A Onça Borges

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Como os maiores animais de nossa fauna, as onças não poderiam deixar de figurar no folclore. Na realidade, eu já as avistei algumas (poucas) vezes na natureza. Mas não acho que haverá muitas outras.

Fico pensando que as onças são grandes demais para continuarem sobrevivendo nesse mundo de natureza escassa. Veja que esses felinos quando adultos precisam de um território de talvez 100 km². Onde vão continuar dispondo dele a não ser na Amazônia, pelo menos enquanto não for ocupada?

De tantas histórias sobre esses felinos, prefiro a da Onça Borges. Ela era na realidade um vaqueiro mágico no norte de Minas de mesmo nome, também conhecido no Nordeste como Ventura – e parecido com a figura do Vaqueiro Misterioso. Era capaz de percorrer incríveis distâncias, de reunir todo o gado perdido na caatinga, de enfrentar os mais ferozes animais. Na realidade, era também uma onça. Para que voltasse a ser homem, seria necessário que alguém pusesse em sua boca um punhado de folhas verdes.

Entretanto, o vaqueiro aprendiz a quem revelou seu segredo era covarde e fugiu apavorado de seu mestre, ao invés de transformá-lo em homem de volta. A onça passou a persegui-lo e a devastar os currais, até que foi atacada com lanças e tiros. Faleceu depois de uma luta desesperada.

Diz o conto de Manuel Ambrósio: Naquele duro momento, ao dar com os olhos no ingrato discípulo que ali se achava entre os matadores, soltou um terno e prolongado gemido que nada tinha de selvagem, seguido do último suspiro.

A Onça Borges era um vaqueiro enfeitiçado.

Januária Alves descreve outros animais lendários. A Onça-Boi é conhecida na região amazônica. É uma onça pintada com quatro patas fortes e redondas, como as do boi. Anda sempre em casal. Quando um sertanejo avista o par, sobe logo numa árvore para se salvar, pois com essas patas os felinos jamais poderiam galgar pelo tronco. Mas, por estarem em dupla, um dos animais vigia enquanto o outro dorme, até que o sono e a fome façam o homem cair nas suas garras.

A Onça da Mão Torta é enorme e assustadora, com uma das patas dianteiras completamente torta. Dizem ser uma alma penada, um animal encantado que não pode ser morto.

A Onça Maneta possui apenas três patas, falta-lhe uma das dianteiras. A força, ferocidade e fome insaciável fizeram sua lenda correr o mundo, ainda mais porque é impossível matá-la. Contam alguns que desapareceu em algum lugar desconhecido, mas dizem outros que seus rastros ainda podem ser vistos pelo sertão.

A encantada Tapiora, que vinga os maus caçadores.

Segundo o relato (resumido) de Januária Alves, nos fundos dos charcos e igarapés, vive uma onça chamada de Tapiora. Ela ataca os pescadores tão rapidamente que não há tempo para se defenderem. Como vive embaixo d´água, o que a denuncia é o cheiro forte que possui.

É um felino com cabeça e patas de anta, que se aproxima descuidado, dando a impressão de que o caboclo poderá abatê-lo com facilidade. Até que a Tapiora se levanta da água e desfere seu bote mortal. É um animal místico que ataca os caçadores que violam as leis da caça, em especial quando agridem fêmeas grávidas.

A grande inspiração e principal fonte deste texto foi o bonito livro de Januária Alves sobre os personagens do folclore brasileiro.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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