Caça ilegal na Serra do Mar: “matadouro” é descoberto dentro de parque no Paraná

0

Em março de 2026, um alerta vindo de montanhistas independentes acendeu um novo sinal de preocupação sobre a fragilidade da fiscalização em Unidades de Conservação do Paraná. A denúncia, encaminhada ao Centro de Pesquisa da RPPN Nascentes do Rio Pequeno, apontava indícios de caça ilegal no interior de áreas protegidas da Serra do Mar.

O episódio mais recente recai sobre o Parque Estadual do Pau-Oco, em Morretes (PR). Segundo as informações recebidas, caçadores estariam estruturando um ponto de apoio clandestino dentro da unidade — prática que, além de ilegal, evidencia um grau elevado de organização das atividades predatórias.

Em 27/3, uma equipe de pesquisadores vinculados a RPPNs da região realizou uma incursão para verificação dos fatos. No interior do parque, foi localizado um rancho robusto, construído com pranchas espessas de madeira de lei, extraídas do próprio ambiente protegido.

Madeira derrubada dentro da área de conservação . Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

Segundo os pesquisadores, o abrigo, longe de ser improvisado, apresentava estrutura completa: fogão a lenha, colchões, cobertores, reservatório de água, ferramentas e diversos utensílios.

A estrutura encontrada no local. Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

Vestígios de que o local foi usado recentemente. Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

Quantidade de colchões mostram que mais de uma pessoa poderia usar o local de uma única vez. Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

 

 

Os vestígios encontrados reforçam o uso do local como base para caça ilegal. Entre os itens localizados estavam espigas de milho e pinhão — utilizados como isca (seva) para atrair animais —, combustível e óleo para motosserra, estojos deflagrados de espingarda calibre 28, além de instrumentos típicos da atividade predatória como armadilhas, cabos de aço, zagaias e porretes.

Restos de animais também foram identificados, incluindo o crânio de um bugio (Alouatta guariba), evidenciando a gravidade da situação. Para os pesquisadores, trata-se de um verdadeiro “matadouro” instalado em plena área de proteção integral.

Crânio de um bugio encontrado no local. Foto: Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

De acordo com Alexandro Kenor da Silva, advogado ambientalista, montanhista e vice-presidente da Associação de Moradores e Guardiães das Nascentes do Rio Pequeno — entidade gestora da RPPN Nascentes do Rio Pequeno, ainda em processamento pelo Instituto Agua e Terra do Paraná —, o tipo de isca encontrado indica que espécies como paca (Cuniculus paca), cateto (Dicotyles tajacu), veados do gênero Mazama e até anta (Tapirus terrestris) estariam entre os alvos dos caçadores.

A equipe da RPPN Nascentes do Rio Pequeno monitora cerca de 3 mil hectares de Mata Atlântica e atua, de forma voluntária, na vigilância de áreas vizinhas, incluindo o Parque Estadual do Pico do Marumbi, a Área de Especial Interesse Turístico do Marumbi, a APA do Rio Pequeno, o próprio Parque Estadual do Pau-Oco e o Parque Nacional Guaricana, entre outras UCs do Paraná — até o momento, sem qualquer apoio material do poder público.

O caso não é isolado. Há poucos meses, a mesma equipe identificou estrutura semelhante na região do Parque Estadual do Pico do Marumbi, fato que ganhou repercussão nacional.

Relembre: RPPN Nascentes do Rio Pequeno denuncia acampamentos clandestinos de caçadores na Serra do Mar paranaense

A repetição do modus operandi indica que grupos organizados vêm se aproveitando da baixa presença de fiscalização em áreas remotas para instalar bases clandestinas de caça dentro de unidades de conservação que, em tese, deveriam ser intocáveis.

Estrutura de um fogão para cozinhar no local. Foto: RPPN Nascentes do Rio Pequeno

Cartucho deflagrado encontrado no local. Foto:RPPN Nascentes do Rio Pequeno

Diante desse cenário, especialistas e ambientalistas da RPPN Nascentes do Rio Pequeno reforçam a necessidade urgente de integração entre o poder público e a sociedade civil. A criação de parcerias entre o Instituto Água e Terra (IAT) e clubes de montanhismo do Paraná surge como alternativa estratégica para ampliar a vigilância ambiental. Frequentadores assíduos dessas regiões, montanhistas têm acesso a áreas onde a fiscalização estatal raramente chega, podendo atuar como aliados na identificação e denúncia de crimes ambientais.

Outro ponto crítico destacado é a burocracia no processo de reconhecimento de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Segundo Kenor, a morosidade administrativa impede que iniciativas privadas de conservação participem de editais e acessem recursos, limitando sua capacidade de atuação.

O advogado ressalta que o próprio Decreto Estadual nº 1.529/2007 que regulamenta o processo de RPPNs estaduais prevê, em seus dispositivos, a possibilidade de destinação de recursos oriundos de compensação ambiental já na fase de implantação das UCs privadas. Na prática, porém, equipes que atuam diretamente na proteção da Mata Atlântica seguem desenvolvendo atividades essenciais — como monitoramento e prevenção à caça ilegal, extração de palmito juçara (Euterpe edulis) e até garimpo clandestino — sem o suporte necessário.

Para os especialistas, a solução passa por dois eixos complementares: a desburocratização efetiva do processo de criação e reconhecimento de RPPNs e o fortalecimento de parcerias com atores locais, com especial destaque para os montanhistas capazes de acessar as áreas remotas da Serra do Mar. A combinação dessas medidas pode ampliar significativamente a proteção das áreas naturais e conter o avanço de atividades ilegais que seguem ameaçando a biodiversidade paranaense.

Compartilhar

Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

Comments are closed.