A montanha não perdoa, não negocia e, acima de tudo, não esconde nada para sempre.
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Na base do Broad Peak, Paquistão.
Recentemente, o mundo do montanhismo foi sacudido pela tragédia no Broad Peak. Dez montanhistas desapareceram, entre eles Nirmal Purja, o “Nims”. Conheço bem aquela região. Já estive na base do Broad Peak, olhando para suas paredes íngremes e fascinantes, assim como estive muito perto do cume do vizinho Gasherbrum 2, de onde fui repelido por uma tempestade implacável. Sei o impacto visual, a escala e a vulnerabilidade que se sente ali.
Como colunista de montanhismo há mais de uma década, no AltaMontanha e mais recentemente no Portal iG, meu papel nunca foi o de mero espectador. Tenho a responsabilidade de analisar os fatos, trazer alertas técnicos e promover a segurança. Dizer a verdade crua sobre o ambiente de alta montanha não é falta de respeito com as vítimas; é um dever moral com quem fica e com quem planeja ir.
Para entender a dimensão do que aconteceu no Broad Peak, precisamos primeiro desmistificar o que é, de fato, uma avalanche.
A anatomia do caos: O que é uma avalanche?
Resumidamente, uma avalanche é o deslocamento repentino e violento de uma grande massa de neve, gelo e/ou rocha encosta abaixo. Elas se dividem em diferentes tipos, desde as avalanches de neve fresca (ou pó), passando pelas de placa (as mais letais para montanhistas, quando uma camada inteira de neve compacta se desprende de vez), até as devastadoras avalanches de gelo e seracs, provocadas pela ruptura de blocos em geleiras.
Trata-se de um fenômeno com poder destrutivo imensurável, muitas vezes impossível de prever. Não importa quanta tecnologia ou experiência você carregue: se você estiver no caminho de uma massa de milhares de toneladas descendo a centenas de quilômetros por hora, você está à mercê da física pura.

Uma avalanche na região do Broad Peak em 2023. Foto Pedro Hauck
O destino dos corpos: A ação violenta do gelo
Muitas pessoas longe do montanhismo imaginam que uma vítima de avalanche simplesmente adormece na neve e fica preservada como em um caixão de vidro. A realidade é terrivelmente mais cruel.
A força de uma grande avalanche quebra, esmaga e desmembra. São toneladas de neve dura e rochas impactando o corpo humano a uma velocidade brutal. Não é raro que os corpos fiquem desfragmentados. O caso histórico mais emblemático é o de Günther Messner, no Nanga Parbat: suas botas e restos mortais só foram exumados pela própria geleira e encontrados 50 anos depois.
Eu mesmo vivi uma experiência marcante com isso em 2022. Na frente da geleira do Huascarán, a montanha mais alta do Peru, deparei-me com os restos de três montanhistas que haviam morrido soterrados há mais de 20 anos. Vi botas, pedaços de roupas e equipamentos exumados. Eles ficaram enterrados sob toneladas de gelo, fundidos à geleira por décadas, até que o movimento natural de derretimento da neve na zona de ablação os trouxe de volta à superfície. É uma imagem que não sai da minha memória.

Restos de um montanhista exumado no glaciar do Huascarán em 2022. Foto Pedro Hauck
As tragédias do Broad Peak e do Huascarán
A tragédia recente no Broad Peak reforça essa realidade brutal. O GPS de Nims Purja indicou uma queda vertical direta de mais de 700 metros, não um deslize gradual, mas uma queda livre com o colapso da encosta. Imagine o impacto disso na fragilidade do corpo humano. Os relatos de campo indicam destroços e pedaços de corpos espalhados pela rota, e a montanhista omani Nadhira Al Harthy que o acompanhava foi encontrada longe, próximo ao acampamento base, a quilômetros do ponto de origem do evento.
O caso de Nims ganhou as manchetes globais pela sua notoriedade, mas não é o único. Há poucas semanas, novamente no Huascarán, três montanhistas, Alejandro Ugarte, Freddy Mendoza e Artidoro Salas Gaytán desapareceram. Ninguém está falando deles. A montanha não escolhe entre alpinistas renomados ou anônimos; novatos ou experientes; o impacto é o mesmo.
O Papel da Informação vs. O Sensacionalismo
Tenho visto críticas à minha postura por analisar abertamente estes cenários técnicos. O que realmente provoca tortura e falsas esperanças nas famílias das vítimas não é o trabalho de análise séria de quem vive a montanha há 28 anos. O que desrespeita as famílias é a enxurrada de vídeos falsos e teorias conspiratórias que circulam na internet, como a narrativa ingênua de que “o GPS do Nims voltou a se mover”, ignorando que o drift (flutuação aleatória) de sinal em receptores de GPS sob intempéries é um fenômeno técnico primário e extremamente comum.
Alertar para um montanhismo seguro e expor a crudeza do ambiente de alta altitude é um trabalho sério que realizo há anos, sendo reconhecido por isso no meio. Desrespeito é tentar apequenar quem dedica a vida a educar a comunidade para que tragédias não se repitam.
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Saber a hora de descer: A arte de ficar velho escalando
Não há problema algum em querer ficar famoso ou buscar grandes feitos com projetos pessoais no montanhismo extremo. Mas o preço do teto da montanha é alto. É fundamental saber a hora de recuar, mudar o foco para rotas e montanhas menos perigosas e ter como maior objetivo ficar velho para contar história.
O próprio Reinhold Messner é o maior exemplo disso. Ele sobreviveu ao Himalaia na sua época mais selvagem porque soube transicionar e parar no momento certo.
Quando um praticante decide cruzar a linha do montanhismo extremo e assumir riscos onde a margem de erro é zero, as consequências passam a ser escolhas conscientes. Diante da montanha implacável, esconder os fatos não protege ninguém; encarar a realidade é o único caminho para mantermos o respeito por quem se foi e salvar a vida de quem planeja ir amanhã.








