A última trilha antes do Corona

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Sim, o impensável aconteceu. O maledito viruzinho chinês Covid-19 finalmente dava ás caras em terras brasileiras, obrigando todo mundo a adotar novos hábitos na rotina diária como forma de prevenção contra a pandemia, Ou seja, sem trilha. Por me encontrar em Londrina, cidade do norte paranaense ainda com pouquíssimos casos de infecção, decidi fazer um último rolê no mato antes que fosse decretada quarentena obrigatória.

Estrada do Saltinho

O bate-volta da vez foi para conhecer o Saltinho São Carlos, queda situada no Ribeirão 3 Bocas, mais precisamente na divisa com Cambé. Um rolezinho descompromissado e refrescante de quase 18km bem andados que não apenas revelou mais um simpático remanso “pé-verméio” mas também figurou como divisor de águas nestes tempos de crise mundial.

As notícias vieram de repente e de um dia pro outro não se falava em outra coisa: o Coronavírus tinha pisado e se alastrando rapidamente pelo país! E não tardaria a chegar Londrina, lógico. Na verdade ele havia aportado timidamente em casos contados na mão esquerda de um certo ex-presidente. E prevendo que a coisa ia ficar tão séria quanto em São Paulo, falei pra Lau que estava decidido em fazer um último bate-volta pro mato antes que medidas mais restritivas de isolamento fossem tomadas. Não que elas já não estivessem sendo regradas. Carros da prefeitura circulavam a dois dias pedindo pras pessoas permanecerem em casa e só sair em casos de necessidade. Bem, no meu caso era necessidade extrema ir pro mato arejar a cabeça naquele momento em específico. E sim, precisava mesmo era sentir, mesmo que brevemente, o cheiro de liberdade antes que a mesma nos fosse cerceada plenamente por causa daquele maledito inimigo invisível.

Sendo assim, eu e a Lau tomamos condução em direção á zona sul, mais precisamente o Terminal Shopping Catuaí, onde chegamos pouco antes das 8h. Apesar da aparente normalidade, a escassez de veículos nas ruas e a presença de pessoas portando máscaras e luvas reforçava que a situação estava bem longe de ser normal. Não demorou e embarcamos no latão “211 – Regina”, mas não sem antes uma funcionária desinfetar e higienizar a entrada do latão. E assim tocamos numa reta só pelo asfalto da PR-528 na direção sul, deixando a cidade pra trás. Num piscar de olhos, o cinza da urbe dá lugar á monocromia ocre de plantios de soja e café de perder a vista que, emoldurados pela janela do coletivo, dominam a horizontalidade daquela paisagem bastante interiorana. Viagem esta que, aliás, dividimos com menos de meia dúzia de passageiros.

Saltamos por volta das 8:30h no ponto ao lado da “Venda dos Pretos”, misto de bar e mercearia que é uma referência da região. Tomamos então a poeirenta “Estrada do Saltinho” e tocamos por ela indefinidamente, na direção oeste, caminho tipicamente campestre onde a paisagem ao redor se resume a plantios, descampados e cultivos a perder de vista. Eventualmente surgem focos florestados a margem da estrada, trechos muito bem vindos uma vez que aquela manhã começara tremendamente limpa, prometendo calor e sol a pino no decorrer do período.

Venda Dos Pretos

Após cerca de uma hora de caminhada abandonamos a estrada principal e abreviamos caminho em meio dos plantios, nos poupando bons km de chinelada. Cortando um bom tempo por um vasto campo de milho recém-colhido, retomamos a estrada bem mais adiante, agora uma ramificação que vai de encontro aos fundos de vale situados ao sul. Cruzamos uma mirrada florestinha por onde corre o imperceptível Ribeirão do Levador – por sinal bem seco – pra dali o caminho ganhar elevação, cruzar sob a linha de torres de alta tensão e se bifurcar logo adiante. Ali já era possível avistar o vale seguinte, o do Ribeirão 3 Bocas, e ao invés de ir ao encontro dele tomamos a precária via da direita, isto é, aquela que o acompanhava a distância. Uma decrépita fazendinha acompanhada por eucaliptos perfilados tornam a paisagem menos monótona neste trecho que sequer chega à meia hora de estrada de chão.

Descendo para o fundo do vale

Pois bem, este trajeto nos deixou praticamente na entrada duma propriedade, onde uma minúscula placa escancarava “Sítio São Carlos”. Sem porteira ou nenhum aviso proibindo acesso seguimos em frente e logo os horizontes se abriram a nossa frente, revelando o verdejante vale do Ribeirão 3 Bocas. Começamos então a descer pela estrada em direção ao vale, mas logo a abandonamos quando desviou rumo ao casario da fazenda, a sudeste, nos obrigando a chinelar em meio a um extenso plantio de soja, que por sorte estava bem baixa.

Entrada da Trilha

Uma vez nos limites da espessa floresta forrando o vale, não custou a encontrar a entrada da trilha e por ela nos pirulitamos mata adentro. Estreita, sinuosa e até breve, a vereda serpenteou aquela agreste e espinhenta vegetação, perdendo altitude de forma até imperceptível, apenas empinando mais forte quase no final. E assim, por volta das 10:20 pisávamos enfim nas lajotas de basalto que margeiam o ilustre Ribeirão 3 Bocas. Perto dali, o então manso curso d’água despencava furioso duma altura de mais de 3 metros pra dali seguir seu sinuoso curso na direção leste pra, muitos quilômetros depois, morrer no não menos respeitável Rio Tibagi. Em tempo, este rio nasce em Arapongas e é divisor dos municípios de Londrina e Cambé.

Caminhando bem tranquilo

Logicamente que nos brindamos ali com merecido e longo pit-stop de descanso, banho e ávidas beliscadas do lanche trazido a tiracolo nas mochilas, não necessariamente nessa ordem. Entre selfies e muita descontração eu e a Lau escondíamos bem a angústia e preocupação pela incerteza da nova realidade que se avizinhava, uma vez que tudo ia virar de cabeça pra baixo daquele dia em diante. A sensação de luto pela iminente perda da liberdade era quase tangível.  Dane-se! A ideia daquele rolê era puramente escapista, de aproveitar aquele valioso resquício de vida normal, necessário naquele momento.

Saltinho São Carlos

Ribeirão 3 Bocas

Tchibum!

Pegada de pequeno carnívoro

Zarpamos daquele pequeno paraíso pouco antes das 13hr refazendo todo caminho de volta. Ou melhor, quase todo ele uma vez que abreviamos um bom chão ora cortando por plantios ora andando sob a linha de torres de alta tensão. No caminho, a pegada de um pequeno mamífero carnívoro na terra vermelha nos lembra de que apesar do ambiente tipicamente rural e tomado por cultivos, a vida silvestre ainda tem sua liberdade garantida pelo Norte Pioneiro. Ainda bem.

 

Uma vez na estrada principal comentei com a Lau da esperança em conseguir carona até a rodovia, ainda mais com o sol de início de tarde cozinhando sem dó nossos miolos! “Vai sonhando!”, respondeu ela, pouco otimista. “Agora que a galera aqui não vai dar carona mesmo, com receio de contágio!”, completou. De fato, dos poucos veículos que cruzamos não conseguimos nada além de mais poeira pra engolir durante os intermináveis 6km restantes!

Chegamos na “Venda dos Pretos” antes das 15hr, quase nos arrastando devido ao calor infernal. O lugar é uma simplória casa de peroba que se tornou um tradicional ponto de encontro da zona rural que resiste ao tempo e á modernidade, de grande importância cultural. Isto porque sua história se confunde com a colonização de Londrina e é símbolo da resistência e participação da comunidade negra na região. Como era de se prever, o lugar estava fechado pela quarentena e não pude finalizar o rolê com a minha tradicional cerveja gelada, tornando a sensação de melancolia cada vez maior.

Aviso recorrente em todo o comércio devido a pandemia

Pegamos o busão e cerca de hora e meia depois estávamos novamente no conforto e segurança do lar, mas não sem antes passar pelo demorado ritual de limpeza e higienização das mãos, roupas e demais tralhas outdoor. No demorado banho que se seguiu só faltou uma descompressão digna da Nasa, preço pago pra ter esse último quinhão de mato naquele dia. Agora sim posso abraçar a nova realidade sem culpa, adotando a disciplina necessária proeminente e inevitável confinamento total, tentando tirar algo positivo disto tudo. Dar valor á liberdade, nosso direito de ir e vir e a se reconectar com os nossos, por exemplo. Sim, as trilhas estarão paralisadas por tempo indeterminado. Por enquanto, álcool gel na mão e só caminhadas virtuais na frente do computador, numa versão reversa do famoso ditado “Se a montanha não vai a Maomé…”. E, claro, muita… Mas muita paciência pra não pirar.

 

 

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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