O Morro do Trabiju

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Vou lhe contar sobre uma montanha que você pode achar banal, se é que existe alguma, pois para mim são todas especiais. Não é muito elevada, nem é particularmente bonita, não pertence a uma região charmosa e, se você achar a estrada de acesso, tampouco será difícil, desde que o caminho esteja seco.

Por que eu então a incluí? Deixe-me lhe falar das mulheres feias, que pouca atenção merecem dos rapazes bonitos como você. Mas isto é um engano, pois podem ser inteligentes, bondosas, engraçadas – e até ricaças. Então, vale a pena ser humilde, e não desprezar montanhas banais como o Trabiju. E por que ele, dentre tantas outras? Acho que é por ser modesto e desconhecido.

O Morro do Trabiju

Se da Via Dutra você olhar para o lado da Serra da Mantiqueira, indo de Caçapava a Taubaté, poderá ver o belo perfil do Trabiju. O fundo de Taubaté é tomado pela grande massa do Pico Agudo, nome derivado de sua forma triangular.

O acesso ao Agudo é por Santo Antônio do Pinhal, aquela cidadezinha pouco antes de Campos do Jordão. É uma linda montanha, onde num domingo de sol você por certo encontrará muitas asas delta preparando-se para pousar lá embaixo no vale.

Mas voltemos à Via Dutra. Repare como existe uma formação meio trapezoidal na Mantiqueira, cerca de 10 km antes do Agudo, medidos na direção do seu deslocamento na rodovia.

Ela parece ser mais baixa que o Agudo, e também mais recuada em relação ao Vale do Paraíba. Dá a impressão de ser um grande platô, com uma privilegiada vista do Vale. Pois este é o Morro do Trabiju.

A visão ainda distante da corcova da pedra. Notar a estradinha de aproximação.

Pelas razões acima, sempre quiz conhecer o Trabiju. Acabou se tornando uma montanha muito especial, pois levei talvez dez anos até encontrá-la.

Uma vez saí de Santo Antônio à sua busca e acabei descobrindo uma bela estrada por trás da Mantiqueira. Em outra ocasião, fiz um longo passeio em Monteiro Lobato, sem sequer conseguir vê-la. Por duas vezes, tentei enxergá-la de pontos elevados, porém sem sucesso.

Até que, conversando com um conhecido, referi-me casualmente ao Trabiju. Ele já o sobrevoara de asa delta, saindo a oeste do interior de Minas,  e seu irmão conhecia a trilha!

Menos de um mês depois, estávamos quase no início da caminhada, quando o mau tempo (e, devo confessar, um carro atolado) nos fizeram retornar. É claro que minha companheira Myriam e eu lá voltamos na primeira oportunidade e aqui vai o relato, para que você também possa conhecer o Trabiju.

A estada de acesso pode ser encontrada sem maiores problemas: fica no Bairro da Matinada, logo depois de Monteiro Lobato, pela estrada velha de Campos de Jordão. Esta é aquela rodovia sinuosa que sai dos fundos de São José dos Campos, você tem que atravessar toda a cidade até ela. Monteiro é uma vilazinha que recebeu este nome em homenagem aos anos em que lá viveu este conhecido escritor.

Monteiro Lobato, vila de 4 mil habitantes, onde o célebre escritor teve uma fazenda (Fonte – www.meon.com.br).

É estranho que eu nunca tenha achado o Trabiju nos cartas de relevo do IBGE, uma vez que ele lá consta com clareza. Não se engane, o início regular desta estrada é enganador, no fim ela será quase intransitável. Use um veículo alto, se possível com tração, e evite os meses chuvosos do verão.

Você passará por uma bela fazenda, onde tomará à direita e logo encontrará uma porteira. Bom, a menos que tenham criado novas, serão cinco porteiras e cinco chaves de arame a testar sua paciência. Sempre subindo, se as pachorrentas vacas deixarem, a 9 km do começo você encontrará a casa de Seu Xavier à sua esquerda.

O melhor acesso é pela Fazenda Itambi, numa estrada muito precária, certamente deve atolar em dias úmidos nos trechos baixos. Se quiser, deixe o carro antes e vá andando, pode valer a pena poupá-lo. A menos que seja um motorista melhor do que eu – só consegui desatolar meu carro horas depois, e com a ajuda de um trator que tive de descer meia estrada para encontrar.

Comece a subir pelo pasto por trás da casa, tomando um rumo levemente à esquerda desta. Logo você passará por dois morros arredondados à direita. Procure uma trilha paralela à crista da montanha, deixe a comodidade do pasto e finalmente entre na mata. Você chegará depois de uma subida cada vez mais íngreme até o início da pedra, cuja parede você já estará enxergando há algum tempo.

Vista da base do Morro do Trabiju, cercado de vegetação montana.

Será talvez um pouco além de uma hora até os 1.300 metros de altitude do cume (este número é discutível, varia segundo as fontes até 1.500 metros, apenas usei o da carta de relevo), supondo que você tenha acertado o caminho. A subida final é breve e simples, pois há bastante grama intercalada com a rocha e o desnível não é grande.

Este é infelizmente o problema do Trabiju: no seu cume não existe uma ampla laje e sim um incômodo mato arbustivo, que tira sua beleza e sua vista, pelo menos aquela voltada para o Vale do Paraíba. Procure a caixa do livro, nós a deixamos lá na segunda vez que subimos a montanha, junto com um alegre grupo de Taubaté.

Mas, acredite, isto será compensado pela visão espetacular da geografia ao norte. Sei que não é possível, mas procure subir sem olhar para trás, assim você irá se deslumbrar com o cordão de montanhas à sua frente.

Vou lembrá-lo de um fato que pode ter passado desapercebido. Quando você saiu de Monteiro, notou os longos trechos baixos e planos que percorreu na rodovia, tão em contraste com as rampas e curvas encontradas até então?

Isto acontece porque Monteiro ocupa como que uma depressão, quase uma cavidade, que corresponde ao baixo vale do Rio Buquira. O que pode também ser notado quando se desce de Campos do Jordão por esta estada. É este desnível até o Trabiju que torna mais interessante a sua vista.

Voltado para o norte, você verá na distância à esquerda a Serra do Selado, terminando na sua inconfundível corcova arredondada. À frente estão o perfil interessante do Alto do Campestre e, mais ao longe, o conhecido desenho da Pedra do Baú. E à direita, as encostas cheias de vegetação do Pico Agudo a que já me referi.

A Serra da Mantiqueira vista do cume do Trabijú.

Estas montanhas parecem ligadas entre si por uma bela e variada crista. Talvez ela seja mais bonita pelo fato de ser em geral mais elevada que o Trabiju: o Selado e o Baú têm altitudes próximas a 2.000 metros e mesmo o Agudo excede os 1.600 metros. São todas montanhas bem visitadas, conforme o caso, por turistas, montanhistas e asa deltistas.

Do lado oposto, aparecerão as cidades brilhando na vasta depressão do Vale do Paraíba, em especial Taubaté. Mais além, as formações onduladas da Serra do Quebra Cangalha, já no rumo do litoral. É impressionante como esse panorama contém tanta variedade.

Sendo morro abaixo, a volta é rápida, e novamente muito bonita pelo contraste entre o pasto, a mata, o céu e a serra. Desde o cume, em 1 ½ horas você retornará ao asfalto da estrada velha rumo a Monteiro Lobato e daí, de volta a São José dos Campos.

Outra possibilidade, se você tiver tempo, é visitar São Francisco Xavier. É uma vila muito simpática, nas encostas da Serra do Selado – do lado oposto fica Monte Verde. Ou então você pode subir, na direção contrária, a bela estrada no interior da vegetação da Mantiqueira, que o separa do clima serrano e do charme suíço de Campos do Jordão.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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