Avalanche no Himlung Himal: Mingma G. encerra buscas, 12 trabalhadores permanecem soterrados

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Após liderar uma operação de alto risco para recuperar os corpos de Nirmal Purja e outros montanhistas no Broad Peak, Mingma G. suspendeu as buscas no Himlung Himal diante da dimensão da avalanche e das condições do acampamento-base.

A operação de busca e recuperação no Himlung Himal, no Nepal, chegou ao ffimem.29/09, depois que a equipe liderada pelo montanhista Mingma G. recuperou quatro corpos no acampamento-base atingido por uma avalanche. Outros 12 trabalhadores continuam soterrados sob uma camada de neve e detritos estimada em aproximadamente 4,3 metros.

Segundo Mingma G., as quatro vítimas encontradas indicam que não há sobreviventes entre os trabalhadores que continuam desaparecidos. Diante da profundidade da neve, das baixas temperaturas e da instabilidade do terreno, a equipe decidiu suspender as escavações. A recuperação dos corpos deverá ser retomada quando as condições da montanha permitirem uma operação com menor risco.

Acampamento base no Himlung Himal em 2021. Foto: Maria Tereza Ulbrich

A decisão encerra, pelo menos temporariamente, uma operação que começou poucas horas depois da avalanche que atingiu o acampamento-base do Himlung Himal, montanha de 7.126 metros localizada na região de Manang.

A equipe da Nepal National Mountain Guide Association (NNMGA), liderada por Mingma G., chegou ao local com a expectativa de encontrar sobreviventes. Os trabalhos, porém, encontraram uma situação muito diferente: o acampamento havia sido completamente soterrado e a profundidade da neve tornou a escavação manual extremamente difícil.

Com isso, a prioridade passou da busca por sobreviventes para a recuperação dos corpos — uma operação que, diante das condições atuais, também foi considerada insegura.

Himlung Himal é uma montanha com mais de 7 mil metros muito procurada por montanhistas estrangeiros. Foto: Maria Tereza Ulbrich

Do Broad Peak ao Himlung Himal

A decisão de interromper os trabalhos ganha outro significado quando lembrada a atuação de Mingma G. poucas semanas antes, no Broad Peak, no Paquistão.

Em 30/07, uma avalanche atingiu um grupo de montanhistas no Broad Peak, de 8.051 metros. Entre os mortos estava Nirmal Purja, um dos nomes mais conhecidos do montanhismo nepalês e amigo próximo de Mingma G. Purja também tinha uma relação profissional com Mingma: os dois eram sócios da empresa de expedições Imagine Nepal.

A recuperação dos corpos, entretanto, não foi simples. Durante vários dias, as condições meteorológicas impediram a utilização de helicópteros. Uma primeira tentativa terrestre também precisou ser abandonada diante da instabilidade da neve e do risco de novas avalanches. Mesmo assim, Mingma G. decidiu permanecer no local e tentar novamente.

O objetivo era retirar da montanha os corpos de Purja, do também nepalês Nima Sherpa e do chinês Wang Zhong, que permaneciam em uma área de aproximadamente 5.000 a 5.500 metros de altitude.

Em uma das operações, a equipe precisou enfrentar cerca de 12 horas de trabalho para transportar os corpos montanha abaixo. Quatro deles foram levados inicialmente ao acampamento-base e, posteriormente, todos os corpos recuperados foram transportados para Skardu.

Mesmo com o mau tempo impedindo o uso do helicóptero e com o risco de uma nova avalanche, Mingma G. insistiu e decidiu assumir pessoalmente uma operação terrestre para tentar retirar os restos mortais de seu amigo.

Duas montanhas, duas decisões

O contraste entre os dois episódios é inevitável. No Broad Peak, Mingma G. continuou tentando recuperar os corpos mesmo depois de uma série de obstáculos. No Himlung Himal, poucos dias depois, ele decidiu suspender a operação e deixar 12 vítimas sob a neve até que seja possível retornar ao local com maior segurança.

As circunstâncias, contudo, são diferentes. No Broad Peak, os corpos estavam visíveis e localizados em uma área conhecida da montanha, na qual havia possibilidade de realizar uma operação de transporte após alcançar as vítimas. No Himlung, o acampamento-base foi soterrado por uma avalanche de enormes proporções, com mais de quatro metros de neve sobre a área atingida. A equipe precisaria escavar manualmente uma grande quantidade de material para localizar os corpos restantes.

Os dois episódios revelam é a diferença entre o desejo de recuperar uma pessoa querida e os limites impostos pela própria montanha.

A tragédia que atingiu quem prepara as grandes expedições

Outro aspecto particular do acidente no Himlung é que as vítimas não eram montanhistas estrangeiros que estavam tentando chegar ao cume.

Os trabalhadores estavam no acampamento-base preparando a estrutura para a temporada de outono. Entre eles estavam integrantes das equipes de cozinha e guias que davam suporte às expedições. No momento da avalanche, não havia montanhistas estrangeiros no acampamento.

O episódio, portanto, chama atenção para uma parte frequentemente invisível das grandes expedições comerciais no Himalaia: as pessoas que chegam antes dos clientes para montar barracas, cozinhas, depósitos e toda a estrutura necessária para que uma temporada de escalada possa começar.

E é justamente nesse ponto que surge uma das perguntas mais difíceis deixadas pela tragédia. Por que os trabalhadores permaneceram no acampamento?

A ExplorersWeb, em reportagem publicada após o encerramento das buscas, questionou por que equipes locais permaneceram no acampamento-base enquanto as condições meteorológicas se deterioravam.

Segundo a publicação, instituições nepalesas haviam emitido alertas para que montanhistas, trekkers e moradores de áreas de montanha permanecessem em locais seguros. Ainda assim, trabalhadores responsáveis pela preparação do acampamento continuaram no Himlung.

A pergunta é especialmente relevante porque, em outras montanhas, clientes e equipes de expedição haviam sido orientados a deixar áreas de risco diante da deterioração do tempo.

Isso não significa, porém, que esteja estabelecida uma relação direta entre uma eventual decisão de permanência no acampamento e as mortes. O próprio Mingma G. afirmou que a avalanche foi de uma dimensão que ninguém esperava que pudesse atingir o acampamento-base do Himlung daquela maneira.

Ainda assim, a tragédia deixa uma questão que não termina com o encerramento das buscas: se os montanhistas e clientes podem ser retirados de uma montanha diante da aproximação de condições severas, quais protocolos existem para proteger os trabalhadores locais que permanecem para preparar e manter a infraestrutura das expedições?

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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