Escalador tcheco concluiu a segunda ascensão do projeto de Elias Iagnemma, na Itália, em quatro dias. Após enfrentar um resfriado e a ameaça de chuva, Ondra classificou a linha como V17, enquanto o primeiro escalador a mandar esse boulder havia proposto V18.
É impressionante ver como a escalada técnica evoluiu nas últimas décadas ao ponto que pode ter chegado ao V18 no boulder. O escalador tcheco Adam Ondra realizou a segunda ascensão de Exodia, um dos projetos mais difíceis da história do boulder, localizado no vale de Val Pellice, na Itália. Após concluir a linha em quatro dias de tentativas, Ondra propôs a graduação V17 (9A francês), um nível abaixo da classificação V18 (9A+) sugerida pelo italiano Elias Iagnemma, responsável pela primeira ascensão, em novembro de 2025.

Adam Ondra escalando Exodia. Foto: Petr Choruda @pet.phot
A repetição foi anunciada em 18/10, em uma publicação no Instagram de Ondra. O resultado reacende a discussão sobre a possibilidade de Exodia se consolidar como o primeiro boulder graduado em V18, embora a divergência entre os dois escaladores ainda não permita tratar essa classificação como consensual.
Resfriado e previsão de chuva aumentaram a pressão
Em seu relato no Instagram, Ondra afirmou que estava muito animado com a possibilidade de escalá-la. Ele contou que Elias havia visitado o local em setembro para lhe apresentar o boulder e passar alguns betas, ou seja, explicar os movimentos e as sequências necessárias para superar os trechos mais difíceis. Ondra elogiou a receptividade do colega e contou que os dois também gravaram uma entrevista para um futuro vídeo sobre Exodia.
Os planos, porém, foram prejudicados por um resfriado forte e outros compromissos na agenda do escalador tcheco. Quando finalmente se sentiu recuperado para voltar à pedra, restavam aparentemente apenas dois dias de condições favoráveis, antes da chuva prevista para a região.
“Mas me mantive firme e executei muito bem alguns dos momentos mais memoráveis da minha carreira”, relatou Ondra, ao descrever o desafio.
Apesar das dificuldades, o escalador conseguiu completar a linha em quatro dias de tentativas. Segundo ele, utilizou a mesma sequência de movimentos de Iagnemma, mas modificou a maneira de segurar algumas agarras, usando mais regletes — pequenas bordas apoiadas pelos dedos — e menos pinças, que exigem oposição entre os dedos e o polegar.

Ondra é o segundo escalador a repetir esse boulder. Foto: Petr Choruda @pet.phot
Um projeto de quatro anos e meio
A história de Exodia começou antes da primeira ascensão. O projeto havia sido idealizado pelo escalador italiano Christian Core, mas permaneceu sem ser concluído após suas tentativas iniciais.
Iagnemma começou a trabalhar na linha em junho de 2021 e levou aproximadamente quatro anos e meio para completar o desafio. Ao todo, foram mais de 200 tentativas até a primeira ascensão, realizada em novembro de 2025.
Na ocasião, o italiano propôs a graduação V18, equivalente a 9A+ na escala francesa. Caso essa dificuldade seja confirmada por futuras repetições, Exodia poderá ser reconhecido como o primeiro boulder a alcançar esse grau.
A linha tem cerca de oito metros de extensão, aproximadamente 25 movimentos de mãos e um teto com inclinação de 60 graus. A sequência combina força, resistência, encaixes de joelho, ganchos de calcanhar e controle preciso da posição do corpo.

Iagnemma descreveu o problema como o desafio mais difícil que já havia enfrentado. A primeira parte inclui uma sequência estimada em V14, seguida por um descanso invertido com entalamento de joelhos. Depois, o escalador precisa superar uma seção final extremamente exigente, que ele considera próxima de V16.
Por que Ondra propôs V17?
Ao comentar a graduação, Ondra fez questão de demonstrar respeito pelo trabalho de Iagnemma. O tcheco reconheceu o histórico do italiano em boulders de altíssima dificuldade e lembrou que ele havia dedicado 212 dias ao projeto, conforme a contagem mencionada em sua publicação.
Ondra afirmou que também teria proposto V18 nas circunstâncias do primeiro escalador, ressaltando que a graduação é uma avaliação pessoal da dificuldade, não uma classificação definitiva estabelecida por uma entidade.

Ainda assim, sua experiência na linha o levou a sugerir V17 (9A). Para ele, Exodia foi mais difícil do que Soudain Seul, outro boulder de referência nessa graduação, e apresentou dificuldade semelhante à de Alphane e Mount Doom.
O escalador ponderou, entretanto, que a linha combina especialmente bem com seu estilo. Ondra destacou a importância dos ganchos de calcanhar, da tensão corporal e do posicionamento delicado, além de explicar que conseguiu alcançar uma das agarras mantendo um gancho de ponta de pé, sem perder o contato dos pés com a parede. Ondra possui 1,86m de altura enquanto Iagnemma tem 1,80m.
Essa compatibilidade pode ajudar a explicar a rapidez da repetição. O fato de Ondra ter concluído o projeto em quatro dias, enquanto Iagnemma precisou de centenas de tentativas, não significa automaticamente que o italiano tenha superestimado a dificuldade.
Um boulder que deve continuar atraindo escaladores
Apesar da divergência sobre a graduação, Ondra demonstrou entusiasmo com a linha e acredita que ela continuará relevante na história do boulder.
O tcheco destacou que Exodia é divertida de projetar, inclusive em tentativas de longo prazo, e que a pedra oferece condições favoráveis quando outros locais com boulders de graduação V17 ficam quentes demais.
“Não acredito que será um boulder esquecido no futuro”, afirmou.









