Alpha Crucis é a maior e mais brilhante estrela da constelação Cruzeiro do Sul.
Analogamente, a travessia é a maior e mais desafiadora por montanhas do Brasil, situada na Região Sul na Mata Atlântica da Serra do Mar do Paraná.
No símbolo, a constelação é representada sobre um fundo azul celeste, com a Alpha Crucis destacada. Ao centro os três elos representam as principais serras Paranaenses transpostas durante a desumana jornada, em investida única: Serra do Ibitiraquire, Serra da Farinha Seca e Serra do Marumbi.
A travessia original foi realizada pelos montanhistas Elcio Douglas Ferreira e Jurandir Constantino entre 28 de junho e 07 de julho de 2012, totalizando 132,6 km e 44 cumes, tornando-se a travessia por montanhas mais difícil do Brasil.
O traçado, contudo, permitia inúmeras otimizações implantadas entre 2013 a 2019. Entre as principais: Início pelo litoral via face leste do Ferraria, ligação Cerro Verde/ Luar via Meia Lua; ligação Siri/Ciririca via morro Caraguatá; a bela interagudos e sua rota visual conectando os agudos por cristas até a Garganta 235, e na sequência Corocoxó e Araponga; ligação exclusivamente por trilhas do Araponga até o caminho Histórico da Graciosa e a Casa de Pedra de onde se inicia a Serra da Farinha Seca; aberturado Morro Balança até a represa Véu da Noiva via Morro Isolado finalizando assim 1/3 da travessia faltante nessa Serra batizada de Farinha Seca Real (FSR); por fim, ligação do caminho Histórico do Itupava (por bosques e sem abertura) com a trilha Noroeste do Marumbi de onde se inicia a última serrania do Alpha Crucis.
Otimizada e sem estradas a travessia tornou-se muito mais contemplativa, objetiva e selvagem (99,98% por trilhas).
Mas além de otimizações a Alpha Crucis carecia de regras específicas para validar e condecorar futuras repetições. E assim com tantas alterações se fez necessário a criação de uma nova versão da travessia clássica, nomeada Alpha Crucis Express (ACE) inaugurada em 18/06/2019 por Élcio Douglas Ferreira, Israel Silva, e André Gauer Franzon ao transpor em menos de 8 dias 76,5 km 9.308m de altimetria e 50 cumes:
Ferraria, Taipabuçu, Caratuva, Pico Paraná, Itapiroca, Cerro Verde, Meia Lua, Minguante, Luar, Siri, Caraguatá, Ciririca, Lontra, Cutia, Cuíca, Marmosa, Tangarim, Corocoxó, Araponga, Mãe Catira, Polegar, Casfrei, Esporão Vita, Tapapuí, Farinha Seca, Macacos, Mojuel, Jurapê Açu, Jurapê Mirim, Balança, Galápagos, Passadiço, Tigre, Gigante, Pico Marumbi, Lagartixa, Boa Vista, Leão, Ângelo, Pelado, Espinhento, Alvorada2, Alvorada 3, Alvorada 4, Mesa, Sem Nome, Carvalho, Ferradura, Vigia, Canal.
A Saga Humana e Técnica na Travessia Alpha Crucis Express.
O mês era julho de 2024. Eu descia de um ataque ao Tucum quando encontrei o Jailson na base, na Fazenda da Bolinha. Ele vinha de um acampamento no Siririca. Como fazia muito tempo que não nos víamos, paramos para colocar a conversa em dia. Entre um assunto e outro, ele soltou a bomba: “Bora fazer o Alpha Crucis Express ano que vem?”. Confesso que levei um susto. Sempre fui apaixonado por travessias, mas a ACE não é um trekking qualquer; ela carrega a fama legítima de ser a travessia mais difícil e brutal do país. A ideia era ousada, o desafio era imenso e, depois de processar o impacto, pensei: por que não?
Marcamos um encontro seguinte para desenhar a logística, e o Jailson ficou de puxar mais braços para o time. Meses depois, em nossa segunda reunião, o Vanderlei já estava integrado à equipe. Alinhamos a estratégia e cravamos a data da largada: 4 de julho de 2025, casando com as férias deles no trabalho. Como tenho flexibilidade profissional, a data foi perfeita. Criamos um grupo no WhatsApp e as engrenagens começaram a rodar. O foco era total nos treinos. Porém, em março de 2025, o destino testou meus limites. Sofri uma lesão séria. O resultado da ressonância magnética foi um balde de água fria: duas hérnias de disco. Uma delas comprimia a raiz nervosa, irradiando uma dor insuportável pela minha perna direita. Ali, prestes a completar 55 anos, vi o sonho da Alpha Crucis Express escorrer pelas mãos. Mas a frase “nunca desista dos seus sonhos” precisava ser honrada. Abril foi um mês de tratamento médico intenso; maio foi o mês de iniciar a fisioterapia. Em junho, faltando apenas trinta dias para a travessia, as dores cederam e eu me movimentava bem. Decidi que iria tentar. Se o corpo não aguentasse, eu abortaria para não prejudicar a equipe. Para piorar o teste psicológico, faltando 15 dias para a largada, contraí uma gripe fortíssima. Entrei com uma semana de antibióticos e, no limite das minhas forças, me recuperei. Na semana da viagem, o clima na Serra do Mar virou completamente. O Élcio Douglas, nossa retaguarda, nos perguntou se queríamos adiar. Mas não tínhamos escolha; as férias do Jailson e do Vanderlei estavam programadas. Entraríamos na janela ruim mesmo. No dia 4 de julho, às 20h, o time se reuniu na minha casa, em Colombo. Estávamos nós três, acompanhados do meu irmão Leomar e do Dimas, que nos daria a carona logística até o Bairro Alto, em Antonina. Na descida da Serra pela Estrada da Graciosa, o vidro embaçado do carro nos dava o prelúdio exato do que nos aguardava naquelas próximas horas: uma noite escura, fria e sob uma chuva persistente. A Alpha Crucis Express ia começar, e a montanha não teria pena de nós.
A noite engoliu a Fazenda Lirio dos Vales sob o pior cenário possível para quem estava prestes a encarar o mito da Alpha Crucis Express. A chuva fria e implacável da Serra do Mar paranaense castigava os anoraques enquanto ajustávamos as lanternas de cabeça na escuridão total. Sabíamos que, pela frente, o gigante Ibitiraquire nos esperava transformado em puro lodo, raízes escorregadias e rocha molhada. Dar o primeiro passo em direção a Face Leste do Ferraria naquela madrugada, sentindo a água congelante escorrer pelo pescoço, não era apenas o início de um trekking; era o batismo forçado na travessia mais brutal do Brasil.
A chuva insistente já dava o tom do desafio, mas o verdadeiro teste de realidade veio no Rio Cotia. O leito, inflado pela água que descia das encostas, exibia um nível razoável e uma força que exigia respeito imediato. Sob as luzes oscilantes das lanternas de cabeça, a água escura batia forte contra as pernas, ameaçando o equilíbrio a cada apoio mal calculado nas pedras lisas. Cruzar aquele fluxo gelado na escuridão da noite foi o momento em que a ficha caiu: a Serra do Mar não estava para brincadeira, e as botas encharcadas seriam nossas companheiras pelas próximas dezenas de quilômetros.
A navegação na escuridão nos levou até a bifurcação da trilha da Picada do Cristóvão com o Ferraria face leste, o portal de entrada para a crista leste do Ferraria. A inclinação tornou-se imediatamente violenta e cansativa, agravada pela chuva incessante. Sentindo o peso do ritmo express, optamos por um bivaque estratégico antes dos temidos degraus de pedra e raízes da crista leste. A estratégia falhou . Sem o calor da atividade e com as roupas totalmente encharcadas, o frio da montanha nos encurralou. O tremor involuntário avisava que a hipotermia era um risco real e iminente. Entendemos o recado da Serra do Mar: ali, parado, você morre. Juntamos o resto de forças que nos sobrava, ajustamos os equipamentos e voltamos a subir. O cume era o nosso único refúgio seguro.
O relógio marcava exatamente 11:14 quando vencemos o último lance e atingimos o cume do Ferraria. A tempestade havia dado trégua, apesar do sol o cume ainda estava fechado por uma densa nuvem, fomos açoitados por um vento de inverno. Paramos para preparar um café bem forte e reforçado. Sentir o calor da caneca nas mãos e o alimento entrando no organismo foi como recuperar a dignidade perdida na madrugada. Revigorados e com a mente limpa, nos preparamos para a descida técnica e a subsequente subida em direção ao Taipabuçu.
Vencemos a descida do Ferraria sem grandes problemas, usando o apoio essencial das árvores nas pedras mais altas e superando com segurança o único lance técnico com corda. A trégua durou pouco. Logo após o colo, a subida do Taipabuçu exigiu muito do físico: o terreno íngreme combinado com os intermináveis bambuzinhos enroscando no equipamento transformou o progresso em uma tarefa exaustiva. A monotonia do esforço foi quebrada pelo encontro com o Jorge e seus amigos, que faziam a rota tradicional a partir da Fazenda Rio das Pedras. O Jorge, que já viveu a experiência da Alpha Crucis, sabia exatamente o que estávamos passando. Aquela breve pausa para conversar e tirar uma foto foi o combustível mental ideal para o trecho final. Nos despedimos e seguimos a investida rumo ao topo, atingindo o cume do Taipabuçu às 14:57.
O relógio marcava o meio da tarde quando nos estabelecemos no cume do Taipa. O tempo já estava aberto e o clima esquentou de forma amena, criando um ambiente perfeito para uma pausa prolongada. Decidimos esticar o descanso por um tempo ali mesmo, aproveitando o momento raro de conforto técnico na travessia. Comer sem pressa e fechar os olhos sem o medo da hipotermia restabeleceu nossa confiança. A Alpha Crucis Express seguia o seu plano, e aquele descanso no Taipabuçu foi o fôlego necessário para organizarmos o equipamento e iniciarmos a marcha pela crista em direção ao Caratuva.
A retomada da marcha após as 16 horas pela crista do Taipa exigiu foco. Mantendo a estratégia de progressão contínua, nossa meta era cruzar o topo do Caratuva e usar a Trilha da Conquista para acessar a base do Pico Paraná. Atingimos o cume do Caratuva às 18 horas, mas a descida da Conquista se transformou em uma armadilha física. Os bambuzais fechados e a lama profunda minaram nossas últimas forças, transformando o trecho em um teste de paciência desgastante. Quando finalmente alcançamos o A1 na escuridão, esbarramos na superlotação inesperada das clareiras de camping. Exaustos e sem solo seco, tivemos que nos afastar da área principal e buscar refúgio mais perto do Itapiroca. Armamos as barracas sobre um chão de água e barro, em condições extremas de desconforto. Ficou claro que o corpo havia atingido o limite: abortamos o ataque noturno ao Pico Paraná e priorizamos a sobrevivência para a manhã seguinte.
Dormir sobre o barro e a água não impediu que a mente processasse o desgaste. Naquela noite, conversando de dentro das barracas, eu e o Vanderlei concordamos que o limite havia chegado e decidimos desistir. O anúncio bateu pesado no Jailson, que lamentou, mas respeitou. O plano dele passou a ser uma caçada solo para alcançar a equipe do Macedo, Douglas e Rogério, que estava um dia à nossa frente na linha da Alpha Crucis. Mas o amanhecer trouxe uma reviravolta. O descanso me devolveu a energia e a vontade de continuar, enquanto o Vanderlei, conscientemente esgotado, optou por descer para não segurar o ritmo do grupo. O resgate foi alinhado ali mesmo: Jailson conseguiu sinal e ligou para a Gil, sua esposa, buscar o Vanderlei na base da Fazenda.
Livre da incerteza, eu e o Jailson traçamos uma estratégia crucial que mudaria o jogo para o resto da travessia: despachamos o excesso de peso com o Vanderlei, incluindo itens supérfluos e a barraca pesada do Jailson. Ficamos apenas com a minha barraca ultraleve, dividindo o peso entre nós dois.
O ataque ao cume do Pico Paraná foi consolidado às 10:36 e, numa progressão impressionante, às 12:57 já estávamos no topo do Itapiroca acendendo o fogareiro para o almoço.
Após o almoço no Itapiroca, aproveitamos para descansar um pouco e fomos assinar o caderno de cume. Lá em cima, encontramos um casal; conversamos brevemente e compartilhamos um vislumbre da nossa aventura, que, apesar de já parecer uma odisseia, sabíamos que estava apenas começando. Nos despedimos e apontamos as bússolas rumo ao Pico Luar, nosso objetivo para o pernoite. O caminho começou com a descida interminável do Itapiroca em direção ao Pico Cerro Verde. Ao atingirmos a bifurcação estratégica, adotamos a tática de velocidade: deixamos as cargueiras escondidas na trilha e partimos leves para um ataque rápido ao Cerro Verde. Com o cume concluído com sucesso, resgatamos o peso nas costas e seguimos a marcha para o Luar. Conforme a tarde caía, a montanha mostrava suas garras outra vez: o frio apertou e uma garoa gelada começou a nos castigar. Exatamente às 18:30, atingimos o cume do Luar na escuridão. Encontramos uma área de camping, montamos a barraca leve, trocamos o sofrimento pelas roupas secas e preparamos o jantar, nos abrigando rapidamente para recuperar o corpo em mais uma noite de isolamento na serra.
O terceiro dia como o anterior começou com o teste psicológico mais cruel do montanhismo: acordar e forçar o corpo a calçar as botas encharcadas e vestir as roupas molhadas da véspera. Engolimos o café e o desconforto, partindo rumo ao Siririca.
No caminho, transpusemos os picos Siri e Caraguatá em um ritmo forte. Às 11:15, pisamos no cume do Siririca e fomos presenteados: o tempo abriu. Aproveitamos cada minuto para estender as roupas ao sol enquanto preparávamos o almoço.Mas a trégua durou pouco. Logo após comer, iniciamos a vertiginosa descida da face sul do Siririca rumo aos Agudos. É um trecho infame: uma parede íngreme, cercada por precipícios e lances de corda, com o agravante de estar tudo excessivamente molhado e escorregadio. Uma desatenção ali seria fatal. Concentrados, vencemos o abismo e entramos em um ritmo bom pela crista dos Agudos. O relógio passou a registrar nossa velocidade: 13:57 no Agudo do Lontra, 15:03 no Agudo da Cotia, 16:15 no Agudo da Cuíca e 17:00 no Agudo Mamosa. Nosso objetivo final do dia era o Tangará, cujo cume conquistamos na escuridão, às 19:28.
O quarto dia começou com um alerta crítico: estávamos com pouca água. Sem tempo a perder, levantamos acampamento e iniciamos a marcha em direção à Garganta 235, a qual alcançamos as 09:30 , encontramos um ponto d’água crucial a alguns metros dali; deixamos as cargueiras na trilha e descemos para reabastecer as garrafas. Com a hidratação garantida, iniciamos a subida do Corocoxó, atingindo o cume às 10:13. Paramos para um café reforçado, o combustível necessário para encarar o Araponga, cujo topo conquistamos exatamente às 12:00. Ali, o cronograma batia perfeitamente: havíamos finalizado a imponente Serra do Ibitiraquire. A descida do Araponga foi longa e massacrante para os joelhos, mas a ânsia de fechar essa primeira serra nos empurrava para a frente. Às 15:00, alcançamos o Dique Diabásio, onde engolimos algumas barras de cereal e tocamos rumo à cachoeira Mãe Catira. Dedicamos poucos segundos à contemplação daquela queda d’água selvagem e continuamos a caminhada rústica.
A tarde já se despedia quando atingimos a Estrada da Graciosa. Como a ACE é uma travessia rigidamente roots — onde é proibido caminhar por estradas ou trilhos de trem —, cruzamos por baixo da ponte para acessar a trilha secundária atrás do Recanto Cascatinha. Contornamos o Recanto Engenheiro Lacerda em direção à Fazenda Gabers e, às 18:30, passamos pela histórica Casa de Pedra. Às 19:00, encerramos as atividades do dia. Era hora de descansar o corpo exausto, pois a manhã seguinte traria o início da Serra da Farinha Seca.
O quinto dia amanheceu com o ritual de sempre: café tomado e garrafas abastecidas no riacho. Começamos a subida do Mãe Catira animados, relembrando os perrengues passados. Concluir o Ibitiraquire nos dava a sensação de que a metade mais dura da ACE estava superada. O tempo ajudava, trazendo uma neblina densa que prometia sol. Mas a montanha cobra caro qualquer distração. Na bifurcação entre o Mãe Catira e o Polegar, tiramos as mochilas e o Jailson percebeu que estava sem o celular — o aparelho que registrava nossa rota em tempo real para o Élcio Douglas. Achando que havia esquecido no riacho, ele largou tudo e desceu correndo. Minutos depois, vasculhando a área da parada, encontrei o aparelho caído em uma moita de bambuzinhos; ele havia escorregado na hora de tirar a cargueira. Gritei, mas o Jailson já estava longe. O jeito foi esperar. Ele retornou exausto e frustrado, apenas para receber a notícia de que o celular estava ali. Perdemos um tempo precioso e ele sofreu um desgaste físico brutal e desnecessário.Mesmo assim, tocamos em frente: atacamos o Mãe Catira às 12:13 e seguimos para o Polegar. Após muito sobe e desce na lama, conquistamos o segundo cume às 13:35. Ali, a moral do Jailson que já sentia o cansaço da corrida na trilha foi resgatada por um bilhete deixado pelo Macedo, Douglas e Rogério dentro da caixa de cume. Junto com palavras de incentivo, eles deixaram chocolates. Descobrir que o grupo da frente estava a poucas horas de nós foi o combustível que precisávamos.
Registramos o Casfrei às 15:02 e miramos o Farinha Seca. Foi quando o azar bateu de novo: o Camelbak do Jailson começou a vazar. Ele improvisou uma tampa, e a tarde caiu trazendo um frio intenso. Batemos o cume do Farinha Seca às 19:00 sob o pior cenário: a mangueira havia soltado e inundado a mochila dele. Quase tudo estava ensopado, exceto a roupa de dormir, salva pelo saco estanque. Se o dia começou tenso, terminaria em modo de sobrevivência. Precisávamos alcançar o Morro do Macaco, único ponto com área de camping. A investida noturna pela crista da Farinha Seca foi um pesadelo técnico: trilha fechada, leitos de rios secos com pedras verdes escorregadias e um teto de mata tão denso que tapava o céu. Às 20:20, finalmente pisamos no cume aberto do Macaco. Sob um frio congelante e vento forte, armamos a barraca às pressas para nos proteger do inverno paranaense.
A noite no Morro do Macaco foi um verdadeiro pesadelo. O saco de dormir do Jailson estava completamente ensopado e, para nosso azar, aquela foi a noite mais fria de toda a travessia. Sem alternativas, ele vestiu a única roupa seca que havia escapado no saco estanque e se enrolou em um saco aluminizado de emergência. Foi uma vigília interminável; o risco de uma hipotermia severa e fatal era real. Ciente do perigo, abdiquei do meu próprio descanso: de tempos em tempos, eu o chamava na escuridão para monitorar seus reflexos e garantir que ele estava bem.Quando o dia finalmente amanheceu, a vontade era deixar para trás aquela serra de nome tão hostil. O Sol resolveu aparecer cedo e aproveitamos a janela de calor para estender os equipamentos enquanto preparávamos o café, conseguindo até rir do perrengue noturno. No entanto, o corpo sentiu a falta de descanso. Desgastados, saímos um pouco mais tarde do Macacos. Encaramos uma descida longa passando pelo cume do Mojuel e, na sequência, uma subida extremamente cansativa até o Balança. O corpo pedia arrego. Sem energia atingimos o cume do Ultra às 17:30 onde montamos acampamento para passar a noite.
A noite no Ultra foi, sem dúvida, a mais agradável de toda a expedição até ali. Com as roupas e botas finalmente secas, comemoramos com um jantar reforçado de ovos, calabresa e bacon antes de um descanso profundo e reparador. Pela manhã, com a energia totalmente renovada e o ânimo blindado, tomamos o café, desmontamos a barraca e miramos o Taquaral. O verdadeiro teste de nervos começou na descida em direção ao Véu da Noiva. Um grande deslizamento havia ocorrido na área, transformando o declive íngreme em um verdadeiro precipício. Com pouquíssimas raízes e galhos firmes para segurar, o peso das mochilas cargueiras jogava o centro de gravidade para a frente, nos deixando extremamente apreensivos. Não havia plano B: era o único caminho. Descemos com extrema cautela, tateando cada apoio, o que nos tomou um tempo precioso. Às 16:00, finalmente alcançamos o Cadeado para um respiro e, às 17:30, pisamos no Taquaral. Montamos o acampamento bem próximo ao rio e jantamos cedo. O descanso ali era sagrado, pois às 01:30 da madrugada do sétimo dia, iniciaríamos o ataque ao icônico Conjunto Marumbi.
À 01:30 da madrugada do sétimo dia, o acampamento no Taquaral já estava completamente desmontado. Avançamos na escuridão em direção à base do maciço para encarar o trecho mais técnico e vertical de toda a ACE: as correntes, paredões expostos e degraus de ferro do Marumbi. Iniciamos a subida em direção à Ponta do Tigre. Sob o feixe isolado das lanternas de cabeça, éramos como vagalumes desenhando uma linha de luz na silhueta imponente daquele gigante de rocha. Às 05:42, conquistamos o cume a tempo de assistir, lá do alto, às luzes da cidade de Morretes despertando no litoral. Após uma breve contemplação, tocamos para o Olimpo, o ponto culminante, onde pisamos às 07:34. Ali, tomando um café quente e admirando a imensidão, sentimos o sonho mais próximo. Sabíamos que, dali em diante, começava a reta final da travessia.
Sem mais delongas, miramos o Boa Vista. No caminho, enfrentamos o desafio técnico da Pedra da Lagartixa: um vão estreito entre rochas imensas, cercado por um precipício vertical. Passar por ali com as cargueiras pesadas era bem difícil, então criamos um sistema de revezamento, passando as mochilas de um para o outro de mão em mão. Vencido o obstáculo, cravamos o topo do Boa Vista às 09:30, parando para nos hidratar e comer barras de cereal. Mantendo o ritmo constante, passamos pelo cumes do Leão e Ângelo, após mais de 15 horas de caminhada ininterrupta e exaustiva, estabelecemos nosso acampamento na base do Espinhento para a nossa última noite na Serra do Mar.
Despertar sob o calor do Sol no oitavo dia trouxe a certeza do dever cumprido. Desmontamos o acampamento na base do Espinhento e, após um abraço apertado de comemoração pela nossa parceria, iniciamos a última sequência de cumes da ACE. Passamos velozes pelo topo dos Alvoradas às 09:19 e pelo Mesa às 10:42. O ritmo, contudo, precisou ser gerenciado no Sem Nome. O Jailson foi acometido por uma dor aguda na canela, reflexo do desgaste acumulado nas articulações. Intervi com medicação do meu kit de primeiros socorros e reduzimos a marcha para preservar a integridade física até o Carvalho. Alcançamos o cume do Carvalho às 13:11. Ali, o sinal de rede nos permitiu cumprir a regra de segurança da ACE: emitir o aviso de finalização da travessia e reportar as condições gerais. Jailson provou ser um parceiro incrivelmente duro, focado em marchar até o fim. Deixamos o penúltimo cume, o Vigia para trás, com o coração acelerado e consolidamos o Morro do Canal às 15:30. O contraste foi imediato: o cume estava repleto de turistas aproveitando o sábado de Sol. O aspecto roots da nossa dupla cobertos de lama e carregando cargueiras pesadas chamou a atenção de todos. Responder que estávamos há 8 dias cruzando as serras desde Antonina gerou incredulidade geral. A consagração final veio na descida da trilha, onde fomos recebidos pelo Élcio Douglas e Israel e na base, recepcionados por nossas esposas com e família e pelos amigos Macedo, Douglas e Rogério que já haviam concluído a ACE. Depois brindamos com o famoso caputino com pão de mel do Elcio, numa cerimonia criada em homenagem ao saudoso Professor Erwin Groger.
Alpha Crucis Express foi o teste definitivo de nossas vidas, e ela só foi possível graças a pessoas incríveis. Obrigado, Jailson, pela parceria brutal e por não me deixar desistir. Obrigado, Vanderlei, pela sabedoria e amizade e por se manter como apoio a equipe.
Gratidão a Rose minha esposa e a Gil esposa de Jailson que nos deram força e acreditaram que seríamos capazes de concluir essa jornada.
Obrigado Dindo, todos os dias mandando mensagens de apoio e nos dando dicas.
Ao Elcio Douglas gratidão pelo apoio técnico nos bastidores.
Cruzamos as três serras, vencemos o frio e a lama, mas o que fica de verdade é a certeza de que a montanha une os fortes. Obrigado família do montanhismo!























