A publicação do meu recente artigo sobre a evolução das travessias no Paraná gerou um debate necessário. Como autor e praticante, recebo as críticas técnicas com o respeito que a historiografia exige, mas é preciso separar a memória de nicho do registro histórico factual.
Um historiador trabalha com o que é público e documentado. No final do meu texto, apontei a dificuldade de obter dados precisos devido à falta de publicações. Reclamar que nomes de batismo como “Taquarumbi-Açu Mirim Pirocaba” não constam em um artigo nacional, quando esses dados nunca foram formalizados para o público, é uma contradição. O papel do jornalismo é dar luz aos fatos verificáveis; o papel de quem detém a “memória secreta” deveria ser o de compartilhá-la, não o de guardá-la como um troféu para ser usado como arma em polêmicas rasteiras.
Sobre a exigência de “provas” ou GPS: a história do montanhismo não precisa de satélites para se consagrar, mas precisa de registros. Joaquim Olímpio de Miranda, em 1879, não tinha GPS, rádio ou sequer trilha para subir o Marumbi, mas sua história se consagrou porque houve o cuidado do registro, da data e da narrativa. O que se critica hoje não é a falta de tecnologia em 1988, mas a ausência de uma cultura de publicação que valide esses feitos para as gerações seguintes. Sem o rastro no papel, a conquista vira apenas um “causo” de acampamento.
Minha motivação para escrever nunca foi a busca pelo mérito ou pelo “palco”. Escrevo para contar histórias que, se dependessem do silêncio de alguns grupos, seriam enterradas pelo tempo. Se o meu trabalho me trouxe visibilidade, não foi por desejo de fama, mas por uma lacuna que preenchi com pesquisa e dedicação. Sei bem o peso que essa responsabilidade carrega; ser lido por milhares de pessoas exige um rigor que não permite o luxo do amadorismo ou do rancor.
Agradeço as correções pontuais, como nomes e apelidos citados de maneira errada. O rigor biográfico é sagrado e será integrado ao texto. No entanto, lamento que o debate parta para a agressividade e para ataques pessoais por parte de quem se sente “apagado”. Ninguém apaga quem escreve a própria história.
Se existem feitos inéditos, como o citado Filo Noroeste, ou travessias solo que ficaram de fora, o convite permanece: escrevam e publiquem. O montanhismo é um exercício de humildade perante a montanha. A caravana da história não ignora ninguém; ela apenas segue o rastro de quem, além de caminhar, teve a generosidade de documentar o caminho para os outros.









1 comentário
Pedro, que belo artigo! Parabéns pela iniciativa de registrar as travessias paranaenses. Junto com você, sinto que a história deve ser melhor (e mais) contada em nosso país, que é tão carente dela. Espero que cariocas, mineiros e paulistas (entre outros) também se animem a esses registros!