A Polêmica da Via Ferrata do Pico de Itabira

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O Pico de Itabira, localizado em Cachoeiro do Itapemirim no sul do Espírito Santo ganhou uma Via Ferrata que liga a sua a base até o cume através de uma grande “escadaria” fixa em suas paredes. O Pico é um monólito de 715 metros de altitude e se tornou símbolo da região por conta do seu formato. Todavia abertura da rota gerou polêmicas na comunidade de montanhistas da região.

O grandioso Pico de Itabira com suas encostas íngremes.

A ideia de fazer uma Via Ferrata nessa montanha surgiu há mais de 25 anos na cabeça do escalador Nicasio de Paula. Esse ano os proprietários do sítio onde o Pico esta localizado realizaram a colocação dos grampos na rocha em parceria com o escalador. O objetivo é fomentar o turismo na cidade. Segundo Ezequiel Vieira, um dos conquistadores da via, isso trará uma nova opção de aventura e renda para a região. Eles também pretendem criar uma infraestrutura para poder atender ao público.

A rota foi nomeada como Via do Nicasio. Ela possui 20 metros de escalada no início, mais 200 metros equipados com degraus e 40 metros onde é possível caminhar para chegar ao cume. Foram instalados 300 degraus a uma profundidade de 100mm. Para realizar os furos foi usada uma furadeira ligada a um transformador.

As críticas

Todavia, ao divulgar a nova Via Ferrata, os idealizadores dela receberam criticas da comunidade de escalada capixaba. De acordo com uma nota oficial, a Associação Capixaba de Escalada (ACE) repudia veementemente a construção no monólito. O principal motivo por eles desatacado é que a montanha é um monumento natural e faz parte de uma unidade de conservação. Além, disso eles alegam que a Via Ferrata entra em conflito com as características esportivas do local que é famoso pela escalada de alto nível. Outro ponto citado pela ACE é que a construção da via danificou a vegetação presente na rocha.

Os grampos utilizados na via. Foto: Ezequiel Vieira

De acordo com Vieira, o local escolhido para a via segue por uma rota rochosa sem vegetação e não passa por nenhuma via de escalada do pico. “A via do pico Itabira andamos 100 % em cima de rocha, não há vegetação”, disse Vieria. Os conquistadores também levaram em consideração o fato da via ficar em uma face onde há um platô para um descanso, pega pouco sol, tem fácil acesso e em caso de emergência também é fácil o transporte de pessoas e equipamentos. “Apesar dos ataque das pessoas que nunca foram lá, ficamos meses pesando nos mínimos detalhes. A localização desta via na pedra foi escolhida neste ponto pois é o lugar que menos bate sol e dá para vê as pessoas subindo de lá da casa”, disse Vieira.

A ACE também critica o fato da Via Ferrata facilitar a subida de pessoas inexperientes e diz que a ancoragem nos vergalhões da escadaria não é efetiva para segurar quedas. Já Vieira defende que para garantir a segurança dos frequentadores, só será possível subir o Pico de Itabira acompanhado de guias especializados e com equipamentos de segurança. Além disso, a sessão de grampos começa a cerca de 20 metros do chão, para que ninguém sem experiência consiga subir sozinho.

Uma Luz no cume

Ao chegar no cume, os idealizadores da Via Ferrata instalaram um holofote no topo da montanha que podia ser visto desde a cidade de Cachoeiro do Itapemirim. A luz foi instalada a cerca de 10 metros abaixo do cume e ligada à energia elétrica por um cabo de 700 metros de comprimento. Após algumas criticas sobre o risco de incêndio e os danos a fauna local, o Ministério Público determinou e os idealizadores desativaram o foco de luz. De acordo com Vieira, no próximo ano eles irão estudar e fazer um novo projeto nesse sentido.

Entretanto, essa não foi a primeira vez que o cume do Pico de Itabira foi iluminado. Em 1947, após a sua conquista, uma equipe de escaladores do CERJ foi responsável por levar um cruzeiro até o topo. Esse artefato possuía 10 lâmpadas de 60 watts, sendo duas delas equipadas com refletores e alimentadas da base do Itabira por um gerador movido a gasolina.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

22 Comentários

    • Destaco alguns pontos sobre o texto:

      No início da reportagem é mencionado que o idealizador colocou “grampos” na rocha. Porém os degraus de vergalhões nos 200m não podem ser consideradas grampos por definição de equipamentos de escalada, normatização internacional, etc. São coisas distintas!

      O texto menciona somente trechos de falas do idealizador do projeto. Creio que seria mais interessante coletar o depoimento dos responsáveis da ACE para trazer ao público. A Associação foi procurada para tal?

      A intenção dos comentários é meramente informativa!

      • Elcio soares de souza em

        Parabéns sou fã de escalada nao sou profissional da area. Sempre me aventuro na pedra do caramba que em alguma parte da subida na pedra temos cabos de aço e placas de informaçao a respeito de perigo e cuidados com a natureza do local. Gostaria de tambem ter esse ao pico do itabira. Parabéns aos idealizadores.

  1. Uma via ferrata para nosso itabira seria otimo poder visitar o cume a vista deve ser esplêndida nao deixa que comentarios ou notas de repudio acabe com isso.

  2. Alberto Ortenblad em

    É impressionante como as pessoas nunca estão satisfeitas com aqueles que se expõem para realizar uma iniciativa. Nicasio e Ezequiel parecem ter tomado muito cuidado neste projeto do Pico do Itabira – devem ser aplaudidos e não acusados!

    Esses eternos argumentos sobre os danos à vegetação às vezes apenas defensivos, vinda de gente que não tolewra mudança. Lembro-me de uma vez que fui com um rapaz local ver os pretensos danos do uso de uma via numa pedra no Espírito Santo. Era uma planta tão minúscula que tivemos dificuldade de achá-la!

    • A comunidade que realmente se interessa é conhece o assunto repudiou essa via, pois ignora: 1)ética estabelecida no esporte 2)as leis que regulam áreas de preservação 3)as normas de segurança adequadas ao material e instalação
      Não é uma opinião leviana ou caprichosa. Muitos especialistas na área do montanhismo, legislatura e engenharia de segurança estão em acordo que essa verdadeira obra de construção civil viola vários parâmetros estabelecidos de proteção ambiental, segurança e ética. É uma pena que as pessoas que tem especialização e experiência em suas áreas sejam julgadora prematuramente como “elitistas”. O alerta está sendo feito publicamente aos perigos que essa construção apresenta. Não foi apresentado nenhum plano referente ao projeto, manejo da área preservado por lei, nem tão pouco em respeito das responsabilidades de manutenção dessa via. Existem motivos muito bem definidos pelos quais a comunidade de montanhistas e associações pertinentes se colocam em oposição ao projeto.

      • Na Europa existem inúmeras vias ferratas, são espetaculares. Eu gosto bastante do conceito, permite subir na montanha com poucos equipamentos e de forma recreativa e ágil. Empregado com moderação, sou plenamente favorável ao desenvolvimento deste nicho de atividade. A imersão na montanha é a mesma, muda apenas a técnica empregada. No Marumbi há trilhas técnicas que permitem o acesso de pessoas leigas aos topos das montanhas. São trilhas sensacionais ! Alguns visitantes leigos se empolgam e passam a escalar em seguida. Gostei da iniciativa no Itabira, espero que a via seja preservada e que se reserve um nicho para novas vias ferratas no futuro, em harmonia os demais montanhistas e associações. Espero também um dia percorrer a via no Itabira. Realmente, sou bem liberal quanto ao uso de montanhas e passo longe do ambientalismo radical, que tende a proibir qualquer atividade ou intervenção.

    • Plantas pequenas também merecem respeito e são ainda mais suscetíveis de serem extintas na natureza, inclusive pelo seu porte e muitas vezes por sua distribuição restrita apenas em um local. Não devemos desmerecer ou diminuir a importância de qualquer organismo só pelo seu tamanho.

  3. Precisamos ter em mente que isso abre precedentes graves:
    1. Abrir ferratas para gerar emprego e renda em todas as montanhas.
    2. Guias obrigatórios.

  4. Um ponto não abordado na matéria é o perigo da normalização desse tipo de ação em outras montanhas no Brasil. Causando cada vez mais impacto nos ambientes que cercam as nossas montanhas. Daqui a pouco aparece “via Ferrata” em qualquer face de montanha em nome de foto no Instagram e ganho financeiro. Se a pessoa quer chegar em determinado cume que se dedique para explorar a escalada natural fornecida pela Rocha, rebaixar a pedra ao seu nível é apenas triste.

    Se a pessoa não gosta de escalar vai fazer uma trilha, andar de mtb, rapel com acesso por trilha, etc. opções de lazer não faltam..

  5. Mais um ponto é que está bastante nítido na foto da matéria que houve uma grande quantidade de vegetação removida durante a construção da escadaria. Apesar de isso acontecer também em abertura de escaladas, contradiz com oq foi dito na matéria:

    “A via do pico Itabira andamos 100 % em cima de rocha, não há vegetação”

  6. Não sou de todo contra as vias ferrata, desde que sejam observadas e respeitadas diversas outras condições adjacentes. Vale ressaltar, entretanto, que as vias ferratas, tanto de outros países quanto as do Brasil, foram instaladas em outros tempos. Na Europa, por exemplo, surgiram como estratégia bélica, para facilitar o acesso de soldados. Aqui no Brasil, surgiram como meio de transposição ao que era intransponível naquela época.

    No caso específico do Pico do Itabira, essa via, SIM, feriu princípios éticos do montanhismo, inclusive princípios de mínimo impacto, conforme explico abaixo. Mas, antes de qualquer comentário, para que se possa falar com propriedade, faz-se fundamental conhecer o Pico do Itabira, “in loco”. Estar na base, conhecer a montanha da base ao cume, ter escalado suas paredes, etc. Particularmente, posso dizer que conheço muito bem a montanha, pois já repeti a clássica “Chaminé Cachoeiro”, com pernoite na parede (considerada à sua época uma das escaladas mais difíceis do Brasil), bem como tive a oportunidade de conquistar a “Face Nordeste do Itabira” – big wall que, por excelência, tenta explorar ao máximo os recursos naturalmente oferecidos pela montanha. Quando da conquista dessa via, foram necessárias duas investidas e cheguei a pernoitar por alguns dias na base da montanha. Vejo muitos opinando sobre, de forma favorável à construção da via ferrata, mas vejo pouquíssimos que conhecem a montanha propriamente. É preciso conhecer o caso concreto, quando então se compreende a dimensão do problema.

    Voltando ao caso específico, essa via ferrata já começa a sua agressão logo no trecho inicial: um estribo de cabo de aço e barras de ferro, que desemboca exatamente na P1 da “Face Nordeste”. Ou seja, é como se tivesse sido construído um “atalho” para vencer a primeira enfiada da “Face Nordeste”, inteiramente feita por fendas, com uso de proteção móvel. Mas, não para por aí. A segunda enfiada da via ferrata passa COLADA à segunda enfiada da “Face Nordeste”. Há um trecho em que a escadaria passa a nada mais, nada menos que cerca de 2,5 metros à direita do mais lindo diedro da “Face Nordeste” (também todo feito em livre e com proteção inteiramente móvel). Agora, imagine-se escalando e curtindo esse diedro, e olhando para uma escadaria de vergalhões ao seu lado, colada na via… Continuando a via ferrata, em seu trecho final houve farta supressão de vegetação rupícola, de terra, raízes (nitidamente com a utilização de enxada), abrindo uma “língua” de rocha desnuda, para facilitar e deixar “limpa” a ascensão pelos vergalhões – ato totalmente reprovável, ambientalmente falando. E, para o grand finale, foi instalado um circuito elétrico por toda a parede, para acender um holofote no cume. Foram cerca de 700 metros de cabo elétrico – um verdadeiro espetáculo de horrores !

    Em vídeo publicado no Youtube, a proprietária do acesso à montanha se mostra preocupada com turismo. A preocupação é legítima e até mesmo bem intencionada. Fala sobre gerar fonte de renda para a população da região – algo, sem sombra de dúvida, extremamente sedutor e desejável. Por outro lado, menciona que gostaria que os escaladores entendessem que a propriedade (dela) fosse autossustentável e chega a afirmar que autorizou a “fabricação” (sic) da via. Ocorre que o Pico do Itabira é propriedade da União, é de todos, é símbolo da cidade, é símbolo do ES. O local já é frequentado por montanhistas há mais de 70 anos. Quem não é escalador, não entende do assunto, não faz a mínima ideia do perigo que esta via pode ser tornar para a comunidade leiga, que se sentirá encorajada a subir vergalhões acima, expondo-se excessivamente à morte por uma torre de cerca de 400 metros verticais/negativos. Definitivamente, não será essa via ferrata que fará valer o argumento falacioso da “montanha para todos”. Muito pelo contrário, ainda que aparentemente acessível, esta via poderá ser considerada uma ascensão de grande dificuldade, por sua extrema exigência física.

    Já o autor da via ferrata, por sua vez, reclama que não houve diálogo com ele por parte da ACE, que não houve cortesia, nem comunicação. Diz que as coisas foram feitas de uma forma “obscura”. Esqueceu-se, entretanto, de que a iniciativa do diálogo deveria ter partido dele, procurando a comunidade de escaladores para sondar opiniões, procurando os conquistadores da via que foi ATROPELADA por essa ferrovia e também se esqueceu de que, sim, faltou por parte dele cortesia com o elemento mais importante disso tudo: a montanha.
    Importante mencionar que não se podem colocar no mesmo saco todas as vias ferrata do País. Cada caso é um caso. Comparações não fazem sentido, porque não se pode comparar bananas com laranjas. A via ferrata do Itabira é completamente diferente a via ferrata do Baú, por exemplo.

    Enfim, a situação não é apenas sobre vias ferratas em si, mas de tudo aquilo que está em torno dela, no caso concreto, considerando principalmente princípios e valores do montanhismo, o respeito às pessoas, à vida, à montanha e ao meio ambiente.

  7. Excelente matéria ainda mais feita por uma jornalista experiente no assunto, adorei a forma como foi abordada espero ansioso pela próxima novidafe infelizmente retiraram a iluminação..

  8. Alexandre Aragão em

    Essa via me parece uma tentativa inocente só te o que ali deveria ter sido feito, se fosse vem feito.

    Levava ao conhecimento de quem tem o domínio desse planejamento, orçamento, estudo de impacto ambiental, etc. Com isso tudo tomaria a decisão. Naturalmente seria a de NÃO FAZER.

    A via como está, para se manter, teria que reformulada quase que por completamente.

    A escada oscilante é perigosa.

    Vias ferratas em países da Europa, usadas para lazer, esporte ou transporte de tropas, pessoas cargas e etc, demandam grandes somas para serem mantidas, não é raro a interdição de ferratas por falta de condições de segurança. Algumas ficam a espera de verba, seja do governo ou de entidades particulares.
    Por isso que está via do Itabira é um problema, por que acima das questões ambientais, e tais, e tais, ela é um perigo a saúde e vidas das pessoas.

    Uma foto dos donos da montanha e da via, sorrindo naquela escada, pendurados, e juntos, todos os seus apoiadores, essa foto me convenciria que estou errado sobre o perigo desta via especificamente.

    As filhas ferratas desta de Itabira, vou deixar para ver quando brotarem em outros lugares.

      • Marcel Leoni Pacheco em

        Lamentável? As pessoas que ainda são éticas entenderam muito bem o texto. E entenderam o que está por trás desse posicionamento parcial, onde o respeito ficou de lado por dinheiro.

  9. Evandro Vandinho em

    O fato é que o altamontanha noticiou o caso com pobreza de detalhes, não falou como uma via que é praticamente um big wall foi invadida e prejudicada. O site ou quem escreveu a matéria não se esforçou para elucidar os fatos como realmente ocorreram. Cadê a opinião dos conquistadores da via que foi duramente prejudicada? Não vi opinião de ambos os lados.

  10. Muito bom a Via Ferrara. Ja estou me organizando para assim q liberar a subida, quero participar desta aventura. Pena que o poder público já nós tiro a visão da Itabira uminada.

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