A proposta de conhecer alguns picos no estado do RJ, na região de Mangaratiba, me convenceu dedicar um fim de semana para sofrer e dormir na van na ida e na volta. No interlúdio entre as viagens, subir as duas Agulhas e depois cruzar a Serra do Piloto entre o Vale do Sahy, onde fica a portaria do Parque Estadual Cunhambebe e a Cachoeira do Véu da Noiva, no Vale do Rio Muriqui.
Misturando algo da correria do dia a dia com o infeliz procrastinar, pouco estudei esse trajeto previamente. Confiei, com razão, no alto nível técnico do grupo que pretendia fazer as pernadas. Nada menos que a Equipe Arcanjos, talvez o grupo de montanhismo “não-estruturado/formal” que aceita participantes diversos, mais competente e capacitado hoje no cenário paulista. Bom, que eu conheça, certamente. Que sejam exemplo para outros grupos capacitarem seus integrantes e a desenvolverem, de fato, um montanhismo autônomo e responsável.

Arranjo de equipamentos – mochila de ataque.
Pegamos a van na sexta, 22h30, na estação Tatuapé do metrô e, depois de uma viagem relativamente tranquila, às 5h18 estávamos de mochila nas costas, iniciando a caminhada por uma estradinha rural, ainda sobre o negrume da noite. A ideia era avançarmos até a entrada da trilha, para iniciarmos a ascensão pretendida com o dia já nascido. Andamos um bom trecho por uma estradinha rural, passamos por um portal com um portãozinho de ferro, com o cadeado apenas encostado. Abrimos, passamos e fechamos, continuando pela estradinha, ganhando altitude aos poucos. Algumas centenas de metros à frente, ao conferir nosso progresso, notamos que havíamos deixado passar alguma bifurcação à direita e tratamos de corrigir, varando um pouco de pasto.
Seguíamos um pouco à frente do grupo principal, apreciando o dia que nascera há pouco e que prometia nos brindar com períodos de sol entre nuvens, conforme previsto pelos modelos numéricos que acompanhávamos há alguns dias. Os resultados das diferentes modelagens convergiam e estávamos confiantes de um final de semana de temperaturas amenas, com o estio das chuvas que a última frente fria trouxera. Pouco focados, deixamos de observar uma bifurcação na estradinha, à direita e prosseguimos alguns minutos em desacordo com o track de referência.
Nosso erro de navegação, somado ao avanço que havíamos aberto em relação aos demais colegas do grupo fez com que estivéssemos muito distantes do grupo quando pessoas identificando-se primeiro como trabalhadores da fazenda e depois como proprietários, impediram, inclusive com ameaça de violência física “vamos chamar um amigo que é puliça e que já atirou em gente aí pra cima antes” que os demais prosseguissem para as Agulhas, independente de terem ou não autorização do gestor do Parque Estadual Cunhambebe para o acesso aos cumes.
Muito triste isso. Pessoas que viajaram muitas centenas de quilômetros, de outro estado, apenas para conhecer dois atrativos cênicos e que tomaram todas as providências para que a visitação ocorresse em conformidade com a zelosa administração do PEC. Irredutíveis, os ditos funcionários/proprietários não aceitaram fazer contato com o proprietário para verificarem se seria possível franquear o acesso ao grupo, dado que seria apenas a subida e descida aos dois cumes, tomando cerca de 4 horas, se tanto, entre ir e voltar pelas terras. Sequer lhes foi permitido apresentar a troca de e-mail entre o grupo e a gestão do PEC, que documentava o zelo em obter as devidas autorizações para cruzarem as terras lindeiras.
Depois, saberíamos que houvera um engano de nossa parte, durante a obtenção das pertinentes autorizações. Erráramos a data da nossa subida (realmente 27/6) e informáramos ao parque 29/6. No domingo (28/6), enquanto fazíamos a segunda parte do pretendido, cruzando a Serra do Piloto, soubemos que um funcionário do Cunhambebe estaria tratando da nossa passagem com os ditos proprietários/funcionários.
Se esse texto alcançar os reais proprietários daquelas terras, fica minha solicitação de que orientem aos funcionários quanto à boa lida com visitantes, que por vezes vem de longe. Aos gestores do Cunhambebe, acredito que caiba reforçar esse tópico nas reuniões rotineiras com proprietários das terras na região de amortecimento do parque, tornando o ambiente mais acolhedor e seguro aos visitantes que buscam apenas conhecer os atrativos, custosamente mantidos pela Sociedade.
Ignorantes de todo o imbróglio que se desenrolava na parte baixa, prosseguimos através das estradas que cruzam os pastos, observando aqui e ali, trechos em que os animais, mesmo quadrúpedes, haviam escorregado. A declividade e o solo úmido pareciam não permitir que se vencesse o trecho sem alguma derrapada que fosse, de forma que subimos em zigue-zague pela estradinha e depois de mais algum tempo, cometemos o segundo erro de navegação desse primeiro dia.
Subimos, em trio, o morrote da esquerda, paralelos e próximos ao nosso tracklog de referência. Isso no começo, pois a distância foi aumentando aos poucos. Primeiro 30 metros, depois 40, 50… mantivemos nosso rumo, certos de que seria apenas um capão de mata em uma grota e que logo superaríamos o grotão e faríamos a correção “por cima”, sem precisar perder altitude. Assim prosseguimos cacifando contra a mesa, ganhando metros na vertical às custas de suor e ofegar. Cada vez nos afastávamos mais da trajetória pretendida, cada vez menos seguros de que bastaria alcançar o cume (que nunca chegava) para vislumbramos a ligação em nível com nosso destino, à direita. Quando a separação excedeu 130 metros, capitulamos. Passamos a descer, bordejando a linha de arvores, em busca de um ponto em que pudéssemos acessar a trilha, sem precisar retornar tudo. Descemos até a separação voltar a ser pouco menor que 60 metros e nos embrenhamos na mata. A encosta, fortemente inclinada exigia que usássemos a vegetação como apoio para descermos, lentamente, aqueles metros tão arduamente conquistados. Aos poucos, a separação foi sendo reduzida, 55 metros. Depois 40 m, 30 m, 20 m. Já se fazia possível vislumbrar a trilha, que envelhecera de uma estrada de manejo de tempos idos. Mais alguns minutos e estávamos nela, caminhando rápido pelo terreno levemente ascendente que era nosso rumo pretendido.
Após poucos minutos de volta à trilha, deixamos a estradinha e, pegando a direita, passamos a ganhar novamente altitude, finalmente nas agulhas. A subida, a partir desse ponto é breve: começamos a subida da parte de pasto às 8h40 e 9h já estávamos entrando na parte de mata, buscando a base da rocha. Aqui e ali, ainda era perceptível as fitas que serviam de referência para os visitantes anteriores e a mata, ainda pouco avançara sobre a trilha, de forma que o progresso dependia de nossa capacidade de identificar os rastros de passagem anterior e, claro, do fôlego para varar alguns metros de macega morro acima. Pouco após a inclinação do pasto arrefecer um pouco, encontramos a dupla Cícero e Capote, que pegara o acesso correto lá atras, evitando a subida desnecessária que havíamos feito, bem como a descida pela encosta florestada.
Nesse trecho, um solitário tronco calcinado tornou-se testemunha da exuberância que a mata atlântica já exibiu em toda a área, convertida hoje em pastagens. O perímetro do PCE é extremamente recortado, visando acomodar os múltiplos interesses da Sociedade. Talvez nossos filhos ou netos presenciem ações para recompor gradualmente, áreas de mata com vegetação nativa. Nesse ínterim, acredito que seria interessante a abertura de aceiros que protegessem o parque da propagação de chamas, seja de queimadas de renovação dos pastos ou de eventos indesejados.
Aos poucos fomos nos aproximando da grande rocha que forma o cume da Agulha Maior, alcançada às 9h15. Desse ponto, uma sucessão de lances de escalaminhada, basicamente por aderência e por vezes empregando a vegetação como apoio nos levou ao platô do cume e, em seguida ao próprio cume da Agulha Maior da Mazomba, às 9h27. Notei um invólucro à margem do caminho e, supondo que fosse lixo abandonado por algum mal-educado, tratei de colocar de forma a impedir que esquecesse de recolher na volta. Estranhei peso e consistência e, ao abrir o saco plástico cinza-esverdeado, tive a grata surpresa de me deparar com o conjunto da urna do livro de cume, muito bem protegido por sucessivas camadas plásticas e por uma marmita de alumínio furada para evitar condensação, suponho. Dentro, protegido por mais uma camada plástica, o precioso livro de cume, instalado no ano anterior.
Fizemos uma parada para registrar nossa passagem, aproveitando para documentar as informações do livro de cume, de forma a preservar os registros históricos caso algum evento posterior o danifique. Poucos foram os montanhistas que cumearam as Agulhas antes de nós, desde a instalação do livro. Uma dezena, se tanto. Registrei os nomes dos colegas de incursão: Cícero (Bigode Maromba), Daniel Nogueira, Emerson Takami, Paulo Capote e deste que vos relata. Recolocamos as camadas plásticas, acrescentando outra, tipo ziploc, erigimos um pequeno totem sobre o livro para proteger o plástico da degradação pela luz solar e tocamos para a Agulha Menor. Depois, no conforto do lar, tratei de enviar imagens dos registros para o Centro Excursionista Brasileiro (CEB) e para o Arafat Fontoura (21) 96905-8519 a partir do perfil “Alice Julia” no Wikiloc. Fiquei sabendo que ele e a Cláudia Bessa, também do CEB, conquistaram a Agulha Menor em 3/4/2025, coroando a subida de reabertura da trilha para a Agulha Maior. Instalaram uma urna/caixa de cume na Agulha Menor (que não encontramos) e retornaram poucos dias depois, para instalar a urna/caixa de cume na Agulha Maior, conquistada, conforme informado, pelo trio Will, Nazaré e Leonardo, todos do CEB, porém em uma iniciativa particular.
O acesso ao colo entre a Maior e a Menor é feito pela direita, numa desescalada sobre o solo friável e parcialmente desagregado. Realmente, para esse primeiro lance, uma corda de 4 m ou uma fita é grandemente recomendável. Como nosso grupo, acabara por se tornar, involuntariamente, bastante reduzido, a fita de escalada que portávamos não se faria necessária. Na descida em busca do colo encontramos algumas fitas sinalizando o rumo adequado, duas ou três, se não me engano. Dobramos à esquerda, agora praticamente em nível até alcançarmos o ponto de retomarmos o subir que nos acompanhara pelas últimas horas. A subida é curta, e pouco depois, alcançamos a rocha que marca o cume. Fizemos uma parada um pouco mais prolongada, aproveitando para contemplar a paisagem que se descortinava por entre as nuvens. Fizemos alguns registros fotográficos e iniciamos o retorno, desconfortáveis com a ausência dos demais amigos do grupo.
O retorno até a Agulha Maior foi célere. Deixamos o invólucro do livro abrigado sob as pedras, sobre o a rocha que destaca no cume. Tocamos montanha abaixo, apreciando a vista e o sol que começava a se firmar por entre as nuvens.
Ao descermos, apenas corrigimos os erros de navegação da ida, alcançando o portão (agora com o cadeado trancado) às 11h40h. No extenso trecho de estrada, discutíamos o que poderia ter ocorrido com o restante do grupo, uma vez que o trajeto não apresentava desvios e o tracklog de referência estava bastante apurado. Chegamos na cachoeira do Bálsamo às12h41 e encontramos nossos companheiros aproveitando para banhar e descansar. Haviam sido barrados por pessoas que primeiro se apresentaram como empregados da fazenda e que teriam informado que o dono o não permitia a passagem. Ao saberem da autorização do PE Cunhambebe, não permitiram que se fizesse contato com o proprietário, passando a alegar que eles mesmos seriam os proprietários e que, se o grupo insistisse, seria baleado.
Impedidos de fazer a caminhada que havia sido agendada e para a qual se prepararam, ainda tentaram acessar a base da montanha por uma propriedade vizinha, que prontamente franqueou a passagem ao grupo. Galgaram vários morrotes, até restar trecho de pasto e depois de estrada rural para conectar com o tracklog. Apesar do grande desejo de cumear as Agulhas da Mazomba, a prudência prevaleceu, pois estavam com mochilas de ataque, sem equipamentos para uma exploratória que poderia se estender por mais horas do que dispunham e em cuja disponibilidade de água não podiam afiançar. Retornaram após batizar carinhosamente o derradeiro morrote alcançado como Agulha Mirim, em notável demonstração de montanhismo ao brincar com o possível ante o ineludível mano militari que lhes obstou a passagem.

Time da “conquista” da Agulha Mirim: Michele Moraes, Rafael Soares, Isabella Benitez, Ricardo Bianchetti e Bruna Pereira
Ficamos apreciando a cachoeira de águas refrescantes e o sol abrasador que agora se derramava sobre nós até pouco após as 14h, quando retomamos a caminhada, alcançando a van às 15h30. Aguardamos que todos os colegas chegassem e tocamos para encontrar um ponto para almoçar, numa tarde de baixa temporada e com a praia pouco ensolarada pelas nuvens que se acumulavam ao cair da tarde.
Paramos em sucessivos restaurantes de beira de estrada, sem sucesso. Eis que o Lucas, magistralmente, nos sugere o Raio de Sol, na orla da Praia do Saco. Chegamos lá e após confirmamos que poderiam atender 18 famintos, nos instalamos. O sistema do restaurante, com duas porções de proteína (frango, peixe, porco e ovos) e sem restrição na parte das guarnições caiu como uma luva. O repolho refogado com cubos de manga estava divino, as postas de peixe, fritas na hora não ficavam por menos. Além de muito bem servido, contava com latas de Coca-Cola zero e tudo em valores razoáveis. Dizer que saímos satisfeitos seria eufemismo. Saímos muito satisfeitos, quase todos preparados para o que seria a última subida do dia de muitos.
O camping merece um parágrafo à parte. Conta com algumas rústicas cabanas, que comportam, de forma espartana, até 4 pessoas. A área reservada para montagem de barracas é um mirante natural, plana e de solo macio. Alguns esperavam banho de água aquecida, que para mim entra na categoria de luxo inesperado. Foi necessário que se contentassem com o banho à temperatura ambiente. Máximo, proprietário do camping, se desdobrou em bem nos receber, cedendo duas barracas, uma para o Rafael, que esquecera as varetas e outra para o Danilo que se sentia apertado nas cabanas. Cozinha muito completa, com geladeira, fogão e utensílios para todos as necessidades. Para chegar ao camping, é necessário ultrapassar uma estreita ponte de alvenaria que ameaçava impedir que a van avançasse. Desembarcados, iniciamos a exigente sequência de lances de escadaria que dá acesso às cabanas e à área para barracas, algumas dezenas de metros acima do nível da rua. Para algumas pernas, tenho certeza de que foi a subida mais exigente do dia. Recomendo: camping em Muriqui: Máximo (21) 96843 3182.
Após nos ajeitarmos e banharmos, preparamos uma pequena comemoração dos aniversários da Bruna e da Isa, que prosseguiu como uma típica festa junina, com pinhão, doce de leite, churros, bolos e tortas, acompanhados de saborosas cachaças. Não sendo festeiro, recolhi-me e logo adormeci. Seria acordado, de hora em hora, a partir das 2h da madrugada pelo cantar do galo ou pelo transitar das composições férreas que levam minérios para exportação no porto da Ilha Guaíba.
Dia 2
São raras as saídas dos Arcanjos que participo e que permitem acordar sem pressa, tomar café com total calma, desmontar acampamento com o sol já bem firme. Tratei de aproveitar e 8h05 estava na calcada, esperando a van. Dedicamos alguns minutos para deixar tudo ajustado para os desembarques que seriam na estrada durante a viagem de retorno, com roupas para troca após o banho de f inal de trilha separada. Seguimos para a portaria do Cunhambebe, onde o Rafael reportou nosso intento e, também a autorização prévia que a Amanda providenciara.
Seguimos mais alguns minutos pela estrada do Vale do Sahy, desembarcando 9h17 para começarmos a caminhada do segundo dia. Pelo informado na portaria fazia muito tempo que ninguém percorria a trilha inteira, saindo na Cachoeira Véu da Noiva, no Vale do Muriqui. Um pouco surpresos pelo próprio pessoal do PEC não percorrer as trilhas principais do parque, intuímos que encontraríamos trechos com a passagem menos batida, de forma que procuramos que todos estivessem acompanhados de alguém com rádio ou que tivesse, ao menos, razoável desenvoltura na parte de orientação e navegação. Como sugestão, de forma a minorar o risco de que grupos menos capacitados possam resultar em operações de busca e resgate, o PEC poderia, durante o processo de autorização, solicitar informações sobre a composição do grupo que fará a visita e dos equipamentos que irá portar. A passagem de grupos de montanhismo, como a Equipe Arcanjos por trilhas de menor frequência de visitação contribui fortemente para a manutenção de condições propícias à navegação de outros grupos ou mesmo, permite reportar algum trecho que encontre-se mais confuso que os demais, de forma que o gestor possa direcionar esforços paliativos apenas para aquele trecho, sem dispender custosos recursos na trilha de forma geral.
Como de hábito, segui trilha acima contemplando vegetação, obras de engenharia e o passar do tempo sobre as ditas “conquistas humanas”. Trilho com um olhar muito particular, me detendo em coisas que, para a maioria são bobagens. Telhas, trabalhos de cantaria, rastros de passagens antigas, cortes de estrada.
Alcancei a bifurcação para o Mirante do Vale do Sahy às 9h53 e fiquei alguns minutos tentando visualizar a Pedra da Conquista. Observei a chegada do Lucas que dedicou alguns minutos na interpretação do caminho correto antes de seguir. Passei a acompanhá-lo, em trio com o Daniel, até a próxima bifurcação, onde um rastro descia em direção ao rio e o outro rumava para algumas bananeiras. Deixei que avaliassem e escolhessem o ramo que entendiam mais adequado, haja vista estarmos iniciando a caminhada e termos muito tempo para dedicar a testes e tentativas. Após optarem pelo ramo da direita, que se afastava do rio (mais batido no solo), alternaram e decidiram testar o ramo da esquerda, o que nos levou a um aprazível poço na base de uma pequena queda, onde encontramos o grupo da dianteira banhando e apreciando a tranquilidade do lugar. Fiz uma rápida entrada para banho, aproveitando para molhar as roupas, facilitando a refrigeração do corpo sob a intensa condição de umidade que a mata proporciona. Já ia retomar a caminhada quando notei um totem lítico na lateral do rio, sobre uma pedra. Questionei se havia sido erguido por algum dos colegas e frente a negativa, caminhei uns metros pelas rochas escorregadias e o desmontei. Ao retornar, notei um segundo totem, mais centralizado. Com cautela, buscando não molhar a barrigueira, onde guardava o celular, o alcancei e desmontei. A prática de fazer as pilhas de pedra traz impacto aos organismos bentônicos, prejudicando a biota e; pelo menos ao meu olhar, macula a beleza intrínseca da natureza com a “arte humana”. Acredito que quanto menor a percepção da presença antrópica nas áreas de natureza, mais pura e visceral será a experiência do visitante.
Retornamos ao caminhar, pelo ramo “da direita” para quem sobe e uma trintena de metros adiante, os rastros das passagens pregressas se tornaram confusos. Testamos um trecho e depois outro. Como ambos não apresentavam marca de passagem à frente, entendemos que ali talvez tenha ocorrido um escorregamento de terra há muitos anos, de forma que definimos um rumo conveniente e subimos, de forma intensa até alcançar novamente a parte em que a trilha está mais consolidada. Nesse momento, o Rafael, o Ricardo e o Emerson se distanciaram à frente. Continuamos a subir, agora compondo um trio com o Cícero e o Lucas até que passamos por dois ramos cortados recentemente, à facão, ferramenta que ninguém do grupo portava. Os cortes me acenderam um sinal de alerta, poderíamos estar a seguir em direção à uma trilha de caça, por vezes “minadas” com as perigosas armadilhas canõezinhos. Tentamos alcançar o Cícero, mas este, pilhado por alcançar o grupo da dianteira, subia acelerado. Após algum tempo nesse intento, pedi que parasse e nos aguardasse.
Quando finalmente alcançamos o Cícero, já na crista do morro, me detive uns segundos para ler o mapa antes de concluir que aqueles metros, tão arduamente ganhos, apenas nos afastavam da trilha que pretendíamos seguir. Havíamos nos afastado cerca de 80 m da trilha pretendida, que fazia uma curva suave, indicando que a trilha pretendida seguia em cota inferior, praticamente plana, acompanhando as curvas de nível. Avaliei a mata da encosta, buscando identificar o caminho de menor desgaste para descermos e procurando que abordássemos a trilha de forma perpendicular tornando mais favorável à identificação de eventuais rastros que houvesse.
Mantive o cuidado, durante a descida de observar se não caminhávamos para algum trecho vertical, e de refrear o ímpeto do Cícero para que não nos afastássemos demais do Lucas. Queria que ele vislumbrasse o rastro batido da trilha antes de deixarmos a mata da encosta. Foi legal ver em seu olhar alívio e o identificar do caminho “batido”. É essa garotada que trilhará forte daqui 20, 30 anos.
De volta à trilha, o Cícero puxou a dianteira, escudado pelo Lucas e comigo fazendo o “fecha” do trio. Sabendo que havia outros seguindo atrás de nós, procurei quebrar os ramos da vegetação que avançavam para a trilha, de forma a facilitar seu progresso e contribuir na manutenção da trilha. Com os 20 minutos que nossa incursão morro acima e morro abaixo custaram, pouco depois escutamos as vozes do grupo da Michele, Gerson, Isabella, Bruna, Paulo, Rafael Fabiano, Natalia e Daniel que logo nos alcançou. A Michele reportou ter lembrado de seguir os ramos quebrados. Bem legal saber que, na necessidade, as pessoas lembram dos ensinamentos do momento de tranquilidade.
Alguns metros a frente, passamos pelas ruínas de um rancho, telhas onduladas de metal, com belas (e comestíveis) flores de maria-sem-vergonha (Impatiens walleriana) vicejando em toda parte. Por curiosidade, registrei a posição (23K 604006 7466856) para consultar depois no mapa. Uma pequena nascente forneceu água ao rancho, abandonado durante o processo de ordenamento fundiário na criação do PEC.
Prosseguimos, agora por rastros cada vez mais abertos e batidos até alcançarmos, às 11h32 uma pequena cerca, com mourões de cimento, que franqueou acesso à uma larga clareira, onde a estradinha permitiria até a passagem em mão dupla. Às 11h37, uma segunda cerca, com mourões de eucalipto (suponho) controlava o acesso à margem do rio Sahy. Enquanto fazíamos uma rápida parada para banho, o pessoal do grupo de vanguarda testava prosseguir até a estrada da Fazenda Rubião, acompanhando o track de referência. Retornaram, constrangidos pelos cachorros que ladravam furiosamente. Estudamos um pouco o mapa e decidimos costear o rio e cruzarmos o pasto para acessar a estrada por sob a cerca. Marcamos o desvio efetuado com fitas alaranjadas, de forma a facilitar o trabalho o pessoal que fechava a trilha junto com a Ariane, Danilo, Francisca e Elisangela e informamos via rádio do desvio a ser feito.
Já na estrada, com a maior parte da subida do dia vencida, fizemos um breve acesso à cachoeira da Usina onde aproveitamos para banhar e lanchar. Curto muito o aspecto de arqueologia industrial que essas trilhas e ruínas propiciam. Uma pequena barragem, um ramal para a tubulação que alimentou o conjunto turbina/ gerador. A queda total disponível não é muito expressiva, talvez algo entre 15 e 20 m, de forma que foi necessário assegurar uma vazão majorada para permitir o aproveitamento da energia.
Voltamos à estrada no justo tempo de reunirmos aos colegas do grupo “de fecha” que chegavam capitaneados pela Ariane. Bonito demais ver o progresso dessa menina no mundo das trilhas. Caminha autônoma e segura em trajetos complexos, sob condições que muito marmanjo desistiria… e os Arcanjos, vez por outra, lhe propiciam instigantes desafios.
Seguimos pela estradinha até a Fazenda Rubião, onde o simpático Alisson nos franqueou a passagem, quando explicamos a travessia em que estávamos empenhados. Deixamos avisado que mais três colegas vinham pouco atrás e tocamos estradinha de manejo acima, na última subida que planejamos para essa travessia. Às 13h19 fiz uma paradinha para recuperar o fôlego e aproveitei para registrar o serpentear do grupo na estrada. Ultrapassamos uma porteira às 13h30 e descemos pela estradinha até alcançar um portão sinalizado como “propriedade particular”, passando a palmilhar uma trilha menos batida à esquerda.
Já de volta a trilha mais consolidada, passamos pela Fonte da Juventude e sequencialmente, por algumas bifurcações de trilhas que convergem para a trilha principal. Pequenos erros de navegação dos amigos que seguiam na vanguarda e ataques que empenhavam às cachoeiras do Rio Muriqui, como a da Conquista e a Do Palhaço, fazia com que encontrássemos de pouco em pouco, colegas que seguiam à nossa frente, como o Danilo, a Micheli, a Bruna, o Paulo, o Gerson, o Daniel e a Isa. Às 14h30 passamos por uma pequena barragem para captação de água e, em seguida pela cabeceira da Cachoeira Véu da Noiva, onde acessamos para algumas fotos, tomando extremo cuidado em não nos aproximarmos da borda da queda.
(E) Cachoeira Véu da Noiva, parte alta. Foto do Lucas. (D) Micheli, Bruna e Isa, parte baixa. Foto do Paulo.
No final da trilha, desviamos para a direita para conhecer a base da Véu da Noiva, às 15h para o derradeiro banho de uns e outros. Na base da queda, o grupo estava quase completo: Rafael Soares, Ricardo, Emerson, Michele, Bruna, Isa, Paulo Capote, Danilo, Daniel, Lucas e Gerson. Ainda a guardávamos Ariane, Francisca, Rafael Fabiano, Natalia e Elisangela.
O Cícero de alguma forma se distanciara de outros grupos e chegara na Van pouco antes de nós. `As 15h40 partimos para o restaurante, aonde fomos ainda mais bem recebidos que na véspera. Arroz e feijão quentinhos, peixes e batata frita preparados na hora… comi até mais do que devia, de tão saborosa que estava a comida. Deixo um agradecimento especial às cozinheiras Regina e Elza e à equipe de atendimento no salão, Íris e Juliana, super atenciosas. O atendimento, como um todo, foi um dos pontos altos da nossa passagem por Mangaratiba. Recomendo: Restaurante Raio de Sol, em Mangaratiba (021) 99114-6263. Maravilhosamente empanzinados, às 16h40 estávamos na estrada, sob a direção segura do Wefferton. Na viagem, fizemos uma parada para banheiro, onde demos muita risada e depois outras duas para deixar as meninas, em São José dos Campos e em Guarulhos. Às 22h35 chegamos no metrô Tatuapé e às 0h40 de segunda reportei a chegada em Santos ao grupo e caminhei pulei para os braços de Morfeus.
Estudando o Plano de Manejo do PEC e cotejando com o que observamos no campo, durante os dois dias de atividades, pode-se ter um vislumbre da complexidade que a gestão do parque precisa lidar, com uma multiplicidade de atores, legímos ou não que se espalham não apenas no extenso perímetro do parque, como também em invasões ou posses. Apenas a parte fundiária já representa imenso desafio. E, a ela se soma, a caça, avanço de espécies exóticas… Durante os dois dias, não observamos o abandono de resíduos no parque, à exceção das áreas próximas às comunidades, sinalizando que o reduzido fluxo de turistas não tem impactado negativamente o parque. Encerro com o reconhecimento quanto ao trato acolhedor que recebemos dos gestores, em todos os momentos que interagimos.





















