Confirmada a morte de Nirmal “Nimsday” Purja e de outros nove montanhistas no Broad Peak

0

A comunidade mundial do montanhismo foi abalada pela confirmação do desaparecimento de dez montanhistas após eles serem atingidos por uma avalanche no Broad Peak (8.051 m), no Paquistão, em 30/07. Entre as vítimas estava o nepalês Nirmal “Nims” Purja, um dos alpinistas mais conhecidos da atualidade, que ganhou projeção internacional ao escalar as 14 montanhas com mais de 8 mil metros de altitude do planeta em apenas seis meses e seis dias.

Nirmal Nims Purja no cume do Nanga Parbat. Foto: @nimsdai

Além de Nimsday, como é conhecido, morreram os nepaleses Pur Bahadur Gurung também chamado de Yukta Gurung, Nima Sherpa, Gylau Sherpa, Nwang Thendu Sherpa e Kili Pemba Sherpa, o paquistanês Sohail Sakhi, a norte-americana Mallory Geis, a omanita Nadhira Al Harthy e o chinês Wang Zhong.

As operações de busca começaram imediatamente após o acidente e contaram com o apoio de helicópteros militares paquistaneses, além de uma equipe terrestre formada por experientes montanhistas locais, liderada por Sirbaz Khan.

Na manhã de 31/07, os socorristas localizaram inicialmente quatro corpos. Entre eles estavam o experiente montanhista nepalês Pur Bahadur Gurung, a omanita Nadhira Al Harthy e a norte-americana Mallory Geis.

Horas depois, o alpinista nepalês Mingma G informou por meio de suas redes sociais que outras cinco vítimas haviam sido encontradas, elevando para nove o número de mortos confirmados. Apenas o corpo do paquistanês Sohail Sakhi permanecia desaparecido

A confirmação da morte de Nimsday ocorreu apenas em 01/08, após Mingma G chegar ao Broad Peak. De acordo com o mesmo, em sua mídia social:

“Hoje, é com profunda tristeza e imensa dor que confirmamos o falecimento trágico de Nirmal “Nimsdai” Purja, vítima da avalanche em Broad Peak. Também recebemos a confirmação de que outros membros da expedição, infelizmente, não sobreviveram. Hoje, lamentamos não apenas a morte de Nims, mas também a de todos os que perderam a vida nesta tragédia, incluindo seus companheiros de escalada e guias, Pur Bahadur Gurung (Yukta) e Nima Sherpa. Nossos mais profundos sentimentos, orações e sinceras condolências estão com suas famílias, amigos e entes queridos”.

A carreira de Nirmal “Nims” Purja transformou o montanhismo de altitude na última década. Ex-militar das forças especiais britânicas, ele se tornou um dos alpinistas mais rápidos e influentes da história do Himalaia, estabelecendo recordes, liderando resgates e colocando os montanhistas nepaleses no centro das grandes expedições. Ao mesmo tempo, sua trajetória também foi marcada por debates sobre o uso de oxigênio suplementar, o estilo de escalada e a crescente comercialização das montanhas.

Quem foi Nirmal Purja?

Nascido em 1983, no distrito de Myagdi, no Nepal, Purja ingressou na Brigada Gurkha do Exército Britânico em 2003. Seis anos depois, tornou-se o primeiro gurkha a integrar o Special Boat Service (SBS), uma das unidades de operações especiais mais prestigiadas do Reino Unido. A disciplina militar e o treinamento extremo seriam fundamentais para sua carreira como alpinista.

Seu interesse pelo montanhismo surgiu após uma caminhada ao Campo Base do Everest. Em 2012 realizou sua primeira ascensão importante, ao Lobuche East, e, apenas dois anos depois, alcançou seu primeiro cume acima de 8 mil metros, o Dhaulagiri (8.167 m). Em 2016 chegou ao topo do Everest pela primeira vez.

Em 2019, Purja deixou a carreira militar para dedicar-se integralmente ao Project Possible, um projeto considerado impossível por muitos: escalar as 14 montanhas acima de 8 mil metros em apenas sete meses.

Entre abril e outubro daquele ano, ele completou o desafio em seis meses e seis dias, quebrando o recorde anterior, que era de quase oito anos. Durante a expedição também estabeleceu outras marcas, como a ascensão consecutiva ao Everest, Lhotse e Makalu em pouco mais de 48 horas. Todas as ascensões foram realizadas com o uso de oxigênio suplementar, fato que gerou discussões na comunidade do montanhismo, embora o feito seja amplamente reconhecido pela sua enorme complexidade logística e física.

Além dos recordes, Purja ganhou reputação por sua atuação em operações de resgate. Durante o próprio Project Possible, interrompeu ascensões para auxiliar montanhistas em dificuldades, incluindo um resgate de alta altitude no Annapurna. Também ficou conhecido por divulgar a histórica fotografia da fila de montanhistas próxima ao cume do Everest, em 2019, imagem que expôs ao mundo o problema da superlotação na montanha.

Em janeiro de 2021, Purja liderou a equipe composta exclusivamente por nepaleses que realizou a primeira ascensão da história ao K2 durante o inverno, considerada uma das maiores conquistas do alpinismo moderno. Antes de alcançar o cume, os dez integrantes da equipe esperaram uns pelos outros e caminharam juntos os metros finais, cantando o hino nacional do Nepal em homenagem aos montanhistas nepaleses.

Montanhista e empresário

Após consolidar sua carreira esportiva, Purja fundou a empresa Elite Exped, especializada em expedições de alta montanha. Também lançou o livro Beyond Possible e protagonizou o documentário 14 Peaks: Nothing Is Impossible, produzido pela Netflix em 2021, que apresentou sua história para um público muito além da comunidade do montanhismo. Em paralelo, criou a Nimsdai Foundation, organização voltada à conservação das montanhas do Himalaia, limpeza ambiental e apoio às comunidades locais.

Mesmo sendo uma figura controversa em alguns aspectos — principalmente pelo uso de oxigênio suplementar em recordes de velocidade e pelo modelo comercial de suas expedições —, Nirmal Purja é considerado um dos montanhistas mais influentes de sua geração. Sua carreira ajudou a mudar a percepção internacional sobre o papel dos alpinistas nepaleses, que passaram de guias de apoio a protagonistas das maiores conquistas do Himalaia.

Outros montanhistas experientes

Pur Bahadur Gurung (Yukta Gurung) possuía 28 ascensão a montanhas de oito mil metros. Ele havia completado 12 das 14 montanhas acima de oito mil metros.

Pur Bahadur Gurung (Yukta Gurung). Foto: @guideyukta

Nima Sherpa também trabalhava na Elite Exped e contava com inúmeras ascensões as montanhas do Himalaia. No Broad Peak atuou na instalação de cordas.

Kili Pemba possui 15 ascensões ao Everest, escalou todos os 14×8000 e, ao lado de Nimsday, participou da primeira expedição a chegar ao cume do K2 durante o inverno.

Kili Pemba. Foto: sherpalegend.com

Nadhira era formada em geografia e foi a primeira mulher omanita a escalar o Everest. Ela também escalou o Manaslu, K2 e Nanga Parbat.

Nadhira Al Harthy. Foto: Nadhira_alharthy.com

Mallory Geis.Mallory havia fechado seu estúdio de pilares para se dedicar às montanhas de 8 mil metros. Embora não tivesse cumes acima dessa altitude, Mallory possuía experiência em montanhas emblemáticas como o Aconcágua,  Huascarán e Ama Dablam.

 

Compartilhar

Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

Deixe seu comentário