Muitos montanhistas ficaram famosos mundialmente após escalar o Everest, seja pelo sucesso de suas expedições ou por conta de uma tragédia. Entre eles está um montanhista indiano que nunca teve sua identidade confirmada oficialmente, mas ficou famoso por permanecer na rota de acesso ao cume por décadas. Agora um dos corpos mais conhecidos da história do montanhismo pode finalmente deixar o Monte Everest. As autoridades indianas iniciaram uma operação para recuperar os restos mortais do alpinista conhecido mundialmente como “Green Boots” (Botas Verdes), que há quase três décadas permanece na chamada “Zona da Morte”, na face norte da montanha mais alta do planeta.
Além dos enormes desafios técnicos envolvidos, a iniciativa também trouxe de volta um antigo debate que há anos divide a comunidade do montanhismo: afinal, quem era o homem por trás das famosas botas verdes?
Durante décadas, praticamente todos os alpinistas que escalaram o Everest pela rota norte, no Tibete, passaram pelo pequeno abrigo de rochas localizado a cerca de 8.500 metros de altitude, pouco antes do Primeiro Degrau. Ali permanecia o corpo de um montanhista encolhido, facilmente identificado pelas botas de cor verde, que acabaram dando origem ao apelido.
Com o passar dos anos, “Green Boots” tornou-se uma das imagens mais emblemáticas — e também mais perturbadoras — do Everest. Seu corpo servia inclusive como um ponto de referência para montanhistas durante a ascensão ao cume, indicando quanto ainda faltava para atingir o topo da montanha.
Em 2014, os restos mortais do montanhista indiano foi colocado mais para o fundo da cavidade rochosa e coberta por pedras por uma equipe chinesa. A intensão era reduzir a exposição do corpo para os montanhistas que utilizavam essa rota. Desde então, ele não está mais visível para quem escala o Everest.
Ainda assim, a Polícia de Fronteira Indo-Tibetana (ITBP) pretende recuperar os restos mortais e levá-los de volta à Índia. No entanto, para que isso aconteça, o país abriu um processo para contratar uma equipe especializada em resgates de alta altitude. Entre as exigências está a participação de pelo menos seis sherpas com ampla experiência em operações acima dos 8.000 metros.
A missão também exigirá coordenação com as autoridades chinesas, já que o corpo está localizado na região tibetana do Everest.
Operação envolve riscos extremos
A operação anunciada pelas autoridades indianas ocorre em um momento em que Nepal e China vêm intensificando programas de limpeza nas montanhas do Himalaia, que incluem a retirada de lixo, cilindros de oxigênio abandonados e, quando possível, a recuperação de corpos.
Mas retirar um corpo da chamada “Zona da Morte” é considerada uma das operações mais difíceis do montanhismo. Além dos desafios inerentes da escalada, acima dos 8.000 metros, o ar rarefeito limita drasticamente a capacidade física e cognitiva dos alpinistas. Por outro lado, helicópteros não conseguem operar nessa altitude, obrigando todo o trabalho a ser realizado manualmente.

Localização aproximada da caverna onde se encontra o Green Boots. Foto: Carsten.nebel / Wikimédia commons
Outro desafio é o estado do corpo após quase trinta anos exposto às temperaturas extremas da montanha. Especialistas estimam que, devido ao congelamento e ao acúmulo de gelo, o peso possa chegar próximo de 200 quilos, tornando extremamente perigoso transportá-lo pelas encostas íngremes da crista nordeste do Everest.
É por esse motivo, que a maior parte dos cerca de 200 corpos que ainda permanecem espalhados pelas rotas da montanha nunca foi recuperada. Em muitos casos, o risco para as equipes de resgate é considerado maior do que o benefício da operação, além do altíssimo custo de uma operação como essa.
Mistério sobre a identidade
Embora o corpo seja conhecido mundialmente como “Green Boots”, sua verdadeira identidade nunca foi completamente esclarecida.
Durante muitos anos, a comunidade do montanhismo acreditou que os restos mortais pertenciam a Tsewang Paljor, integrante da expedição da Polícia de Fronteira Indo-Tibetana que desapareceu durante a violenta tempestade de 10 e 11 de maio de 1996. O desastre ficou mundialmente conhecido após ser retratado por Jon Krakauer no livro No Ar Rarefeito e é considerado uma das maiores tragédias da história do Everest.
Entretanto, documentos divulgados recentemente pelas autoridades indianas apontam uma versão diferente. Segundo os registros oficiais, o corpo seria, na verdade, de Dorje Morup, outro integrante da mesma expedição que morreu durante a tentativa de cume.
A informação surpreendeu especialistas e reacendeu uma discussão que parecia encerrada, já que durante décadas a identificação como Tsewang Paljor era amplamente aceita por montanhistas, pesquisadores e autores especializados no Everest.










