As Paredes do Milho Verde

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Milho Verde faz parte do município do Serro, localizado há cerca de 4 horas da capital mineira. A vegetação local é característica do cerrado, um dos biomas com maior biodiversidade do planeta. O Cerrado abriga, aproximadamente, 11.627 espécies de plantas nativas, sendo que, desse total, cerca de 4.400 espécies são endêmicas (existem apenas nesse bioma). Há espécies de plantas arbóreas, herbáceas, arbustivas e cipós. A paisagem se completa com rios e cachoeiras de águas cristalinas e muita, muita rocha.

Felipe Kbça na via Faixa Preta 10b no setor Três Barras. Foto: Luca Portilho @lucaportilho

Vegetação típica do cerrado. Foto: Danielle Pinto

A escalada teve início na região em meados de 2012, mas o desenvolvimento maior começou em 2017. E devido à quantidade quase infinita de blocos, a qualidade da rocha e o clima hospitaleiro da região, o lugar se tornou referência para a prática de boulder.

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Escaladores de paredes que somos, chegamos em Milho para ver os amigos e descansar alguns dias para então seguir viagem para a Chapada Diamantina, e fomos surpreendidos pelo o que encontramos. O resultado foram três semanas em Milho Verde de muita escalada, abertura de novas vias, banhos de rios e a companhia mais que agradável dos escaladores locais.

Wagnim na via Até Breve 10b no setor Três Barras. Foto: Luca Portilho @lucaportilho .

Começamos conhecendo o setor de Três Barras, recentemente sendo desenvolvido pelos escaladores Luca Portilho e Wagner Borges com o apoio da Bonier Equipamentos. Setor de escalada esportiva 5 estrelas, daqueles de deixar a boca aberta e sentir frio na barriga só de olhar. A parede é vertical a levemente negativa, as vias tem em média 30 metros de extensão, algumas chegam a 35 metros. A rocha é o quartzito na sua maioria, mas você também vai se deparar com agarras que são cristais, muito característico da região.

Para chegar em Três Barras são cerca de 10 minutos de carro do Milho Verde, mais 20 minutos de caminhada. Atualmente o setor conta com pouco mais de 40 linhas, sendo que a maioria das vias estão na parede principal do setor com graduação entre 7b e 10b, além de muitos projetos ainda sem ascensão.

Waguinin na Faixa Preta 10b no setor Três Barras. Foto: Luca Portilho @lucaportilho

Pedro Arcanjo na via Arco e Flecha 10a no setor Três Barras. Foto: Luca Portilho @lucaportilho

Luca Portilho na via Artifícios do Ofício 9c no setor Três Barras. Foto: Luca Portilho @lucaportilho

As vias com graduação entre 5 e 6sup estão distribuídas em outras duas paredes, um pouco mais próximas do ponto onde se deixa o carro. Porém, o mais legal de tudo isso é o potencial para a abertura de novas linhas. A galera local tem trabalhado constantemente equipando novas vias. Mas sabemos que não é tarefa fácil, e demanda tempo, dinheiro e muita disposição. Importante destacar o cuidado que os escaladores locais têm com a vegetação na hora de escolher e abrir as novas linhas de escalada, a regra é preservar!!!! A natureza agradece!!!

O setor MONA – Monumental Natural Municipal

Também subimos pelas paredes localizadas dentro do MONA – Monumental Natural Municipal, área de preservação ambiental permanente. Para acessar o setor você caminha uns 20 min desde o povoado do Milho Verde (ou do Milho Ventura, como referencia).

Este setor de escalada esportiva é mais antigo, as primeiras vias abertas ali são de 2007. O escalador paranaense Marcelo Gonçalves conta que em viagem para Bahia parou naquelas paredes, conquistando três fendas, sem nenhuma colocação fixa. Depois disto, o setor ganhou novas vias apenas em 2017 quando os escaladores Luca Portilho e João equiparam algumas vias como a clássica Nova Era 7c.

Nos dias que passamos por lá contribuímos no trabalho de abertura, para termos mais paredes para subir. Ao total foram 3 novas vias esportivas e 2 em móvel, com Renan Gradashi, Ingo Moller e Luca Portilho. Sim, o lugar tem muita opção para o uso de proteção móvel. No Mona o comprimento das vias fica em torno dos 20m, e a maioria com proteção fixa. Além disso existem outros 2 setores de escalada esportiva já desenvolvidos, o Retiro Rupestre e o Portal das Pedras, também localizados no Mona. Somando juntos mais de 20 linhas abertas, sem falar no potencial infinito de paredes virgens.

Renan Gradaschi na Fenda do Alemão 7a, no setor do Mona. Foto: Danielle Pinto

Luca Portilho na via Fenda do Mizifi 6 grau móvel no setor Mona. Foto: Danielle Pinto

O clima na região também ajudou muito, pouca chuva e temperatura amena do outono no cerrado mineiro. No verão as temperaturas se elevam consideravelmente e por isso muitos escaladores optam pela escalada noturna nos boulders da região. Fica a dica para você que procura escalada esportiva de qualidade, num ambiente ainda pouco explorado, visual de cinema e ainda com aquele banho de rio no fim do dia. Para se hospedar e comer você vai encontrar várias opções no povoado, já que a região atrai turistas pelas suas águas cristalinas. Os escaladores Luca Portilho e Larissa Vals também oferecem hospedagem no Hostel Milho Ventura, além daqueles betas valiosos para quem chega sem conhecer o pico.

Banho de rio depois da escalada. Foto: Danielle Pinto

 

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Sobre o autor

Jornalista, montanhista e yogui. @dani_na_montanha

2 Comentários

  1. Excelente Matéria!! Complementando, vários outros escaladores locais participam do desenvolvimento destes setores. Em especial o setor de vias, situado no distrito de 3 barras. Entre eles posso destacar participação importante do Zé Ricardo, Vinicius “Maquinão”, Philipe Sousa “Phi” e Marcelão!!
    Abs, Wagnin!!

    • Outra informação importante é sobre o início da escalada na região de Milho Verde. Aconteceu bem antes de 2012, no início dos anos dois mil. Com participação pioneira de muitos escaladores!!

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