Família de escaladores pela América do Sul, Parte 8

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Dia 03/01, desta vez acordamos mais cedo e pudemos tomar o café da manhã no hotel, que era servido no andar mais alto, com uma janelinha alta que dava vista para o telhado, onde estava morando, temporariamente, uma gaivota com seus dois novos filhotes. Enquanto a mãe voava de vez enquanto e voltava trazendo algum alimento para seus pequenos, os filhotes, mesmo com a forte neblina da manhã, ficavam muito à vontade desfilando pelo telhado com suas quentinhas plumagens.

 
Depois do café da manhã fomos pegar nossas roupas na lavanderia, como estava marcado para pegarmos às 2h, almoçamos por lá mesmo, em um restaurante estilo self-service ao lado da lavanderia. A comida estava ótima e eu conferi e aprovei mais um prato de palta, desta vez servido como base para uma salada de atum. No restaurante havia um destes labirintos infantis e o Luca mais uma vez foi se divertir enquanto esperávamos dar a hora de pegar as roupas, ele encontrou algumas crianças e fez amizade, era ao mesmo tempo engraçado e bonitinho ver ele interagindo com as crianças chilenas. 
 
Uns 20 minutos depois já era hora de pegar as roupas, deixei o Luca se divertir mais um pouco enquanto ia buscar as roupas e o Léo ficou com ele. Cheguei na lavanderia e me disseram que ia atrasar uns 20 minutos, voltei para o restaurante e eu e o Léo voltamos a olhar o Guia COPEC para conferir outros atrativos pelo caminho. 20 minutos depois saímos todos do restaurante, não sem algum protesto do Luca, e fomos pegar as roupas. Quando cheguei na 5 a sec, as atendentes me viram e começaram a “dobrar e colocar” as roupas em um saco, no melhor estilo socar. Pelo que eu estava vendo as roupas ficariam AMARROTADAS como se tivessem passado pelo gargalo de uma garrafa e até eu, que nunca liguei muito para estas coisas, comecei a ficar um pouco preocupada. Como não dava tempo de reclamar ou esperar por nada, fingi que não vi o que rolava com a roupa e tocamos. 
 
O mar foi nos acompanhando por quase toda a viagem e, aos poucos, o verde voltou a fazer parte da paisagem com seus campos e árvores altas. Queríamos chegar antes das 8h em Santiago para poder comprar o guia de boulders, a loja fechava às 8h e por isso a viagem seria “quase” sem paradas. Lanchamos no carro mesmo, mas no meio do caminho passamos por um parque eólico e tivemos que parar para esticar um pouco as pernas. Acabamos encontrando uma lebre passeando por lá, mas minhas mãos e minha máquina não foram rápidas o suficiente para registrar este encontro. 
 
Chegamos perto de 8h em Santiago e fomos procurar o guia, mas tivemos que rodar um pouco para encontrar a loja e quando encontramos, descobrimos que a loja já estava fechada… o guia teria que ficar para o dia seguinte. Decidimos jantar, o Luca pediu para ir ao Mc Donald’s, e procuramos muito antes de desistir (Mc Donalds não é muito popular por aqui) e acabamos parando em um Burger King mesmo, o sanduíche era bem mais barato que no Brasil. Depois da janta começamos a procurar hotéis, a maioria estava cheio e tivemos alguma dificuldade em encontrar, mas depois da meia noite conseguimos encontrar um hotel com quarto vago por 47.000 pesos (o equivalente a R$ 220,00) pelo quarto matrimonial, em dinheiro, porque o hotel não aceitava cartão. Olhando o quarto o custo x beneficio parecia razoável, mas achamos que não encontraríamos nada melhor a esta altura e resolvemos ficar por lá mesmo. O Luca já estava dormindo e eu tive que acordá-lo para tomar banho, mas na hora do banho… o ralo do chuveiro não dava vazão e transbordou água “box” à fora. Com isso, para mim, o hotel começava a ficar beeem caro e na hora de pegar nossas roupas… roupas molhadas, amassadas e… SUJAS, 5 a sec ficou registrada na minha memória como uma lavanderia cara, incompetente e PORCA. Fui dormir com raiva.
 
Dia 04/01 depois do café da manhã fomos na recepção do Hotel para pagarmos nossa segunda diária e descobrimos que fomos ROUBADOS. A diária do hotel para o nosso quarto era de 85 dólares, ou 36.000 pesos (equivalente a R$ 170,00) que podiam ser pagos com cartão de crédito. Fiquei com vontade de gritar e xingar, cansados e com o Luca dormindo não pegamos nota do pagamento e eu teria que esperar até à noite para “conversar” com a pessoa certa. 
 
Saímos novamente atrás do Guia, na loja que nos foi indicada pela galera de Coquimbo não tinha, mas eles nos indicaram a AndesGuear em um Shopping chamado Mall Sports e continuamos nossa busca. Dá para se ver o Mall Sports de longe, com um letreiro grande e colorido, mas o mais impressionante do local ainda estava por vir, passando na frente já se vê o porquê do nome. Com uma simulação de marina com água e barcos de verdade na frente, uma piscina de onda atrás da marina e ao lado da piscina, uma pista de skate. Dentro do shopping, uma parede de escalada guiada e uma pequena cave para boulders e… SÓ lojas esportivas.
 
Fiquei louca com o lugar, depois de apreciar as atrações do shopping no melhor estilo olhar com os olhos e lamber com a testa, descobrimos que não iríamos encontrar o Guia de Boulder e acabamos comprando um Guia de Escalada geral mesmo. Almoçamos por lá e tocamos para Cajón Del Maipo, região onde ficam os setores de escalada El Manzano e Choriboulder, próximo a Santiago.
 
Chegando no El Manzano… estava fechado, paramos em uma lanchonete próxima para pegar informações e descobrimos que só abria nos fins de semana. Tomamos um lanche pensando no que fazer e resolvemos seguir para o Choriboulder (um dos points de boulder mais importantes de Santiago, segundo o Guia). Pegamos estrada e no meio do caminho, em uma estradinha estreita de terra com montanha de um lado e despenhadeiro do outro, um caminhão tombou e a estrada estava fechada, tivemos que esperar uns 30’. 
Com a estrada liberada subimos mais um pouco e chegamos em um dos setores do Choriboulder. Quando chegamos encontramos uns escaladores entrando em um V10 e ficamos empolgados, eles nos disseram que não tinham graus muito fortes por lá, só V7/V8 e coisas assim, dei muuuita risada antes de dizer que V3/V4 estava de bom tamanho para mim. 
 
Mas para falar a verdade o point decepcionou um pouco, com a descrição do Guia eu estava esperando algo como o Los Monsters de Coquimbo, mas não foi bem assim. Encontramos poucos boulders neste setor, a maioria dos blocos eram pequenos, além de ser uma rocha estranha para mim, pareciam blocos recheados de pequenas pedras quebradiças. 
 
Os chilenos nos disseram que tinham muito mais boulders em um setor que ficava algumas centenas de metros mais acima, mas estava ficando escuro e, além de não escalarmos neste dia, também não fomos conferir o tal setor. Apesar disso foi a MELHOR PAISAGEM que encontrei em TODA a viagem… alguns setores de boulder encravados no meio das gigantes de vegetação e neve, cavalos selvagens correndo a nossa volta além de outras vidas selvagens como raposas. Depois de um breve reconhecimento do setor e outra breve e agradável conversa com os escaladores, agora envolta de uma fogueira (eu estava me sentindo em uma daquelas propagandas antigas da Marlboro) voltamos para Santiago. 
 
Nos arrependemos de não nos programar para acampar por ali, mas como não sabíamos o que íamos encontrar por lá resolvemos garantir a noite no hotel, além do que, teríamos que ter chegado muito antes em Santiago, ficou para a próxima. Chegando no Hotel o recepcionista ladrão não estava e nos disseram que ele só estaria no dia seguinte à partir das 3hs, como iríamos sair do hotel lá pelas 12hs, fiquei PUTA, mas não ia deixar esse ladrão FDP estragar a minha viagem. Fui dormir lembrando da paisagem do Choriboulder e esqueci, por enquanto, o golpe do hotel.
 
No dia 05/01 depois do que vimos no dia anterior decidimos conhecer os boulder do El Manzano e aproveitar para acampar no Camping El Manzano, então depois do café da manhã fomos para o quarto e arrumamos nossas coisas. Na recepção tentamos mais uma vez resolver a questão do recepcionista ladrão do hotel e, mais uma vez, não conseguimos nada. Mas como eu disse, não iria deixar um FILHO DA PUTA atrapalhar minha viagem. 
 
Antes de ir para Cajón fomos às compras para o dia (ou os dias) de camping. Depois da compra já era hora do almoço e comemos um sanduíche típico Chileno, com palta, e tocamos para os boulders. 
 
Chegando em Cajón, fiquei muuuito surpresa de ver todas aquelas famílias indo acampar, famílias inteiras, avôs, avós, pais, mães e filhos, era muita gente MESMO, fiquei MUITO impressionada. Nunca tinha me sentido tão em casa, tão na MINHA tribo, tão perto da minha comunidade IDEAL. Nunca tinha parado para pensar nisso mas, é claro que os chilenos teriam mais esta postura, lá é mar ou montanha MESMO, ainda assim fiquei apaixonada por aquele lugar, parecia tudo tão perfeito. 
 
Tudo aquilo me fez lembrar de um grande amigo meu, Máximo Kausch, argentino criado no Brasil, apaixonado por altas montanhas e fazendo delas a sua casa. Com um pequeno contato com uma cultura como esta já dá para sentir e entender melhor esta paixão pelas montanhas, fica fácil se apaixonar. 
 
Com a empolgação em alta acabamos descobrimos que, infelizmente, o Camping El Manzano se transformou em Área de Pic Nic El Manzano, por causa de problemas de segurança não se pode mais acampar na área. Saímos de lá para procurar por um camping, encontramos outros 2 bem próximos e decidimos por um mais barato e com menos lazer já que nosso lazer ficaria por conta do climbing. 
 
Depois de tudo acertado fomos escalar, já estava tarde mas a Área de Pic Nic fechava às 8h, ainda dava para se divertir um pouco. Foi bem fácil encontrar um dos setores, um campo-escola com muito escalador onde todos estavam nas esportivas. Mas com a falésia de um lado e um rio do outro, bem no meio da clareira, encontramos um pequeno bloco perfeito para aclimatar. Ficamos por ali mesmo, aquecendo em uma travessia V0 vertical de agarrões e um V1 levemente negativo, mas ainda tranqüilo, e depois dando uma pequena malhada em um V2 mais negativo de regletes e abaulados com um domínio delicado. 
 
No começo a língua representava uma dificuldade para começar conversas, mas aos poucos fomos nos soltando e conhecendo a galera, alguns ficaram curiosos com a gente e a nossa trip. Alguns escaladores que estavam fazendo via estavam com crash que nos emprestaram, não deu tempo de fazer muita coisa, mas foi o suficiente para nos divertirmos com o tempo que tínhamos. Os boulders eram bem legais, com boas agarras e uma rocha muito pouco abrasiva. Mais tarde a galera nos convidou para ir conhecer um outro setor de boulders, mais afastado do campo escola e beeem mais interessante. Como eles iriam dormir por lá, eles ficaram aproveitando o resto do dia, mas nós ficamos de voltar no dia seguinte para conferir, o El Manzano já estava para fechar. Voltamos para o camping, montamos a barraca, fizemos uma fogueira e jantamos macarrão com salsicha assada, tudo estava maravilhoso, mas o banho ficou para outro dia. 
 
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