A conquista da Serra Chata nos Agudos

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A Serra Chata (1.080 metros de altitude) localizada no Município de Sapopema  é uma belíssima formação integrante da Serra dos Agudos e uma das últimas Montanhas que, inexplicavelmente, permaneciam virgens no Norte do Paraná, apesar dos últimos anos de intenso fluxo de Montanhistas na região.

A Serra Chata e o Pico Agudo

Corria o ano de 2015. Após muito tempo adiando, enfim era chegado o momento de ascender ao seu interessante cume. Desde o meu primeiro contato com seus belíssimos paredões e sua densa floresta estacional semi-decidual mista que ansiava por embrenhar-me em seus domínios.

Nas várias caminhadas em direção ao Pico Agudo, era comum deter-me por alguns instantes analisando qual seria o melhor traçado para uma futura trilha. Então, estudei os mapas e vislumbrei duas possibilidades de ascensão. A primeira por uma fenda vegetada no paredão da face Leste (nossa opção) e a segunda pelas florestas da face Oeste (completando a Travessia rumo ao Pico Agudo).

Pico Agudo e Serra Grande avistados do Cume da Serra Chata.

Assim, programada com três dias de antecedência para o feriado de 07 de Setembro, o objetivo inicial era abrir uma Travessia Serra Chata – Pico Agudo o que acabamos descartando face ao imenso esforço que seria transpor as Florestas e Campos virgens da Montanha com as cargueiras. Optamos pelo ataque.

Amolamos os facões na sexta, providenciamos o tubo de PVC para o Livro de Cume, areia e cimento e partimos de Rolândia às 4:15 da matina. Estacionamos a viatura no cotovelo da Serra, localizado na bifurcação com a estrada velha às 7:30 e iniciamos imediatamente a abertura da trilha.

A abertura da trilha

O primeiro trecho de caminhada ocorre em um belo fragmento de mata virgem repleto exemplares de lianas, gabirobas, pitangueiras, perobas, sapopemas, jerivás, figueiras e interessantes orquídeas terrestres…

Aspecto dos Campos na base do Paredão…

Após 50 minutos de agradável ascensão pela Floresta há uma grande rocha que desprendeu-se do paredão e que indica o início da transição para os campos. Apelidamos a rocha “chora na rampa” dado ao suor que vertia dos comparsas Lucas, Klaus, Catarina & esposa…

Seguimos adiante. Analisando de mais perto o paredão, vislumbramos um campo fértil para os praticantes de escalada, dado ao acesso relativamente fácil e as inúmeras possibilidades de vias, todas emolduradas pela paisagem natural mais bela do Norte do Paraná.

O trecho seguinte é denso colchão emaranhado de capim ‘gordura’ nativo que chegava a 1,5 metro de altura. Recordo que este ecossistema é sensível a queimadas, ainda mais nesta época do ano, recomendando-se, portanto, muita cautela no manejo de fogo ou cigarros.

Alguns trechos são domínios de pteridófitas (samambaias das taperas) que ofereceram resistência ao avanço, embora servissem como apoio para a escalaminhada pela borda do paredão… Já nas rochas e penhascos, há belíssimos exemplares de rainhas do abismo e dyckias.

O Vale do Rio Esperança (RPPN Inhó-ó)

Nos campos, passamos a nos locomover como lagartos rastejando por cima do emaranhado de capim nas encostas íngremes, muitas vezes sem pisar no chão. Tal fato, somado a grande verticalização, fez com que apenas o Lucas continuasse me acompanhando rumo ao Cume.

Rapidamente analisamos as possibilidades e decidimos continuar pela fenda que oferece segurança na escalaminhada. Avançamos algumas dezenas de metros auxiliados pela vegetação e nos deparamos com um trecho de parede, sem vegetação, mas com bons apoios na rocha. O local demanda atenção!

Chegando ao cume

Mais acima, vencemos o segundo trecho de parede e seguimos com mais tranqüilidade. Alcançamos o cume às 9h30. A trilha atinge o ápice da Montanha próximo a um belíssimo exemplar de canafístula onde descortina-se uma fantástica visão do Paredão e do Vale do Rio Esperança.

Parte norte da Serra Grande, Taff e foz do Rio Esperança.

Seguimos na direção norte do Cume de onde se têm uma visão fantástica do Pico Agudo, parte da Serra Grande, Morro do Taff, vale do Rio Esperança e sua foz no Rio Tibagi. No local, há áreas propícias para acampamentos.

Preocupados com a sorte de nossos companheiros que desistiram da empreitada abortamos a descida pela face Oeste, fizemos um rápido lanche e chumbamos o tubo esboçando um pato com pedras do local. Como ainda não retornamos, não sabemos se outros Montanhistas alcançaram este cume…

Aspecto da vegetação do Cume.

Rapidamente fizemos uma caminhada pela Floresta de transição que há no cume. Parêntesis aos belos exemplares de cactus nativos. Decidimos descer o paredão pela borda da floresta. Percorremos uns 30 metros com farto apoio em arbustos, até chegarmos a um precipício de onde só se pode descer com apoio dos cipós que abundavam no desfiladeiro…

Perguntei ao Lucas se ele encarava descer pelos cipós ou se retornaríamos ao conforto de nossa trilha já aberta… Optamos pelo retorno e alcançamos a trilha logo acima da primeira fenda. Este trajeto alternativo (mais seguro, para quem não gosta de rocha exposta) não chegou a ser demarcado, pois nossa fita isolante vermelha havia chegado ao fim…

A partir daí a caminhada fluiu rapidamente pela trilha já aberta e sinalizada. Em cerca de 40 minutos já havíamos retornado a nossa viatura. Decidimos partir direto em direção ao paradisíaco Salto Lambari… As 14 horas, já ensaiávamos o tradicional salto em suas águas verdes gélidas… Uma merecida recompensa para uma memorável empreita!

Chumbando o Livro de Cume. Ao fundo o P.A.

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Sobre o autor

Paulo Augusto Farina

Advogado graduado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), empresário e corretor de imóveis em Rolândia-PR. Casado, três filhos. Conselheiro Ambiental por dez anos e Vereador (2001-2004), autor do Código Ambiental do Município de Rolândia. Integrou o Grupo Escoteiro Guarani (46-PR) por mais de 10 anos; Montanhista e Jardineiro nas horas vagas. Apaixonado pela Serra dos Agudos (PR).

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