Encontro realizado no Camping Galpão de Pedra reuniu mais de 80 participantes entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro. Além da escalada, a programação contou com palestras e atividades de integração em meio às formações rochosas singulares da região.
Com formações rochosas que parecem ter saído de paisagens de outros continentes, Caçapava do Sul, no Rio Grande do Sul, oferece um cenário bastante particular para a prática da escalada. Conhecida como Capital Gaúcha da Geodiversidade, a cidade ganhou projeção internacional com o reconhecimento do Caçapava Geoparque Mundial pela UNESCO. Isso porque suas paisagens reúnem estruturas geológicas com centenas de milhões de anos, que atraem visitantes interessados tanto na geologia quanto nas atividades ao ar livre.
Entre os principais destaques estão os paredões e afloramentos de conglomerado, uma rocha sedimentar constituída essencialmente por seixos de diferentes tamanhos. Além disso, a região apresenta um relevo ruiniforme, caracterizado por formações que lembram antigas ruínas. É justamente nesse ambiente, especialmente na região da Pedra do Segredo, que se distribuem diversos setores e vias de escalada, compondo um dos cenários mais interessantes para quem pratica o esporte no Sul do Brasil.

Formações geológicas de Caçapava do Sul. Foto: Naoki Arima
Um lugar perfeito para escalada
Foi nesse contexto que aconteceu, entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro, o 12º ENCONMON – Encontro de Montanhistas do Camping Galpão de Pedra, reunindo mais de 80 inscritos. Durante os três dias de programação, os participantes tiveram a oportunidade de explorar as paredes da região e, ao mesmo tempo, compartilhar experiências com escaladores de diferentes gerações.
Segundo Naoki Arima, escalador do Espírito Santo e frequentador de Caçapava do Sul, esta edição recebeu participantes de diversas localidades. Conforme relatado por Léo, organizador do evento, havia escaladores de diferentes partes do Rio Grande do Sul, além de visitantes do Uruguai, da Argentina, do Espírito Santo e do Paraná.

Participantes do Evento. Foto: Naoki Arima
Além das atividades de escalada, a programação contou com palestras de Ed Padilha e do próprio Naoki Arima, bem como uma prática de yoga conduzida por Alice Carasai. Dessa forma, o encontro proporcionou não apenas a oportunidade de conhecer novos setores e vias, mas também momentos de integração e troca de conhecimento entre os participantes.
Mais do que reunir praticantes em torno das paredes, entretanto, o ENCONMON também busca recuperar uma tradição que marcou a história da escalada em Caçapava do Sul.

Palestra do escalador Ed Padilha. Foto: Naoki Arima
O resgate de uma tradição da escalada gaúcha
Segundo Naoki, as escaladas em Caçapava do Sul tiveram um período de grande movimentação nos anos 2000, quando aconteceu a primeira leva de abertura de novas vias. Depois dessa fase, porém, a atividade perdeu força e a região passou por um período com menos encontros e eventos voltados à comunidade.
Nesse sentido, para Naoki Arima, tanto o 12 ENCONMON como a edição realizada no ano passado representam uma tentativa de recuperar essa tradição. O objetivo é estimular novamente a convivência entre escaladores e fortalecer a movimentação em um destino que já teve uma comunidade bastante ativa.
O escalador também chama a atenção para uma mudança no cenário dos encontros de montanhismo em todo o Brasil. Embora essas reuniões tenham sido bastante comuns no passado, atualmente acontecem com menor frequência. Na avaliação dele, tanto os escaladores mais antigos quanto os mais jovens têm percebido a importância de recuperar esses espaços de convivência.
“Os encontros de escalada foram bastante comuns, não só no Rio Grande do Sul como em todo o Brasil. Atualmente, esse tipo de evento é mais infrequente. Os escaladores antigos perceberam esse cenário e muitos estão tentando resgatar a tradição. Além disso, a nova geração também busca esses encontros por ouvir falar da força que o movimento tinha no passado. Acho que parte desse desaparecimento tenha alguma relação com o boom das redes sociais, que levou as pessoas do mundo físico para o virtual. Mas, agora, acho que estamos nos dando conta que estamos indo para o lado errado e que precisamos resgatar alguns valores que ficaram de lado.”
Assim, Naoki acredita que a retomada desses encontros representa uma oportunidade de fortalecer os vínculos presenciais e recuperar valores importantes da cultura do montanhismo, que vão além da prática esportiva.
Muitas pedras, muitas vias e poucos escaladores
Apesar da diversidade de formações rochosas e do potencial para novas explorações, Caçapava do Sul enfrenta um desafio comum a diferentes destinos de escalada no Brasil: a quantidade de vias disponíveis nem sempre corresponde ao número de praticantes que frequentam a região.
De acordo com Naoki, a comunidade local já foi mais ativa e boa parte da expansão das vias aconteceu justamente pelo trabalho dos escaladores que viviam na região naquela época. Atualmente, entretanto, o destino atravessa um período de menor movimentação.

Conglomerado característico da região. Foto: Valdesir Machado
“Caçapava sofre de um fenômeno bastante comum que acontece em diversas áreas do Brasil: lá tem muitas pedras e muitas vias, mas poucos escaladores. Caçapava do Sul já teve uma comunidade mais ativa; inclusive, a principal onda de novas vias foi fruto do trabalho dos escaladores locais daquela época. No entanto, atualmente passamos por uma entresafra e há pouca atividade na região.”
Mesmo diante desse cenário, a diversidade de setores na região da Pedra do Segredo continua sendo um dos grandes atrativos para quem visita a região. Entre os locais mais procurados também está a Pedra do Leão, situada nas dependências do próprio Camping Galpão de Pedra, que também serviu como sede do encontro. Outro destaque é a Pedra da Lua, que recebeu um número expressivo de escaladores durante o ENCONMON e reúne diversas vias de qualidade em uma formação de conglomerado bastante interessante.
Troca de experiências e formação de novas gerações
Além de proporcionar a descoberta de novos setores e vias, encontros como o ENCONMON também funcionam como espaços de transmissão de conhecimento. Para Naoki, essa é uma das contribuições mais importantes desse tipo de iniciativa, especialmente diante do interesse das novas gerações em aprender com quem acumula mais experiência na montanha.
“Os encontros de escalada são, além de uma grande oportunidade para escalar e conhecer um novo pico, um excelente momento para a disseminação de conhecimento. Noto que os novos escaladores possuem sede de aprendizado e nós, da velha guarda, temos a obrigação de passar adiante os valores do montanhismo que herdamos das gerações anteriores.”
Nesse contexto, a troca de experiências também envolve questões relacionadas à conservação ambiental e à prática responsável da escalada. Na região da Pedra do Segredo, por exemplo, existem espécies de plantas endêmicas encontradas em áreas montanhosas frequentadas pelos escaladores.

Escaladora na Pedra da Abelha, outra formação importante da região. Foto: Naoki Arima
Sobre esse assunto, Naoki avalia que os praticantes mais novos já chegam ao esporte com uma boa base teórica sobre conservação e mínimo impacto. No entanto, ressalta a importância de transformar esse conhecimento em experiência prática. Dessa maneira, a convivência com escaladores mais experientes pode contribuir para desenvolver uma percepção mais cuidadosa sobre o ambiente natural.
“A percepção que eu tenho é que os novos escaladores já trazem isso na bagagem por conhecimento adquirido, mas talvez falte um pouco de vivência. Já têm a teoria, mas falta um pouco da prática, e acho que é justamente nesses momentos que os mais experientes poderiam atuar. Por exemplo, a região da Pedra do Segredo possui algumas plantas endêmicas que são encontradas nas áreas montanhosas que os escaladores frequentam. Saber reconhecer em campo é o primeiro passo para saber da sua existência e importância.”
O papel do Camping Galpão de Pedra no desenvolvimento da escalada
A realização do encontro também evidencia a importância de iniciativas locais para manter destinos de escalada ativos. Nesse sentido, Naoki destacou o trabalho da família Teixeira, proprietária do Camping Galpão de Pedra, que se estabeleceu na região há quase 30 anos.

Escaladores e parte da família Teixeira, unindo a tradição gaúcha e o esporte. Foto: Naoki Arima
Desde então, a família investe no turismo rural e apoia o desenvolvimento da escalada em Caçapava do Sul. Embora os proprietários não sejam escaladores, tiveram participação importante na construção desse cenário, oferecendo suporte à comunidade e contribuindo para que a região continue recebendo praticantes e visitantes.
Dessa forma, o 12º ENCONMON também representa o reconhecimento de pessoas e iniciativas que, mesmo indiretamente, ajudam a fortalecer o esporte e a manter viva a história da escalada local.
Ao reunir mais de 80 participantes, o encontro reforçou o potencial de Caçapava do Sul como destino de escalada e mostrou que a retomada dos encontros presenciais pode ser um caminho importante para aproximar gerações, compartilhar experiências e fortalecer a comunidade.







