Morre Carlos Comesaña, um dos responsáveis pela conquista da Supercanaleta no Fitz Roy

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O escalador argentino Carlos Evaristo Comesaña morreu aos 86 anos, em sua casa em Fortaleza, no Brasil,  em 01/08. Ele partiu deixando uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à escalada, à exploração e à divulgação das atividades de montanha. Entre seus principais feitos está a histórica ascensão do Fitz Roy, em janeiro de 1965, quando, ao lado de José Luis Fonrouge, tornou-se um dos primeiros argentinos a alcançar o cume da montanha e conquistando a via Supercanaleta.

Nascido em Buenos Aires, em 1940, Comesaña começou a frequentar as montanhas ainda adolescente, por influência do movimento escoteiro. Aos 16 anos, em 1956, realizou suas primeiras escaladas na região do Cerro López, em Bariloche. A partir daí, construiu uma carreira que o levaria a algumas das regiões montanhosas mais remotas da América do Sul e também ao Himalaia.

Carlos Camesaña no cume do Fitz Roy.

A histórica escalada do Fitz Roy

Foi na Patagônia que Comesaña encontrou seu principal campo de exploração. Ele conheceu a região do Fitz Roy pela primeira vez em 1958, aos 18 anos, e retornaria inúmeras vezes ao longo das décadas. Em 1965, protagonizou ao lado de Fonrouge uma das ascensões mais importantes da história do montanhismo na Patagônia.

A dupla alcançou o cume do Fitz Roy (3.405 m) pela Supercanaleta em 16 de janeiro. Na época, a escalada representava um enorme desafio técnico. Em vez de utilizar o estilo de expedição pesado então predominante, os dois adotaram uma abordagem mais rápida e leve, precursora do que posteriormente seria consolidado como estilo alpino.

Com apenas duas pessoas na cordada, sem cordas fixas ou acampamentos intermediários, Comesaña e Fonrouge permaneceram cerca de 70 horas na parede, enfrentando condições severas durante a ascensão e a descida. Segundo registros do Centro Cultural Argentino de Montaña, a experiência foi realizada com equipamentos que hoje parecem extremamente rudimentares, incluindo botas de couro e cerca de 20 pitons.

A ascensão é considerada um marco da escalada na Patagônia e ajudou a consolidar uma nova maneira de encarar grandes paredes: com equipes pequenas, autônomas e o mínimo uso de estruturas artificiais.

Explorador da Patagônia

A relação de Comesaña com a Patagônia foi muito além de suas próprias escaladas. Durante décadas, ele participou de expedições, levantamentos e explorações em diferentes regiões da cordilheira.

Entre seus feitos estão primeiras ascensões da Aguja Guillaumet, e da Aguja T-48, no vale do rio Túnel, além de explorações no Hielo Patagónico Sur. Também escalou na cordilheira Huayhuash, no Peru, e participou de expedições à Antártida.

Em 1969, organizou a expedição argentina à Antártida que realizou a ascensão do Monte Francés. Mais tarde, a partir da década de 1980, passou a incentivar novas explorações em áreas menos conhecidas da Patagônia, incluindo regiões do sul do Chile e da Argentina.

Em 1971, Comesaña assumiu uma posição de liderança na Terceira Expedição Argentina ao Himalaia, com destino ao Everest. A expedição reuniu 21 integrantes e enfrentou condições extremamente difíceis.

Inicialmente, Comesaña pretendia tentar o cume sem oxigênio suplementar ao lado de José Luis Fonrouge. No entanto, como chefe de equipe, precisou colocar as necessidades do grupo acima de sua própria tentativa.

A expedição chegou a aproximadamente 8.000 metros de altitude, mas foi obrigada a recuar diante da chegada antecipada do inverno, com ventos extremamente fortes e temperaturas próximas de -40 °C. Comesaña também sofreu os primeiros sinais de congelamento nos pés e precisou ser evacuado.

Apesar de não alcançar o cume, ele considerava a expedição um “fracasso respeitável”, justamente por ter terminado sem mortes e mantendo os princípios éticos que defendia no montanhismo.

Um defensor do estilo clássico

A filosofia de Comesaña tornou-se uma das marcas de sua trajetória. Ele criticava o que considerava uma transformação excessiva do montanhismo em uma atividade de conquista e defendia a exploração, a autonomia e a abertura de novas rotas.

Mesmo após parar de escalar, ele continuou incentivando novos escaladores e defendendo seus ideiais. Foto: Señal Calafate

Em uma entrevista ao Centro Cultural Argentino de Montaña, afirmou que a motivação principal deveria estar na resolução de novos problemas de montanha e criticou a utilização excessiva de estruturas artificiais, cordas fixas e grandes equipes.

Sua postura também o colocou em oposição a algumas intervenções realizadas em grandes paredes da Patagônia. No Cerro Torre, chegou a defender a retirada dos grampos utilizados na chamada Via del Compresor, símbolo de uma polêmica que marcou a história recente do alpinismo patagônico.

Para Comesaña, a montanha não deveria ser encarada como algo a ser simplesmente conquistado, mas como um espaço de exploração, companheirismo e respeito.

A aventura continuou fora das montanhas

Comesaña sofreu um acidente automobilístico em 1980, no Rio de Janeiro, provocou sequelas físicas que o obrigaram a abandonar a escalada. A interrupção, porém, não significou o fim de sua vida de aventuras.

O argentino transferiu seu espírito explorador para outras atividades, entre elas a vela de competição e o caiaque. Chegou a realizar o primeiro cruzamento dos Andes a bordo de um pequeno veleiro Laser.

O amor pelo mar o levou a viver em Fortaleza no nordeste brasileiro durante as últimas quatro décadas de sua vida. Lá ele continuou acompanhando e incentivando novas gerações de montanhistas.

“Patagonia Eterna”

A trajetória de Comesaña foi registrada no livro Patagonia Eterna, publicado em 2018, que reúne seis décadas de escaladas, explorações e experiências na montanha. A obra foi produzida a partir de entrevistas e conversas com o escalador e tornou-se um importante registro de sua vida e também da evolução do montanhismo patagônico.

Ao longo de sua vida, Comesaña acumulou uma relação singular com a Patagônia. Embora tenha vivido em grandes cidades e desenvolvido uma carreira profissional como contador e executivo, retornava regularmente às montanhas para escalar, explorar e pesquisar.

Após sua morte, montanhistas argentinos destacaram não apenas suas conquistas, mas também seu papel como mentor e referência ética. O montanhista Rolando Garibotti resumiu esse legado ao afirmar que ele permanecerá nas montanhas que percorreu, em seus escritos e nas gerações de escaladores que encontrou nele um exemplo de curiosidade e compromisso com a atividade.

As cinzas de Carlos Comesaña deverão ser levadas para Piedra del Fraile, aos pés do Fitz Roy, justamente de onde ele partiu, 61 anos atrás, para realizar uma das escaladas que marcaram para sempre a história do montanhismo patagônico.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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