As Pedras da Paraíba

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Foi uma surpresa descobrir que a pequena Paraíba continha algumas pedras muito interessantes. Elas estão distribuídas ao longo do Estado, desde a divisa com Pernambuco até perto do litoral. Veja a seguir o trajeto que fiz para conhecê-las.

As Pedras da Paraíba

A geografia da Paraíba é bem diversificada. Na Zona da Mata litorânea predominam os baixos tabuleiros, seguidos pela região de transição do Agreste, uma estreita faixa ainda úmida, que é limitada a oeste pelas escarpas do Planalto da Borborema.

Esta é uma formação enorme, que atravessa cinco Estados nordestinos, com elevações moderadas. Ela cria uma barreira em relação às terras baixas da Depressão Sertaneja, sendo responsável por seu clima árido.

A maior parte da Paraíba (e, em especial, a Borborema) é recoberta por antigas rochas cristalinas, associadas à ruptura do Continente Gondwana, quando a América se separou da África. Assim, os solos do Estado costumam ser rasos e rochosos.

A vegetação progride desde a mata atlântica do litoral até a caatinga do sertão. O clima varia de leste a oeste do tropical úmido ao semiárido. As principais bacias são o Paraíba a sudeste e o Piranhas a noroeste. Ambas são isoladas, correndo para o oceano.

Pico do Papagaio, Ponto Culminante de Pernambuco, Triunfo, PE (Fonte – tripadvisor).

O Papagaio: Você encontrará as maiores elevações no oeste paraibano, na realidade na fronteira com Pernambuco. O Pico do Papagaio é o ponto culminante de Pernambuco, com 1.260m. Localizado em Triunfo (PE), está próximo a Santa Isabel e São José da Princesa (PB), ambos do mesmo lado da serra, oposto a Triunfo.

Afora a sua bela rocha granítica, a região é recoberta pela surpreendente vegetação chamada de brejo de altitude. São vales alagadiços situados na cota de 1.000m, com clima úmido e presença da mata atlântica associada à caatinga. Esta é uma região que abriga sete pequenas comunidades produtoras de alimentos, devido a seu solo e clima diferenciados.

O acesso ao Papagaio percorre por cerca de 8 km uma curiosa estrada calçada em duas faixas, com grama entre elas. Foi feita pelas próprias comunidades, para que pudessem se movimentar na serra.

Se a aproximação é até bucólica, o cume é horroroso, poluído por antenas e construções. A vista, entretanto, é muito ampla e bonita, abarcando o Vale do Pajeú.

Vista da Bela Decoração do Pico do Jabre, Maturéia, PB (Fonte – Patosonline.com).

O Jabre: Já o ponto culminante da Paraíba é o Pico do Jabre, no município de Maturéia, com cerca de 1.200m. Não é tão distante do Papagaio, menos de 150 km por boa rodovia asfaltada. O Jabre culmina a Serra do Teixeira, nome dos primeiros colonizadores da região.

A aproximação ao Jabre é muito bonita, pois ele arremata uma pequena serra a sul, seu interessante perfil aparecendo desde longe, acima da campina plana.

Na realidade, existe um pequeno Parque Estadual no local, com 850 ha. O acesso é por uma boa estrada de terra, a apenas 6 km da cidade. Se suportar o calor, você pode escolher a trilha pelo mato, chamada de Pai Dantas. Mas o entorno do Jabre é bem diferente do Papagaio, devido à rocha enegrecida e fraturada e à vegetação mais árida, com predomínio de caatinga.

Na sua base, você pode conhecer a Pedra do Caboclo, com inscrições rupestres. E, no cume, sua formosa vista panorâmica, que alcança o Planalto da Borborema e a Depressão Sertaneja. Infelizmente, o espaço é atulhado por meia dúzia de construções e mais de uma dezena de antenas, tudo isso muito horrendo.

Os Monólitos do Pai Mateus, Cabaceiras, PB (Fonte – latam.com).

O Lajedo do Pai Mateus: Novamente, não é tão longe chegar ao Lajedo do Pai Mateus – cerca de 160 km, dos quais os últimos 20 km por uma mediana estrada de terra. No trecho inicial desta, você terá de disputar a pista com os muitos caminhões que transportam o minério de bentonita.

Mas agora você estará numa região mais baixa e mais árida, antigo território dos índios cariris, com um clima horrivelmente quente. A aproximação do Lajedo é impressionante, num ambiente ressecado e pedregoso, com uma escassa vegetação espinhenta e lenhosa. O nome derivou do curandeiro Mateus, que se abrigava sob uma das pedras da região.

O local foi descoberto por um geólogo na década de 1990 e ativamente visitado a partir de meados dos anos 2000. Sua origem é o granito vulcânico, com a possível expulsão dos matacões rochosos por pressão.

O Lajedo contém uma centena de monólitos arredondados, pousados sobre uma plataforma rochosa com cerca de 150 ha. Alguns têm grande porte e formas curiosas: o Capacete, a Pedra Oca, o Sino. Sua visão sob a longa luz do pôr do sol é impressionante.

As Gravuras Rupestres da Pedra do Ingá, PB (Fonte – pixabay.com).

A Pedra do Ingá: Agora você avançará para leste, alcançando o Agreste paraibano, a meros 40 km por asfalto de Capina Grande. A Pedra do Ingá está a 5 km do modesto povoado do Ingá.

Na realidade, você chegará por carro a poucas centenas de metros da pedra. O sítio foi tombado em 1944, sendo o primeiro MONA do país. É a mais importante gravura rupestre do Brasil e uma das principais do mundo.

A Pedra do Ingá é portanto um sítio arqueológico. É uma formação rochosa vertical de 250 m² em gnaisse (um tipo de granito). Localizada numa área de 1.000m² à beira do riacho intermitente Bacamarte, contém um maravilhoso painel esculpido em baixo relevo, com misteriosas inscrições feitas pelo povo antigo da região. Mas sua origem foi também atribuída a extraterrestres, a egípcios e fenícios, a povos da Ilha da Páscoa e aos incas.

Detalhe das Inscrições da Pedra do Ingá, PB (Fonte – Divulgação).

Diversas figuras de grande beleza foram entalhadas, sugerindo plantas, frutas, animais e astros, junto com outros desenhos abstratos, como discos, espirais, cápsulas e linhas sinuosas.

As enigmáticas figuras podem ser entendidas como um conjunto de ensinamentos vindos da tradição, como um calendário solar ou um monumento astronômico, como um ritual religioso ou até mesmo uma caprichosa notação musical. Ou, simplesmente, como uma manifestação puramente simbólica. Acredito que nós jamais saberemos.

A Pedra da Boca: Se você agora seguir um rumo exatamente norte por mais 130 km, atingirá em Araruna o Parque Estadual da Pedra da Boca. São apenas 5 km a partir do asfalto, por uma cênica estradinha calçada.

Araruna pertence ao bordo leste do Planalto da Borborema. Assim, nosso percurso começou no distante oeste ao lado de Pernambuco e terminará a nordeste, na divisa com o Rio Grande do Norte.

Vista do PE da Pedra da Boca, Araruna, PB( Fonte -wikipedia).

O Parque contém um conjunto rochoso em granito e quartzito, com faces arredondadas, cavidades e longas rampas. É uma formação impressionante, pelo desenho, tamanho e disposição dos grandes blocos rochosos. A reserva é pequena, com 160 ha, na base da qual existe o restaurante do Seu Tico, personagem que comanda as várias atividades no local.

A Boca é o local mais conhecido, uma ampla cavidade de mais de 300m, à qual você poderá subir por uma encosta rochosa bastante íngreme, mas com boa aderência. Será ½ h até lá, se o calor infernal permitir – eu experimentei esta trilha por volta do meio-dia, e meu tênis e eu simplesmente abrimos o bico.

Vias de Escalada da Pedra da Boca, Araruna, PB (Fonte – dagoivan.blogspot.com).

Mas há outros caminhos, incluindo a Trilha da Integração, que contorna em talvez 3 h o conjunto rochoso. Outras formações podem ser alcançadas, pois o desenho abaulado das pedras é favorável às subidas. O local permite práticas de rapel e de escalada, a rocha é boa, mas o clima é terrível.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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