Às vezes o mundo parece atroz, com renascimentos e desaparecimentos. Quero lhe contar quatro histórias, acho que cruéis, sobre nossa fauna ameaçada, em especial de mamíferos. Uma delas infelizmente resultou na extinção e outra levou a uma eventual redenção. Outros dois relatos falam do possível restabelecimento da espécie e da crescente ameaça à sua sobrevivência.
As Raposas das Falklands
Ocorreu-me como um notável mistério na história natural, comentou Darwin ao chegar nas Ilhas Falklands nos inícios do século XIX. Ele se referia a um animal parecido com um cachorro ou uma raposa, que era o único mamífero existente na área de 12 mil km² do arquipélago. Como ele poderia ter chegado lá, afastado por 500 km do continente? E sem que houvesse sequer qualquer espécie parecida com ele na América do Sul, aliás o único local de onde poderia ter vindo?
A análise do DNA da chamada raposa das Falklands ou lobo das Malvinas indicou que era aparentada a canídeos, mas teria evoluído e se dissociado deles a partir de 16 mil anos atrás. Naquela época, ainda existia a Era do Gelo: o mar era muito mais baixo e as ilhas muito maiores do que atualmente. Pontes de gelo teriam ligado o arquipélago ao continente, permitindo que esses animais migrassem e aprendessem a se alimentar das criaturas marinhas.

A raposa das Falklands.

Mapa das Falklands ou Malvinas.
E por que outros mamíferos não lhes fizeram companhia? Afora animais da água como leões e elefantes marinhos, não haveria outras espécies fortes ou hábeis o suficiente para atravessarem as plataformas de gelo daquela época. São os casos das lebres e roedores ou dos zorros e guanacos. Foi por isso que esses canídeos se tornaram os únicos a habitarem as Malvinas.
Esses lobos costumavam nadar até os primeiros colonizadores das ilhas, abanando amistosamente suas caudas, como os cachorros sempre fizeram. Foram chamados de tolos por não se protegerem e se deixarem sacrificar, seja para a captura de sua bela e espessa pelagem ou para a proteção dos rebanhos de ovelhas introduzidas nas ilhas.
E Darwin escreveu que provavelmente essa raposa teria desaparecido da face da terra. E, de fato, o último desses doces cães deixou de existir menos de meio século depois daquela sua visita. Abatidos pelo homem, de quem se diz que os cães são os melhores amigos.
Os Tilacinos
O maior mamífero marsupial jamais encontrado pelos povoadores australianos foi o tigre da Tasmânia ou tilacino. Muito tempo atrás, quando os mamíferos viviam escondidos e eram pequenos, existiam tanto canídeos placentários (como as espécies atuais) como marsupiais (com bolsas semelhantes às dos cangurus).
Os tilacinos eram parecidos com cães com sacos marsupiais, mas as listas nos seus dorsos lembravam os tigres. Porém os dingos ou cães selvagens trazidos na Austrália pelos asiáticos dizimaram três mil anos atrás esses pobres tigres caninos. Mas os dingos nunca chegaram à Tasmânia, uma pequena ilha logo ao sul da Austrália, e os tilacinos puderam então sobreviver lá.
Até que os colonizadores começaram a caçá-los no século XVIII, para proteger suas ovelhas. O governo local chegou a oferecer prêmios por sua morte. A perda do seu habitat, a falta de diversidade genética e o avanço da doença da sarna acabaram por exterminá-los. O último deles morreu num zoo em 1936. Os filmes desta época mostram pobres animais em cativeiro, inquietos e infelizes.

O tilacino.

Brasão da Tasmânia.
O governo da Tasmânia decidiu proteger oficialmente a espécie, mas era então tarde demais – o último sobrevivente havia morrido dois meses antes. Este derradeiro animal foi esquecido, até que uma pesquisa no museu onde estava depositado conseguiu identificá-lo geneticamente – e muito recentemente, no ano anterior em que escrevo este artigo! Todos os demais avistamentos dos tilacinos na natureza noticiados se mostraram falsos.
Os tilacinos são culturalmente importantes, frequentando as lendas aborígenes e aparecendo nos brasões da Tasmânia. Existe uma importante pesquisa que procura reviver esse incrível animal, através de clonagem com espécies aparentadas, junto com sequenciamento genético. Quem sabe, assim recriados, esses canídeos solitários, tímidos e noturnos possam de novo caminhar pelas sombras das florestas da Tasmânia.
Os Bisões
Antes da chegada dos europeus, os bisões pastavam por 2/3 do território americano, desde o México e o centro dos Estados Unidos até o Canadá. Animais enormes e peludos, eram aparentados aos bisões europeus e asiáticos, tendo migrado pelo Estreito de Bering durante as glaciações, nas duas direções entre a América e a Europa.
Eles foram naturalmente de grande importância para os indígenas, pois forneciam alimento, vestuário e abrigo, sendo considerados animais sagrados e cerimoniais. Eram também valiosos para a manutenção dos ambientes naturais das pradarias, com os quais interagiam.
A introdução do cavalo e, depois, das armas de fogo por parte das tribos nativas (ambos não existiam nas Américas) começou a pressionar sua população, que teria alcançado um máximo de 60 milhões de cabeças antes da chegada de Colombo.

O bisão norte americano.

Área de ocupação dos bisões.
O apoio do Exército americano foi importante para o início da caçada comercial aos bisões no século XIX. O Exército pretendia enfraquecer os indígenas, privando-os de sua fonte primária de alimento. Foi a época dos implacáveis Generais William Sherman e Philip Sheridan (você sabe, índio bom é índio morto).
Estes foram também os tempos de Buffalo Bill, que teria pessoalmente matado 4 mil bisões. Mas, no meio de sua vida, mudou de opinião ao perceber que a espécie corria o risco de extinção – existia apenas meio milhar deles nos fins do século XIX, especialmente no Parque de Yellowstone, o primeiro criado nos EUA. Esta e outras reservas foram fundamentais para a sobrevivência dos bisões.
Com o patrocínio oficial do governo, a população chegou hoje a 400 mil, embora sob limitada diversidade genética e hibridização com o gado bovino local. Sua proteção é vista como uma forma de preservar a história e a cultura dos povos nativos americanos. Para muitos deles, ele é tão vivo na memória como se ainda habitasse hoje as pradarias.
Os Ursos Polares
Ursos polares constituem os maiores carnívoros terrestres sem predadores. Sua população de 20 a 30 mil indivíduos ocupa um estreito nicho ecológico, do Alasca e Canadá à Groenlândia, Noruega e Sibéria.
Nessas regiões, adaptaram-se às baixas temperaturas, à convivência com a neve, o gelo e a água e à caça das abundantes focas. Como esse habitat foi pouco ocupado pelo homem, a espécie mantém mais da sua distribuição original do que qualquer outro carnívoro existente.
Os ursos habitam áreas onde o gelo encontra a água, ao longo do perímetro do gelo polar flutuante, raramente adentrando a bacia do Polo Norte, onde a frequência de focas é menor. Estas áreas são chamadas de Anel de Vida do Ártico. Têm alta produtividade biológica, em comparação com as águas profundas do Polo, que são mais pobres.

O urso polar.
Mas a população dos ursos está decaindo (entretanto, há estatísticas contraditórias). Eles têm um estilo estático de caça, esperando que as focas saiam para respirar de seus buracos no gelo, quando são rapidamente atacadas. Portanto, dependem da estabilidade do gelo marinho – com o aquecimento global, têm de nadar e se deslocar por distâncias maiores, com enorme queima das suas preciosas calorias.
O Ártico vem perdendo mais gelo do que qualquer outra região do planeta. À medida que o gelo da região desaparece, os ursos enfraquecem, sofrem de inanição, reproduzem proles menores e contraem mais doenças. A exploração de gás e óleo e a poluição crescente do mar também estão ameaçando e envenenando a espécie.
O urso polar tem sido uma figura fundamental na existência espiritual, cultural e material dos povos do Ártico. Alguns deles o consideram aparentado aos humanos – diz-se que alguns homens foram marcados pelo urso e vivem entre dois mundos, o dele e o nosso. Mas, com essas ameaças crescentes, sua presença está se tornando cada vez mais escassa nas suas vidas e lendas.








