Temporada 2026 do Everest chega ao fim com recordes, conquistas históricas e tragédias

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Após um início marcado por dúvidas e atrasos na abertura da rota até o cume, a temporada de escaladas de 2026 no Monte Everest chegou ao fim consolidando-se como uma das mais movimentadas na montanha mais alta do planeta. Entre recordes de ascensões, feitos inéditos de atletas, conquistas brasileiras e mortes que reacenderam o debate sobre segurança e superlotação, o mês de maio foram intensos no Himalaia.

O Everest, a maior montanha do planeta ainda é coberta de gelo. Foto: Luca Galuzzi

O principal destaque da temporada foi o número recorde de permissões emitidas pelo governo do Nepal. Foram concedidas 492 autorizações para estrangeiros tentarem o cume do Everest, o maior número já registrado. Como consequência, a montanha viveu uma das temporadas mais movimentadas de sua história, com cerca de mil ascensões contabilizadas. Os números exatos ainda serão divulgados pelo Himalayan Database.

O dia 20 de maio entrou para a história ao registrar 274 cumes pela face nepalesa do Everest, superando o recorde anterior. Em 2019, 336 pessoas chegaram no cume em um único dia (22/05). No entanto, foram 223 pela rota nepalesa e outros 113 pela rota tibetana. A concentração de escaladores na mesma janela de bom tempo voltou a gerar imagens de filas na chamada “Zona da Morte”, acima dos 8 mil metros, reacendendo discussões sobre a capacidade da montanha e os riscos da superlotação.

Fila de montanhistas a caminho do topo. Foto: Purnima Shrestha

Ainda não existe um número oficial de quantos montanhistas fizeram a ascensão sem usar Oxigênio Suplementar. Mas estima-se que pelo menos 10 pessoas (cerca de 2%) não utilizaram esse recurso. Entre os montanhistas que chegaram ao cume sem essa ajudinha estão Anja Blacha, Yan Chunqi, Marcelo Segovia, Kristin Harila e Nirmal “Nims” Purja.

Apesar do grande número de ascensões bem-sucedidas, a temporada também foi marcada por tragédias. Pelo menos cinco pessoas morreram durante a primavera himalaia, entre elas três trabalhadores nepaleses de alta montanha e dois montanhistas indianos que faleceram durante a descida após alcançarem o cume. Já o nepalês Hillary Dawa Sherpa, que desapareceu em 29/05, ainda não foi encontrado e as chances dele ter sobrevivido são quase nulas. Esse caso gerou acusações de negligência além de expor falhas no sistema de resgate do Everest.

Recordes e ascensões históricas

Entre os grandes nomes da temporada esteve o lendário sherpa Kami Rita Sherpa, que ampliou seu próprio recorde mundial ao alcançar o cume do Everest pela 32ª vez. O feito reforçou sua posição como o maior escalador da história da montanha. Mas Pasang Dawa Sherpa seu maior concorrente no número de ascensões também chegou ao seu 31º cume,  mostrando que está logo atrás. Já a sherpa Lhakpa Sherpa chegou ao topo pela 11ª vez, ampliando o recorde feminino de ascensões ao Everest. Outro destaque foi o britânico Kenton Cool, que alcançou seu 20º cume no Everest e ampliou o recorde de ascensões entre os montanhistas não nepales.

A temporada também ficou marcada pela tentativa de recorde do corredor e alpinista norte-americano Tyler Andrews. Após abortar uma primeira investida sem oxigênio suplementar, Andrews retornou à montanha e estabeleceu um novo recorde de velocidade com uso de oxigênio, alcançando o cume a partir do Campo Base em 9 horas e 55 minutos, mais de uma hora abaixo da marca anterior.

O atleta durante uma das tentativas. Foto: @tylerandrews

Outra conquista que entrou para história foi a de Rustam Nabiev da Rússia que se tornou o primeiro amputado bilateral a chegar ao cume do Everest utilizando apenas os braços e mãos, sem o uso de próteses.

Navieb atravessando uma das inúmeras fendas da Cascada do Khumbu. Foto: @rustam_nabiev92

Já a nepalesa Nilam Poudel se tornou a primeira mulher trans a chegar ao cume. Em suas redes sociais ela falou sobre como o momento é importante para a comunidade LGBTQIA+ do Nepal,  um país que teve o reconhecimento legal, mas com uma sociedade onde pessoas transgênero continuam a enfrentar barreiras sociais e institucionais. Enquanto isso, a indiana Nisha Sasikumar de 16 anos se tornou a mulher mais jovem a escalar o Everest pela rota nepalesa. O recorde geral de mulher mais jovem a chegar ao cume da montanha permanece a sua conterrânea Malavath Poorna, que escalou a montanha pelo lado norte tibetano em 2014, aos 13 anos e 11 meses de idade.

Nilam Poudel primeira mulher trans a chegar ao cume.

Nisha Sasikumar se aproximando do cume.

Bartosz Kacper Ziemski escalou o Monte Everest sem oxigênio suplementar e realizou a descida de esqui. Ele já havia escalado o Lhotse onde também desceu esquiando e se tornou a primeira pessoa no mundo a realizar esse feito nas duas montanhas em uma mesma temporada.

Para o Brasil, a temporada foi uma das mais expressivas dos últimos anos. No total, nove montanhistas brasileiros chegaram ao topo do Everest. Foram eles: Gustavo Cordoni, Roberto Lucchese, Adalberto Neto, Leonardo Pena, Eduardo Gouveia, Carlos Santalena, Diego Ariel, Francisco Campos e Murilo Vargas.

Cordoni, de 23 anos, também escalou o Lhotse na sequência e tornou-se o brasileiro e sul-americano mais jovem a completar o Double Header. Cerca de 24 horas após alcançar o topo do Everest, ele chegou ao cume da quarta montanha mais alta do planeta.

Cordoni no ponto mais alto do planeta. Foto: @gustavocordoni

 

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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