A Serrinha da Jurema

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Situado a 80 quilômetros de São Paulo, o Pico da Jurema é um dos pontos mais altos do charmoso município de Itatiba. Grande atrativo local, do alto dos seus prosaicos 940 metros se tem uma fantástica panorâmica que vislumbra não apenas Itatiba, mas Jundiaí, Bragança Paulista, Atibaia e Campinas. De fácil acesso e baixo desnível, o Jurema está situado numa serrinha que se espicha pro sul por uma abaulada crista. E foi aproveitando o reencontro com um grande e velho amigo que resolvemos chinelar toda a cumieira deste simpático serrote, pra depois retornar á terra firme pela “Trilha dos Crentes”. Sim, um rolezinho simples e sem grandes desafios, mas que prevê vindouras roubadas de mais respeito.
O carro rasgava o asfalto da Rod. dos Bandeirantes (SP-348) em direção a Jundiaí enquanto o Carlos “Mamute”  e eu colocávamos o papo em dia. E coloca em dia isso aí, uma vez que fazia quase década que não trombava esse velho parceiro de roubadas. A trinca trabalho, paternidade e saúde tinham-no afastado um bom tempo do mato. Mas agora o cabra estava resoluto a retornar gradativamente pras trilhas, agora respeitando os limites impostos pela idade. Mas isso não é exclusividade dele pois eu mesmo também já sinto esse peso e procuro não exigir demais do corpo, evitando assim lesões ou cronificar as já existentes. Sim, a meia idade chega igualmente pros montanhistas. Sendo assim o rolê proposto praquele dia tinha que ser bem pantufa. Ou quase isso.

Pico da Jurema

De Jundiaí tomamos a SP-360 praticamente pro norte até que finalmente chegamos á simpática Itatiba, carinhosamente chamada pelo pseudônimo de “Princesa da Colina” pelo seu relevo acidentado. De longe já se avista a Serrinha da Jurema, elevando-se sobre a cidade e coroada por duas antenas no seu cocoruto mais alto. Dali bastou simplesmente acompanhar a boa sinalização indicando pro Pico da Jurema ou Jardim das Nações, sem segredo.
Uma vez na rotatória do Terminal Nações, tomamos a Estrada Vicinal Adolpho Pecorari (Iti-050), que por sinal interliga Itatiba a Valinhos, nos aproximando cada vez mais do nosso destino. A via oficial de acesso ao morro nasce a margem da estrada supracitada, logo adiante do Condomínio Getúlio Levison. E foi ali mesmo, a margem daquela poeirenta via que encostamos o veículo, a exatas 11hrs da manhã.
O dia estava perfeito, límpido e sem nenhuma nuvem no alto, porém muito quente. Arrumamos então as mochilas e lá fomos nós! Dali em diante não tem erro pois o caminho é óbvio e se resume a um estradão de chão que ganha altitude aos poucos, serpenteando a encosta da serra pra sudoeste. Sem pressa, fomos subindo aquela via que bordeja descampados, touceiras de bambus, algumas pedras e uma ou outra chácara. Apenas perto do topo, na encosta oeste, me espantei com o emaranhado de estradas, clareiras e pedras cortadas, reminiscências da época em que havia uma, hoje desativada, cuja função foi a de extrair o calçamento da cidade.

Visual da Pedra do Mirante

Num piscar de olhos e sem muito esforço caímos numa cerca de madeira com inscrições de preservação natural e, na sequência, uma breve trilha nos deixa enfim no topo do morro. Sim, a subida sequer tomou meia hora! Duas torres de telefonia dividem o amplo gramado no alto com inúmeros bloco graníticos que se espalham ao redor. Aliás, rocha aqui é o que não falta, de todos os tamanhos e formatos, justificando o nome da cidade que em tupi significa “muitas pedras”. Pela facilidade de acesso não me estranhou constatar algumas “inscrições burrestres” nos rochedos maiores, mas a vista dali dos 940m é realmente inspiradora. Do alto de um rochedo em especial, apelidado de Pedra do Mirante (ou Mirante da Antena) se tem uma privilegiada panorâmica de tudo á nossa volta. Em primeiro plano, Itatiba esparrama sua urbe á leste enquanto logo atrás podemos ver as escarpas da Serra do Lopo e da Pedra Bela; á noroeste temos fragmentos de Campinas, Valinhos e Morungaba, seguida da Serra das Cabras; Jundiaí surge ao sul, ao lado da inconfundível Serra do Japi; e finalmente a sudeste temos a geometria alva de Atibaia aos pés da Pedra Grande.
Pois bem, diante de tanta facilidade nem paramos pra descansar e nos pirulitamos então pro sul, descendo pelo pasto em direção á larga crista serrana. No entanto, a crista é cortada por uma estrada de terra que finda num portal, nos lembrando que boa parte dali já sofre a pressão urbana por conta da especulação imobiliária que promove nestas terras altas o loteamento de condomínios que ´privatizam´ a paisagem. Por conta disso evitamos a estrada e fomos avançando tranquilamente pelas laterais, em meio a muitos matacões, desviando do portal onde retroescavadeiras trabalhavam a todo vapor.
Logo adiante pudemos enfim pisar no precária via que percorre a crista, acompanhando um bonito bosque de reflorestamentos. Mas logo adiante abandonamos a estrada quando esta vira e desce pra oeste, em direção á fazendas e chácaras naquele quadrante. Ao invés disso, a gente se pirulita por uma óbvia picada que se mantêm no alto, em meio a esparsos arbustos, por uma picada que se embrenha na mata pro sul, sempre acompanhando a florestinha de eucaliptos ao lado.

Seguindo pelo pasto.

Trilha no reflorestamento.

A vereda, no entanto, finda num amplo descampado de capim onde se percebe um rastro do caminho que é necessário seguir. O pasto rebaixado serve como referência da rota a ser tomada, caminhada esta que dura até o momento em que o capim aumenta consideravelmente de tamanho. Não que não desse pra continuar na raça, mas no geral esse tipo de avanço demanda mais esforço, coisa que naquele início de tarde escaldante se tornava demasiado desgastante. Era necessário buscar outra forma de seguir pro sul.
Foi aí que nos aproximamos da supracitada florestinha de eucaliptos e encontramos uma oportuna trilha que seguia na direção desejada, nos poupando do perrengue no pasto. E o melhor, com sombra! E assim nossa chinelada progrediu com mais agilidade no frescor da mata, passando por muitos blocos de granito de formatos pitorescos, inclusive um que se assemelhava á cabeça da cachalote Mobi Dick, embora pra mim lembrasse mais o monstrengo do filme “Alien, o Oitavo Passageiro”.

Pedra do Alien ou da Moby Dick?

Mas tudo que é bom dura pouco pois a vereda nos levou até o limite sul da floresta, onde sumiu em definitivo. Dali tivemos novamente que retomar a rota pela crista em meio ao descampado de capim ralo. Mas aqui a boa notícia é que o pasto era mais transitável e dessa forma prosseguimos nossa pernada pela cumieira serrana, sempre pro sul. A passo compassado, cruzamos um terreno parecido com o cerrado, salpicado de cactos, árvores retorcidas e os onipresentes monólitos de granito emergindo de ambos lados da crista.

Pelo alto da Serrinha da Jurema

Mas pouco antes das 13hr pisamos no cocoruto de pasto que aparentemente marca o limite sul da Serra da Jurema. Isto porque a partir dali não havia mais pra onde ir, e um rastro de trilha sugeria descer na direção sudoeste, rumo os ranchos e fazendas do bairro Mombuca, já na abaulada morraria da Serra dos Cocais. Só não descemos até lá porque já complicava a logística pra retornar ao veículo, motivo pelo qual decidimos retornar sem pressa pelo mesmo caminho. Mas não sem antes descansar e beliscar alguma coisa, claro. E não ali onde estávamos pois era muito exposto e o pior, sem sombra alguma. Naquele início de tarde o sol castigava sem dó e calor parecia emanar no chão, motivo pelo qual retornamos ao frescor da florestinha de eucaliptos anteriormente citada. Volta esta embalada nas deliciosas recordações de nossas roubadas no Cipó, Mantiqueira, Quiriri, Ibitiraquire, Serra do Mar…
Revigorados, retomamos nossa chinelada pro norte, agora nos agarrando de vez á vereda em meio á mata. Vereda esta bem mais útil e agradável de andar que a precária estrada de chão do início. Mas depois de um tempo a vereda abandonou a floresta e nos levou novamente aos vastos descampados de pasto e rocha. Foi aqui que resolvemos sair da cumieira e buscar algum modo de descer a serra na diagonal, o que foi feito com navegação visual pura e simples. No caminho, fizemos uma breve parada á margem de uma simpática lagoa esverdeada, onde pelo menos eu não abri mão de me refrescar naquele calor infernal da tarde.

Tchibum!

Na sequência prosseguimos a perda gradual de altitude, sempre na diagonal, até dar novamente na beirada de um novo foco de mata que bordejava um amplo descampado com bonita vista do Morro da Jurema. Aqui acompanhamos uma trilha bem batida que seguia pra leste pelo pasto ralo, cruzando matacões e alguns exemplares isolados da árvore que empresta seu nome á serra. Pulamos então nossa quinta cerca do dia e caímos no meio de outra torre de telefonia isolada cercada de curiosos rochedos, pra dali alcançar de fato a beirada da serra.
Pois bem, uma vez na borda do íngreme morro avaliamos visualmente qual rota seguir a partir dali, pois um ataque direto era dificultado pela alta declividade da encosta. Tomamos então uma discreta vereda ao nosso lado, que atravessou um pequeno foco de pinnus pra depois descer no aberto por um ombro serrano na direção desejada. Não demorou pra cair no que parecia um rancho improvisado num cocoruto serrano bem exposto, que mostrou-se ser de religiosos pela inscrições burrestres nas pedras do entorno.
“Bem, se os caras vem aqui orar deve ter um acesso fácil perto!”, falei pro Mamute. Dito e feito. Procurando no entorno encontramos um rabicho de trilha bem batida que descia o restante da serra, sem nenhum impedimento, rota que apelidamos de “Trilha dos Crentes”. Sem pressa alguma fomos perdendo altitude naquele caminho seco, porém óbvio, ladeando a íngreme encosta do morro até o final dele. Este caminho desembocou nos fundos de um pequeno curral, onde suavizou de vez. Dali bastou seguir por uma empoeirada de chão que tocava demasiado pra oeste, desviando demais de onde tínhamos deixado o veículo. Abandonamos então a estrada pra tocar perpendicularmente a ela através do pasto, chapinhar um pequeno córrego e sair nos fundos de um galpão abandonado, já do lado da estrada. Dali até o carro foi um piscar de olhos, onde chegamos pouco depois das 15hrs!

Retornando pela “Trilha dos Crentes”

Tomamos rumo pra Sampa pouco depois dando as costas á Serra do Jurema, mas não sem antes passar num mercado e garantir alguns mimos pra viagem. E entre goles de cerveja e petiscos confabulamos a respeito daquele nosso breve e despretensioso passeio. Desde a urgência de preservação daquela serra, a exploração de granito e do loteamento gradual de suas encostas, até a possibilidade de chineladas maiores em direção á Serra dos Cocais. Independente disso e até da pouca dificuldade técnica e física do rolê, ele já tinha valido apenas pelo reencontro com o bom e velho Mamute. Sim, tanto que já estamos programando vindouras pernadas, quem sabe com nível de dificuldade maior. Que seja então, uma vez que a prática outdoor tem também dessas, de servir de desculpa pra reaproximar antigas amizades e fortalecer laços desgastados pelo tempo.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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