos dos simpáticos guias, monitores e demais visitantes, já retomando fôlego pra voltar todo caminho até a cidade. Mas como aquela altura tínhamos feito amizade com todo mundo ganhamos uma bem-vinda carona até a estação ferroviária. Uhúúú!

O Parque Municipal Itapeti é um importante centro de educação ambiental e ecoturismo em Mogi das Cruzes, um grande viveiro de flora e fauna nativas da Mata Atlântica. Infelizmente o lugar já não é aberto livremente ao público e suas visitações são controladas e monitoradas, bastando solicitar agendamento pelo telefone (11) 4798-5959 nos dias úteis, em horário comercial. Esse é o preço pra manter a riqueza de diversidade desta unidade de conservação, que se tornou não apenas ponto de referência pra comunidade científica. Agora com a reabertura monitorada torna-se referencial pra comunidade e demais andarilhos ansiosos pra pisar por novos caminhos. Pra preservar é preciso conhecer, e neste sentido o parque está mais do que na direção certa. Com este turismo ecológico ele transforma os futuros visitantes em aliados na conservação deste valioso patrimônio natural.

 

Diversidade de Fungos

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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