o segredo de Machu Picchu

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Machu Picchu não foi uma cidade no rigor da palavra, mas tem quase tudo para ter sido uma. Também não foi uma fortaleza. Machu Picchu foi uma utopia e é nisso que resulta todo seu encanto e mistério.

Machu Picchu se revela nos detalhes aos olhos atentos de quem possua algum conhecimento histórico e urbanístico. Ao percorrer o vasto campo de ruínas na estreita plataforma edificada entre as duas montanhas facilmente se reconhece o traçado artificial de ruas, praças, bairros e centros cerimoniais. A cidadela foi projetada para a auto-suficiência com um sistema complexo de captação e distribuição de água, setores agrícolas para produção de alimentos compatíveis com a população e setores industriosos para suprir sua demanda por artigos artesanais necessários às tarefas diárias.  

A arquitetura também denuncia um mínimo de duas cidades sobrepostas e integradas. A mais antiga é megalítica e cerimonial executada com as mesmas técnicas pré-incas de sua vizinha Ollantaytambo e a segunda é mais ligeira e prática, certamente dedicada as tarefas complementares e necessárias a subsistência diária.

Cidades nascem como pontos de encontro de pessoas e se desenvolvem com a produção, o comércio e a troca de bens e serviços que muito rapidamente extrapolam suas próprias fronteiras e necessitam de vias de transporte e comunicação para importar e exportar mercadorias e cultura.  Fortalezas desempenham papel defensivo para regiões e rotas comerciais que nunca existiram ali e apesar de ser virtualmente inexpugnável seu isolamento natural a torna inexpressiva para a estratégia militar.   

A função religiosa de Machu Picchu é inequívoca e basta uma rápida circulada por suas vielas, templos e praças para se sentir tomado por sua aura mística. Tudo ali é projetado para induzir a meditação e adoração dos elementos da natureza. O rio, a mata, o vento, as montanhas e o sol, a lua e as estrelas adquirem ali uma força estética colossal. O total isolamento também contribui para esta finalidade. A Nan Cuna, estrada de pedra, com largura de 4 a 5 metros que interligava todo o império é nas proximidades uma mera trilha calçada que muitas vezes dá acesso apenas a uma pessoa por vez com degraus entalhados em rocha maciça onde só se consegue apoiar a ponta dos pés.

O Inca Pachacutec incorporou o Vale do Rio do Sol a seu império entre o final do sec. XIII e início do XIV, conquistando-o dos Tampus que o governavam de sua antiga capital Ollantaytambo, na entrada do vale. É provável que já tenha encontrado um santuário com alguns templos e adoratórios construídos no alto da montanha e a partir deste embrião tenha ordenado a construção e o embelezamento da cidade como a vemos hoje.

Machu Picchu foi uma cidade interditada, proibida aos mortais e poucas pessoas tomaram conhecimento de sua existência mesmo durante os anos de glória dos Incas. Pachacutec a construiu para si próprio e ali guardou seus maiores tesouros.  Machu Picchu pode ter sido uma espécie de convento onde viviam isoladas do mundo as Acllas do Sol ou mulheres escolhidas garimpadas em todos os cantos do império, entre as mais belas e nobres donzelas, para servir ao deus Sol e seu filho na terra.

Isto explica muita coisa, mas pode ir além. Em 1542 o padre Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Francisco Orellana, relatou que na confluência do rio Madeira com rio o Marañon receberam, dos indígenas, informações sobre “certas mulheres guerreiras” e que “havia no interior das montanhas uma província de mulheres que viviam em construções de pedras e se vestiam de finas lãs à moda de Cuzco”. Este boato batizou o Rio Amazonas que descobriram logo adiante.

Por fim um último mistério. Como que um centro religioso pagão e idólatra pode escapar dos conquistadores espanhóis a cata de ouro, dos fanáticos de batina na destruição dos ídolos e da Santa Inquisição na perseguição dos hereges? Porque Machu Picchu já estava reduzida a um amontoado de ruínas no início da conquista espanhola.

Dom Antonio Altamirano, que tomou parte na defesa da Cuzco sitiada por Manco Inca em 1535, deixou uma crônica na qual relata a aventura de seu companheiro de armas Miguel Rufino, natural de Burgos, em fuga da Espanha por sua participação em crime de sangue ocorrido em Toledo onde foi recrutado a serviço de Francisco Pizarro.  Conta que padre Valverde autorizou a soldadesca a pilhar a Acllahuasi (casa das mulheres escolhidas do Inca e do Sol). Enquanto os monges “expulsavam os deuses pagãos exorcizando o monastério inca com turíbulos de incenso e torrentes de água benta”, os soldados embriagados tiravam para fora as Nustas por uma pequena porta estreita que dava para o palácio de Pucamarca. Como Miguel Rufino caminhava no Kikllu (rua inca encaixada entre as muralhas megalíticas), uma das princesas de sangue real ainda adolescente, levada por um espanhol e gritando de pavor, escapou e veio cair a seus pés que a defendeu a golpes de espada.

Para escapar da acusação de “traidor e herege” que esta morte certamente lhe traria, escondeu-se por vários dias numa casa em Cuzco com a princesa inca, Aclla Gualpa, que se ofereceu para guiá-lo até uma cidade cujo caminho fechado pelo mato não era conhecido por ninguém “a não ser as virgens do Sol, pois essa cidade era sagrada desde tempos antigos”.

Os dois fugitivos alcançaram o vale de Ollantaytambo, margeando o curso do Urubamba durante três dias, ao fim dos quais se infiltraram numa selva densa. Escalaram uma crista de montanha, até alturas invisíveis do fundo do cânion, onde Rufino compreendeu que “o destino lhe seria favorável e que ali estaria seguro”. Todavia experimentou grande espanto ao perceber que aquela cidade, “edificada como que no gume duma lâmina de espada”, era habitada! Um índio velho, rosto severo, lhes barrou a entrada. Perguntou a jovem o que procuravam ali. Gualca fez reverência ao amauta, e depois de beijar sua cabeça, respondeu que procuravam “a paz que concede Viracocha”. O ancião lhes indica a via lajeada que desce em direção da cidade desconhecida. Casas, palácios, templos abandonados e destituídos de portas e janelas, se elevam de todas as partes. A sua direita Rufino percebeu um pico que ultrapassa os outros cimos, “apresentando-se como um dedo gigantesco” no alto ensombrado por um templo que lhe pareceu inacessível.

A voz do amauta rompeu subitamente esta contemplação para exigir em juramento “obedecer as leis de Inti” e não revelar a ninguém este lugar sagrado, depois foram autorizados a se instalar no palácio já em ruínas, mas onde “ídolos de ouro luziam ainda nos nichos trapezoidais”. Um ano se passou no grandioso silencio das cordilheiras. Gualca, deu a luz a um filho de Rufino e tecia finas mantas de lã acompanhada pelo canto do checollo, o rouxinol dos Andes, sob as arvores cobertas de orquídeas rosas e flores que pareciam borboletas de cores vivas.

Mas um dia, trazendo barbantes com nós, um indígena entrou na cidade. Decifrados, os quipos de Manco Capac ordenavam a todos os homens das montanhas que se armassem e se reunissem em Ollantaytambo, onde ele preparava uma guerra secreta contra os brancos. Miguel Rufino deixou seu refúgio com aqueles que o haviam recolhido. Em Ollantaytambo, onde um formidável acampamento de guerreiros cobria os degraus da fortaleza, o amauta o apresentou ao Inca. Manco lhe depositou confiança, mantendo-o ao pé de si para que instruísse seus homens no manejo das armas de fogo tomadas dos europeus. Porém ao ter reconquistado as cercanias de Cuzco com os indígenas, Rufino viu seus antigos irmãos de armas tombar sob os golpes de maça dos guerreiros incas, e não pode se conter. Por tentar prestar socorro a um de seus compatriotas feridos, foi jogado junto com este num precipício.

Em 1944, efetuando escavações em Machu Picchu, o arqueólogo peruano J.C.Tello desenterrou “um pedaço de alabastro espanhol trabalhado”, portanto levado para lá depois da conquista.

 

Um convento muito louco!

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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