Toque Sutil

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ATENÇÃO: Este texto é uma obra de ficção. Embora ambientado em um local real e inspirado em situações possíveis, não descreve fatos reais nem pretende reconstituí-los. Personagens, ações e acontecimentos são fruto da imaginação literária do autor.

Por Hilton Benke

Pico Paraná - Foto de Hilton Benke

Pico Paraná – Foto de Hilton Benke

A barraca estava aberta quando ela voltou. O zíper meio torto, o isolante ainda amassado do jeito que o Norberto havia deixado,. O vento vinha de leste, aquele vento frio do Pico Paraná que entra pelas costuras da roupa e fica ali, mesmo quando você já parou de andar. Ela sentou na pedra ao lado da trilha e esperou. Primeiro cinco minutos. Depois dez. Depois o tempo começou a perder a forma. O céu ainda estava claro, mas já não era tarde e ainda não era noite, aquele intervalo estranho em que tudo parece suspenso.

Um corredor passou trotando, mochila leve, respiração curta. Ela perguntou quase sem olhar, como quem pergunta por hábito, se ele tinha visto o Norberto. O homem diminuiu o passo, pensou por um segundo, balançou a cabeça. Que não tinha visto ninguém com aquela descrição. Ela agradeceu, forçou um sorriso que morreu antes de chegar aos olhos. Quando o corredor sumiu trilha abaixo, ela ficou sozinha de novo, agora com uma sensação diferente, não de espera, mas de cálculo.

Foi até a barraca ao lado, onde o Flávio organizava o fogareiro. Chamou pelo nome dele com a voz já trêmula, ensaiada. Disse que o Norberto não tinha chegado. Que eles tinham combinado de se encontrar ali. Que talvez ele tivesse errado o caminho. O Flávio largou o que estava fazendo na hora. Perguntou há quanto tempo. Ela respondeu que não sabia ao certo, que tinha parado de olhar o relógio. Isso era verdade. Ou pelo menos parecia verdade. Eles pegaram lanternas, chamaram por ele em voz alta, primeiro perto, depois mais longe, gritando o nome que o vento levava embora sem devolver.

A busca começou pequena, quase tímida, como se ainda houvesse a esperança de que tudo fosse um engano bobo. Alguém que desceu rápido demais. Alguém que parou para descansar. Mas conforme os minutos viraram mais minutos, e os minutos viraram aquela coisa pesada que a montanha sabe fazer tão bem, o clima mudou. Mais gente apareceu. Perguntas começaram a se repetir. Onde foi a última vez que você viu ele. Vocês estavam juntos. Por onde desceram. Ela respondia tudo com precisão. Direita. Trilha normal. Sem pressa. Tudo parecia encaixar. Os corredores os haviam visto descer juntos, e separados, com a certeza de quem desce correndo e aprecia cada quilômetro da trilha.

Três horas antes, a montanha estava quase vazia. O sol ainda alto, mas já inclinado, desenhando sombras longas nas pedras, sombras que não se moviam na mesma velocidade dos passos. Eles desciam sozinhos, o barulho ritmado das botas raspando a rocha misturado ao som distante do vento batendo nas cristas, um som cortante e constante, como se a montanha respirasse e, por sorte, não falasse.

O Norberto falava muito, demais para quem estava cansado. Falava para preencher o silêncio, talvez para afastar o próprio cansaço. Comentava da trilha, da vista que só quem chega até ali consegue ver, de como o dia tinha sido cansativo, mas ainda produtivo, desses dias que parecem justificar o esforço inteiro, ainda que ofegante, após ter vomitado toda a água estragada que ela havia indicado para ele. Ela respondia pouco. Concordava com a cabeça, soltava palavras curtas, quase automáticas. Observava. O ritmo dele, o terreno, o entorno.

A esquerda de quem desce o Pico Paraná tem um trecho traiçoeiro, conhecido por quem presta atenção de verdade. Não é um abismo escancarado. É um erro possível. Uma pequena sequência de lajes inclinadas que enganam, levam o corpo a confiar onde não deveria. Logo depois, exatamente ali, o precipício. Bastava um passo errado. Bastava um deslocamento mínimo de peso.

Ela diminuiu o ritmo de propósito. Deixou que ele seguisse um pouco à frente, o suficiente para abrir espaço, o suficiente para não parecer intencional. Quando estava pouco mais atrás falou para ele parar, para esperar. Ele tirou a mochila do corpo e ficou de pé, olhando o horizonte. Ela primeiro comentou algo irrelevante, uma pergunta boba, qualquer coisa que não exigisse resposta elaborada, ele respondeu sem se virar para trás. Não bastava, ela queria o olhar nos olhos.

Ela então, num tom mais carinhoso, pediu um beijo, no que ele surpreendentemente virou para trás. Foi só um giro do tronco, um movimento automático, sem calcular. Ela já sabia até mesmo onde ele pisaria, já tinha calculado a distância, o apoio, o ponto exato. Não houve grito. Não houve luta. Não foi um empurrão, foi um toque sutiu, curto, seco, quase técnico, aplicado no instante certo. Um gesto mínimo, desses que passam despercebidos até por quem faz. O tipo de gesto que dura menos de um segundo, mas muda tudo. Primeiro o desequilíbrio, quase imperceptível. As mãos dele se voltam para ela, não em defesa, mas em reflexo, tentando alcançar qualquer coisa que não existe. Os olhos dele arregalados, já expressando o medo, o susto e aquilo que ela esperava ver. Ela afastou as mão ligeiramente. Depois a escorregada do pé esquerdo, que estava de lado, mal apoiado, e por fim a queda.

Não houve grito, apenas um chamamento curto, abafado pelo vento, mais surpresa do que medo. O corpo ainda vivo bateu nas pedras uma, duas, três vezes, cada impacto arrancando um som seco da montanha, e depois sumiu do campo de visão, engolido pelo nevoeiro que subia e pelo silêncio abrupto que só acontece quando algo cai longe demais.

Ela ficou parada por alguns segundos, o coração acelerado, batendo alto dentro do peito, como se estivesse num momento de êxtase, no clímax do momento, mas a mente estranhamente limpa, organizada. Não havia tempo para curtir mais o feito. Olhou ao redor com cuidado, não com pressa. Ninguém. Nem som. Nem movimento. A trilha seguia vazia. A montanha indiferente. Procurou alguma marca de sangue nas pedras, alguma evidência que quebrasse a normalidade do cenário, e nada havia aparente. Apenas rocha, vento e neblina. Pegou a mochila dele que repousava no chão, retirou o celular, para evitar a localização e jogou o resto no mesmo ponto onde o Norberto havia caído.

Com calma, ajustou a mochila nos ombros, apertou uma das alças como se precisasse sentir algo sólido. Olhou para trás, instintivamente, para ver se alguém tinha assistido à cena. Ainda daria tempo de gritar por ajuda, pensou, ainda daria tempo de transformar aquilo em acidente compartilhado. Não havia ninguém. Aliviada, respirou fundo e sentiu o ar frio entrar e sair com facilidade. Estava feito.

Começou a descer no ritmo certo, o ritmo de quem está bem, de quem apenas terminou um dia longo. Chegou à área das barracas com um sorriso suficiente para parecer normal. Normal o bastante.

Agora, enquanto chamavam o nome dele pela terceira vez, enquanto alguém sugeria acionar resgate, enquanto o Flávio tentava contato pelo celular, ela sentiu algo que não era culpa nem medo. Era alívio. A montanha faria o resto do trabalho. A montanha sempre faz.

Ela é assim. Esse é o seu estilo de vida.

Texto de Hilton Benke – Autorizada a reprodução, desde que citada a fonte e o autor.

Lembre: Este texto é uma obra de ficção. Embora ambientado em um local real e inspirado em situações possíveis, não descreve fatos reais nem pretende reconstituí-los. Personagens, ações e acontecimentos são fruto de imaginação literária.

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Sobre o autor

Hilton Benke é um dos idealizadores do AltaMontanha.com. Dono de uma personalidade muito forte, é hoje praticante assíduo do voo livre, principalmente da modalidade "hike and fly", que une o voo com o montanhismo. Como montanhista e escalador, gastou seu tempo galgando montanhas brasileiras e andinas, além de ter prestado alguns serviços como instrutor de escalada junto ao CPM. Deixá-lo feliz é fácil: só marcar um bom pernoite em um cume da Serra do Mar Paranaense, com um bom menu para o jantar e uma condição de tempo boa para que possa decolar com seu parapente dia seguinte e realizar uma das muitas travessias sobre a Serra do Mar.

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