| Na paisagem do rio
difícil é saber onde começa do rio; onde a lama começa do rio; |
onde a terra
começa da lama; onde o homem onde a pele começa da lama; |
onde começa o homem
naquele homem.
João Cabral de Melo Neto |
Rios Amazônicos
Quero lhe falar sobre os poucos grandes rios amazônicos que de fato me impressionam. Eles parecem para mim quase sempre monótonos, no seu curso lento, seu aspecto barrento e sua enorme dimensão diluidora. Mas alguns deles são formidáveis. E, de cada um desses, contarei uma história diferente.
O Madeira
É curioso como o Rio Madeira é pouco conhecido, apesar de ser simplesmente o maior e o mais especial dos afluentes do Amazonas – seu comprimento e sua bacia são aproximadamente o dobro dos demais. Talvez abarque a maior biodiversidade da Amazônia, por conter águas peruanas, bolivianas e brasileiras. É um rio de planície que costuma inundar, criando alagamentos gigantescos por onde fluem os troncos das madeiras que lhe deram o nome.
É nessa condição que o Madeira deixa de ser um rio e vira um canal de navegação. Eu o conheci assim, quando suas águas na delicada cor bege claro formavam uma estranha região aquática que parecia pertencer a um outro mundo. Imenso, raso e parado, colorido em tom pastel e decorado por palmeiras de grandes folhas, era de uma beleza plácida e exótica.

O imenso mundo aquático do Rio Madeira, de uma serena beleza.
O Madeira, como o Amazonas, é um curso de águas brancas ou barrentas. Suas cheias transportam sedimentos que enriquecem as planícies de inundação, tornando-as especialmente férteis – em plantas, peixes, aves e mamíferos. Suas várzeas são locais privilegiados para a agricultura. Você encontrará uma situação inversa quando encontrar o Rio Negro.
O Rio Madeira, agora com duas grandes hidrelétricas e atravessando territórios já colonizados por gado e soja, está passando por perigosas mudanças que devem empobrecer a sua vida exuberante. Mas não é disso que quero lhe falar, e sim de uma situação por certo impensável – a de que o Brasil seria uma ilha.
A ideia não é tão absurda como parece: imaginava-se antigamente que houvesse um arco fluvial ligando os cursos dos Rios Paraná e seu afluente Paraguai com os do Madeira e do Amazonas. E, de fato, os altos cursos do Paraguai e do Guaporé (um dos formadores do Madeira) quase chegam a se tocar – o que conectaria as duas grandes bacias continentais. Note que ambas deságuam a sul e a norte no mar, como ocorreria com uma ilha marítima.
E não é que isso acontece? Diz Kevin Damásio que em anos de cheias extremas, o rio Guaporé, que desemboca no Mamoré, pode emendar com a bacia do Paraguai, na porção do Centro-Oeste do Brasil, transformando-se em uma ligação ativa entre as espécies da Amazônia e do Pantanal.

Na cartografia de João Teixeira Albernaz de 1640, o Brasil é visto como uma ilha, pois as bacias do Prata e do Amazonas se comunicam.
Em algum ponto desse mar fluvial haverá um filete d´água que fluirá através da bacia do Madeira para a Amazônia, encontrando o Atlântico a norte. E haverá outro que descerá pela bacia do Prata para chegar ao Atlântico sul. Nesse momento, o Brasil se transforma sem que saibamos numa gigantesca ilha.
O Tapajós
Diferentemente do Madeira, que nasce na Bolívia como Rio Beni, o Tapajós não possui uma nascente. Ele é formado pelo encontro do Juruena com o São Manuel e pouco percorre o Mato Groso onde começa, sendo essencialmente um curso paraense. É gigantesco mas é curto, sua extensão sendo metade da do Madeira.

O Tapajos banha florestas de grandes árvores e praias paradisíacas como a aqui mostrada. A mais famosa delas é Alter do Chão.
E é também um rio lindo, pois suas águas têm vida e têm cor. Sua profundidade parece insondável e ele se move como se fosse um corpo submerso, como se algo do seu interior sempre quisesse emergir. Como um antigo rio encaixado de planície, suas águas não carregam sedimentos, sendo esverdeadas, cristalinas ou azuladas como nenhuma das outras que conheço na Amazônia.
Cruzar o Tapajós pode ser uma aventura arriscada: no seu trecho baixo com largura além de dez km, levei quase 4 horas na incômoda companhia de ondas de até dois metros. No mar, acreditamos que elas têm o destino de aportarem na praia, mas nesse caso elas pareciam vagar por vontade própria. É um rio muscular, perigoso e sedutor, como são as suas marés, as suas florestas e as suas praias.

O encontro entre os Rios Amazonas e Tapajós, cujas águas de colorações tão diferentes não se misturam.
O Tapajós tem até hoje escapado de doar suas águas para projetos hidrelétricos, mantendo-se como um curso limpo, com poucas cidades e atividades próximas. A foz no Encontro das Águas à frente de Santarém forma um belo contraste entre os cursos claro e escuro do Amazonas e do Tapajós.
Mas o Tapajós tem começado a sofrer os efeitos do garimpo na sua bacia. Mesmo a 500 km de distância, essa atividade criminosa em Jacareacanga começa a contaminar e descolorir o seu curso. Talvez no futuro as águas dos dois grandes rios se encontrem em segredo, sem que possamos mais distingui-las.
O Negro
Se o Madeira é o maior afluente amazônico do sul, o Negro é o gigante ao norte. É só após a sua confluência que o Solimões passa a se chamar Amazonas. O encontro das duas águas de coloração distinta em Manaus é ainda mais longa e impressionante do que a do Tapajós. Isto se deve ao surpreendente colorido escuro das águas do Rio Negro, que levou dois séculos para ser finalmente compreendida.

O grande arco percorrido pelo Rio Negro rumo ao Amazonas.
A bacia do Rio Negro é a mais úmida em toda a Amazônia, o que causa a forte drenagem de seus terrenos. Isto traz duas consequências. Por um lado, as suas margens são compostas por solos geologicamente antigos lavados pela água, pobres em sedimentos e formados por belas areias finas e brancas, que criam longas praias.
Por outro, a liteira de folhas e ramos decompostos dos campos das margens carreia para o leito do rio substâncias orgânicas ácidas. Essa acidez vem do amargor do ácido tânico que os vegetais produzem para afastar os predadores. O seu pH de 4 é incrivelmente baixo ou ácido, quase como se fosse vinagre, pois o índice neutro é 7, ou mil vezes mais.
É esse húmus escuro que tinge as águas do Rio Negro e as torna tão pobres, com baixa fertilidade do seu ecossistema. A vegetação é a peculiar campinarana, que só ocorre na Amazônia, com árvores pequenas de grossos caules, com presença de musgos. Ou seja, uma flora distinta dos arbustos de aningas, dos igapós alagados e das florestas perenes criados pela abundância do Madeira.
O regime fluvial do Negro lembra o do Madeira, com forte oscilação nos níveis d’água. Ele é impactado pelas chuvas nas suas cabeceiras andinas, pois o Negro nasce na Colômbia, e chega a se conectar com a bacia do Orenoco. E também pelos tributários do Solimões nas épocas de enchentes.
Forma-se mais de um milhar de ilhas na mais branca areia, que compõem os maiores arquipélagos fluviais do mundo. Ou, inversamente, as ilhas podem submergir nas cheias, mostrando apenas as copas das árvores, e as antigas rochas do embasamento cristalino podem então aparecer, formando corredeiras no curso alto do rio.

Mapa da Cabeça de Cachorro, com uma dúzia de Terras Indígenas, com quase 250 mil km2 e mais de 60 mil índios. A área da figura corresponde a 3.5 pct de todo o território brasileiro.
Este rio tão diferente percorre a remota e acidentada região chamada de Cabeça de Cachorro. É nela que ocorre uma enorme concentração de mais de vinte diferentes etnias indígenas, dispersas por 750 aldeias. A mais populosa delas abriga os yanomamis, cujo território é o maior do Brasil.
É uma vida conflituosa e difícil, com enormes distâncias de transporte precário, poucos solos férteis disponíveis, águas escassas em peixes e presença tóxica de grileiros e garimpeiros – e também contrabandistas e guerrilheiros.

As brancas praias do Rio Negro em São Gabriel da Cachoeira, com a Serra da Índia ao fundo.
Sua capital é a vila de São Gabriel da Cachoeira, porta de entrada para o Pico da Neblina, nossa mais alta montanha. É um vasto mundo móvel feito de expectativas, com perigo e violência, com beleza, sofrimento e recompensa. Por duas vezes o frequentei junto com antigos companheiros e posso dizer que carrego até hoje uma parte dele comigo.
O Oiapoque
Mas não há que eu conheça rio amazônico mais estupendo do que o Oiapoque – com a possível exceção do Jari, onde nunca estive. Ele é um curso ao mesmo tempo periférico e estratégico, por se situar no nosso limite norte no Amapá, junto às Guianas, em especial a francesa. Forma uma bacia isolada, que corre diretamente para o mar.

As ilhas rochosas no leito do Oiapoque, próximo á formação que o divide ao meio.
A França sempre teve ambições na região, principalmente a partir da descoberta do ouro séculos atrás. Depois de invasões e guerras, o Brasil manteve para si o Amapá, por um tratado do primeiro ano do século XX. Mas a França continua lá, do outro lado do rio, nas vilas de Saint Georges e Camopi.
Além do ouro, foram a madeira, a castanha e a borracha que motivaram as migrações para essa região. Crioulos residentes, quilombolas fugidos, nordestinos e caboclos, junto com militares dos dois lados, vieram pelo norte francês e pelo sul brasileiro e desalojaram os índios aruak, palikor e galibi para viver do extrativismo, do soldo e do garimpo.

O curso do rio é decorado pela delicada beleza das flores rosadas, que emergem das pequenas ilhas rochosas.
Existe à volta do Oiapoque um enorme cinturão de áreas de preservação e terras indígenas – um dos grandes mosaicos de conservação do mundo, numa extensão grandemente contínua. Também o bordo francês abriga uma enorme reserva amazônica. Nosso maior PN, o Tumucumaque, tem no rio o seu limite. Um dia mencionei que este é um oásis verde ainda escasso de homens e abundante de natureza.
O Oiapoque é um curso de porte médio, algo como um sexto ou menos dos grandes rios que mencionei acima. Depois da ilha rochosa que o divide ao meio, próximo das vilas de acesso, ele se torna um curso rápido e encachoeirado. As suas são águas limpas e ágeis, circulando à volta de pequenas formações rochosas. Essas ilhotas têm uma gentil coloração creme e hospedam flores de belas espigas rosas.
A largura do Oiapoque é de centenas de metros e não de dezenas de quilômetros. Isto permite que naveguemos sempre próximos das suas margens, para encontrar o exuberante dossel da floresta amazônica, com altas árvores e palmeiras, que parecem tocar o céu.

A Vila Brasil, onde o Brasil acaba (Foto de Luciano Candisani).
Um dia, cheguei ao último povoado brasileiro nas suas margens, e assisti ao estupendo pôr do sol na Vila Brasil. Fiquei pensando se não valeria a aventura de dois dias mais até alcançar os chamados Três Saltos, perto de suas nascentes. Mas retornei sem conhecê-las. Não foi fácil entretanto deixar esse lugar fascinante, com uma aura de perigo e aventura envolvendo suas pessoas errantes e suspeitas, de origens misturadas, de ocupações incertas e de expedientes ligeiros. Bem parecido com as águas ariscas do Oiapoque.
O Xingu
Depois de mais de vinte anos transcorridos desde a minha primeira visita à Amazônia, jamais havia conhecido um de seus maiores rios – o Xingu. É sobre ele que passo a falar a seguir.








