Caminho de Santigo de Bicicleta – dicas para os Bicigrinos

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Em algum momento da vida você pode ficar desacreditado. Pode perder a confiança e autoestima, enfrentar desertos que parecem não ter fim mesmo tendo um quintal florido diante dos seus olhos. Grandes vitórias em um mundo que se mostra tão desigual e maldoso não parecem ser suficientes para continuar lutando.

Deixa chover! É só colocar o poncho e garantir a impermeabilidade do restante das roupas com a Sec 50.

Nesses momentos é preciso se agarrar a alguma coisa, buscar um rumo que ajude a abrir os olhos para retomar as batalhas – que na verdade nunca terão fim. E, para muita gente, uma fórmula quase que mágica para recolocar a vida nos trilhos é a busca pela espiritualidade e reconexão com tudo que está à sua volta.

Diante dessa necessidade, muitos acabam chegando ao milenar Caminho de Santiago de Compostela, uma rota de peregrinação fortemente ligada à história do cristianismo e que hoje vai muita além da religião: leva anualmente milhares de pessoas até a cidade de mesmo nome, na Espanha, em busca de um encontro com o inexplicável. E foi isso que aconteceu comigo. Então precisava encontrar um novo caminho e busquei nos muitos quilômetros percorridos de bicicleta entre o Sul da França e o Norte da Espanha em maio passado. Consequentemente, passei por muitas experiências com analogias diretas aos acontecimentos da vida, momentos que nunca vão sair da minha memória.

Caminho de Santiago de Compostela.

 O Caminho

Declarado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, o Caminho de Santiago de Compostela é a peregrinação mais conhecida do mundo, percorrida desde a Idade Média. Conta a história que Tiago era um dos discípulos mais próximos de Jesus e que esteve presente em momentos importantes da sua vida. Após a morte de Cristo, ele começou a peregrinar e espalhar a sua palavra por uma antiga rota pagã, utilizada posteriormente por Napoleão para invadir a Espanha. De regresso a Jerusalém, foi decapitado pelo Rei Herodes, e seus restos mortais foram levados de volta à Espanha por dois de seus seguidores e enterrado na Galícia.

Em princípios do milênio atual, continua a lenda, um camponês chamado Pelayo, guiado por muitas estrelas, encontrou em um grande campo a sepultura do apóstolo. Então a notícia correu mundo, lançando uma legião de cristãos a peregrinar até Santiago de Compostela, cidade que se formou na região. “Compostela” provém de campo de estrelas. Desde então multidões de peregrinos, de anônimos a famosos, vêm percorrendo este caminho mágico, o único no mundo que não se formou por motivos comerciais.

A emoção na chegada a Santiago de Compostela. Não dá para colocar em palavras esse sentimento.

Mais de 1.200 anos depois, o roteiro não tem mais uma pegada tão religiosa, mas sim espiritual e também cultural e turística. E a procura é cada vez maior pela magia do Caminho, pelo encontro com si mesmo, pelos aprendizados com a semelhança com a vida e a troca de experiências com tantos que têm a mesma essência em várias partes do mundo.

Os caminhos do Caminho

Quando se fala na rota jacobeia, a maioria das pessoas acredita se tratar de somente uma. Porém, são dezenas que levam até a cidade de Santiago de Compostela, a partir da França, várias regiões da Espanha e Portugal. Por isso, há quem diga ainda que “o Caminho pode começar na porta da sua própria casa, a partir do momento que você decide fazê-lo”. A mais famosa delas, e que recebeu o citado título da UNESCO em 1993, é a que tem início em Saint-Jean-Pied-Port, no Sul da França. São aproximadamente 800 quilômetros até a Praça do Obradoiro, passando por diferentes regiões e consequentemente terrenos. E foi esse o caminho escolhido por mim, o tradicional Francês.

A opção pelas duas rodas

Da grande maioria das pessoas que busca algum dos caminhos, mais de 90%, segue até Santiago a pé – os peregrinos. Em segundo estão os ciclistas – os bicigrinos. E foi nessa categoria que me encaixei. Desde muito jovem tinha vontade de colocar uma bicicleta na estrada, sentir o vento no rosto e ter a possibilidade de vivenciar melhor uma viagem. Quando “descobri” o Caminho de Santiago e sua magia, soube imediatamente que era isso que precisava fazer. 

Ainda nos Pirineus, uma parada para admirar as montanhas nevadas no território francês

A preparação

Pedalo desde menino e me dedico ao montanhismo e escalada há 21 anos, ou seja, sou bastante ativo. Porém, para realizar bem meu objetivo, iniciei uma preparação específica para o mountain bike. Assim, foram aproximadamente seis meses de longas e duras pedaladas por rotas que já conhecia e outras que acabei descobrindo em nossa região nessa etapa. Me preparei para “sobrar fisicamente” em Santiago, deixando para a cicloviagem apenas a missão de crescer espiritual, emocional e culturalmente. Outra dica é treinar carregando peso semelhante ao que vai levar.

A bicicleta

Muitos que fazem o Caminho em duas rodas alugam a bicicleta por lá. Porém, o preço é salgado e você pode receber um equipamento que não está acostumado ou que não terá certeza se vai atender sua expectativa. Por isso optei em levar a minha companheira de aventuras, já atualizada de acordo com as minhas necessidades.

Mesmo pagando uma taxa para despachar, sai muito mais em conta. Além disso, tive o apoio do pessoal da Cycle São Cristóvão para fazer uma revisão geral antes da viagem e diminuir a chance de problemas (no meu caso, não tive nenhum e nem sequer um pneu furado…). Então, levando a sua ou alugando uma bike, é bom saber pelo menos o básico de mecânica e levar alguns materiais que podem ser necessários em reparos. Em vários momentos você irá passar por trechos sem nenhum tipo de ocupação humana, consequentemente não havendo a possibilidade de um resgate ou auxílio mesmo da empresa contratada.

Como chegar e custos

A principal cidade base na Espanha para o Caminho é Madrid. De lá é possível seguir de trem até uma localidade vizinha a Saint-Jean ou fazer mais um trecho de avião. Nessa segunda possibilidade, escolhida por mim, o viajante segue até Pamplona e lá pode pegar um ônibus (Que custa 22 Euros a passagem) ou, se encontrar com outros peregrinos/bicigrinos, dividir um táxi até o Sul da França. Essa última etapa da viagem dura aproximadamente 1h30. Quanto aos custos da viagem, a média de gastos é de 30/35 Euros por dia, contando hospedagem e alimentação. Nos albergues, paguei 5 Euros no municipais e até 18 em um particular.

Em Léon, aquela parada para ‘turistar’ com Gaudí

Documentação

Não é preciso visto, sendo “liberados” 90 dias de estadia. Basta ter passaporte regular, contratar obrigatoriamente um seguro saúde para viagem (que sai em torno de R$ 300) e comprovar as condições financeiras para ficar no período estipulado da viagem. Apesar das informações sobre essa última exigência, não me foi cobrado nos aeroportos. Quanto à credencial do peregrino, que garante hospedagem nos albergues e a compostela no final da aventura – documento da Igreja Católica que comprova a peregrinação – pode ser obtida em Saint-Jean, na oficina de acolhida ao Peregrino. Porém, você pode sair do país já com esse documento graças ao excelente trabalho realizado pela Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago, que trata com muito carinho e atenção todos os interessados na milenar rota, disponibilizando, além da credencial, mapas e diversas outras informações.

Já em mãos a Compostela, documento da Igreja Católica que comprova a realização do Caminho.

Divisão do Caminho

A pé são aproximadamente 30 dias. Em duas rodas, muitos fazem até em um terço disso. No meu caso, foram 14 dias até Santiago e mais um para chegar a Finisterra. Não porque não tinha condições de “acelerar” mais e reduzir o tempo, mas pelo desejo de viver o Caminho ao máximo, curtindo e conhecendo locais históricos e icônicos na rota jacobeia. Dessa forma, houve dia que pedalei menos que 30, como quando quis dormir no tradicional albergue de Roncesvalles, com mais de 800 anos de história, e etapa com 120 quilômetros no trecho da Meseta Central, plana e repetitiva. No dia 13 de pedal, por exemplo, poderia ter seguido direto para Santiago de Compostela e não pernoitado em O Pedrouzo/Árzua. Porém, queria concluir a cicloviagem pela manhã, leve, descansado e de coração aberto para contemplar esse mágico momento. Assim, na última etapa antes da grande catedral foram apenas 21 quilômetros.

Quilômetro zero, o final da aventura em Finisterra, que outrora já foi conhecida como ´Fim do Mundo´.

As etapas feitas por mim

1º dia – Saint-Jean-Pied-Port a Roncesvalles, 28km e 1.408m de altimetria

2º dia – Roncesvalles a Pamplona, 45km e 759m de altimetria

3º dia – Pamplona a Estella, 50km e 943m de altimetria

4º dia – Estella a Logrono, 55km e 901m de altimetria

5º dia – Logrono a Belorado, 74km e 1.180m de altimetria

6º dia – Belorado a Tardajos, 70km e 843m de altimetria

7º dia – Tardajos a Frómista, 57km e 601m de altimetria

8º dia – Frómista a Léon, 120km e 702m de altimetria

9º dia – Léon a Astorga, 57km e 492m de altimetria

10º dia  – Astorga a Ponferrada, 55km e 861m de altimetria

11º dia – Ponferrada a O Cebreiro, 56km e 1226m de altimeria

12º dia – O Cebreiro a Portomarin, 66km e 1076m de altimetria

13º dia – Portomarin a O Pedrouzo, 78km e 1568m de altimetria

14º dia – O Pedrouzo a Santiago, 21km e 384m de altimetria

15º dia – Santiago a Finisterra, 96km e 1.843m de altimetria

Caminho “de verdade”

A rota de peregrinação nasceu pelos pés dos caminhantes. Dessa forma, mesmo com o advento da bicicleta, em uma parte recente da história, há vários trechos onde pedalar é inviável. Pontos íngremes, pedregosos ou escorregadios exigem que se desça da “magrela” e a empurre, junto com o peso da bagagem.  Porém, fiz isso muito mais do que imaginei que precisaria, mas segui 95% pela rota original. Só deixei de pedalar pelo caminho “de verdade” quando houve necessidade por questões climáticas. Na saída do Cebreiro, por exemplo, nevou absurdamente. Comisso, o frio extremo e terreno molhado me obrigaram a descer pela estrada asfaltada até Triacastela.

Pouco depois de Pamplona fica o Alto do Perdão, onde há estátuas de metal construídas pela Associação de Amigos do Caminho de Santiago e o Parque Eólico desse local em homenagem aos peregrinos (1)

Outras dicas

Não pedale ou caminhe pensando apenas em chegar a Santiago. Mas, viva intensamente cada momento, cada cantinho que passar. Assim, não se preocupe em não encontrar lugar para dormir nos albergues. São vários nas grandes cidades e, se todos estiverem ocupados, basta seguir alguns quilômetros para conseguir a acolhida. Entretanto se estiver em dúvida, muitos aceitam reservas através de sites especializados. No meu caso, só não consegui hospedagem em Burgos, visto que cheguei em um sábado, dia que muitos começam o caminho, e justamente nesse local onde faltam exatamente 500 km para Santiago.

No último dia de pedal, mais um presente. Um espetacular pôr do Sol em Finisterra.

Não se preocupe se não tiver companhia. Poderá ir sozinho, mas nunca estará solitário. Não teve um dia que não cruzei com dezenas ou centenas de pessoas, entre elas muitos brasileiros. Em uma das etapas, por exemplo, conheci o André Luís de Oliveira, de Jundiaí, São Paulo, que acabou sendo companheiro durante três dias e na chegada à praça do Obradoiro.

A beleza e as fortes subidas dos Pirineus, primeiro grande desafio do Caminho Francês

Puente La Reina, Alto do Perdão, Bodegas Irache, Hospital de Órbigo, Porta do Perdão, Castrojeriz… Guarde esses nomes e pesquise outros locais que merecem ser mais do que visitados, merecem ser vividos. Com certeza passará por experiências que nunca sairão da sua memória, lembranças que motivarão a realização de outros caminhos e, logicamente, a vontade de voltar a percorrer o tradicional Francês. Esse é o meu caso. Desde que retornei, não teve um dia que não pensei ou falei nessa viagem, que não me imaginei pedalando leve e sorridente novamente pelas estradas e trilhas que levam até Santiago de Compostela, repetindo por dezenas de vezes, sem me aborrecer, “Bueeeeen Camino”.

Ponte de Hospital de Órbigo, conhecida como ‘Paso Honroso’

 

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Sobre o autor

Marcello Medeiros - Colunista

Marcello Medeiros é Biólogo e Jornalista, escrevendo sobre montanhismo e escalada desde 2003. Praticante de montanhismo desde 1998, foi Presidente do Centro Excursionista Teresopolitano (CET) entre 2007 e 2013.

16 Comentários

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    Leandro Cibreiros em

    Fantástico! Me acende uma esperança de um dia planejar tal feito, mas por enquanto pretendo me preparar pelos caminhos aqui mesmo no Brasil, quem sabe um dia eu me encoraje de verdade!

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    Oi Marcelo, parabéns pela viagem! Esse pedal de Compostela a Finisterra tem como ser feito em dois dias? Tem hospedagem entre as cidades???

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      Olá Carolina! Valeu pelo feedback.Tem sim, pois o trajeto é bem estruturado em relação a hospedagem. Quem faz a pé, geralmente divide em quatro dias. Eu optei em puxar em um porque só tinha um dia livre mesmo para fazer. Como fui pelo caminho original, por trilhas íngremes muitas vezes pedregosas, acabou sendo um dia longo. Mas se optar em um dia ou precisar por algum motivo, uma dica é seguir pelas estradas, aí flui bem até Finisterra. Qualquer dúvida, só entrar em contato. Buen Camino desde já.

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    Fábio Mattioli Gonçalves em

    Olá Marcello, é sempre bom ler as experiências referentes ao Caminho. Uma bela narrativa.
    Em 2006 fiz a pé o Caminho Francês, num momento especial para repensar a vida e reaproximação com minha família, desde a França e, vendo os ciclistas que por mim passavam, decidi voltar em 2007 para percorrer de bike a Via de Le Puy, justamente para ficar mais tempo sentindo o gostinho da aventura.
    De lá para cá não mais parei. Percorri de bike a Via de la Plata, o Caminho Aragonês e o Caminho Francês ao contrário passando por Saint Jean e de lá até Marsella para encontrar com minha esposa. No ano passado decidi fazer a pé o Caminho Português saindo de Lisboa acompanhado do meu irmão, numa viagem de reaproximação.
    Fora isto, foram outras quatro viagens pela Europa, sendo uma delas a travessia da Europa desde o Atlântico até o Mar Negro, tudo isto motivado pelo prazer de estar ao ar livre fazendo exercício, conhecendo lugares maravilhosos, respirando diferentes ares, conhecendo pessoas e comendo e bebendo diferentes experiências.
    Feliz encontrar pessoas com o mesmo espírito e compartilhar experiências.
    Forte abraço,
    (032)984428757

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      Olá Fábio, valeu o feedback. Realmente, quem vive a essência do Caminho dificilmente não vai querer repetir ou buscar outras rotas. Este ano faria o Caminho da Fé e o Caminho do Sol, também de bike, mas adiei por conta da pandemia. Tenho vontade/planos futuros de realizar o Caminho Português, também a partir de Lisboa. Quem sabe a gente se encontra em um algum desses caminhos! 🙂

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    Roberto Gadelha em

    Obrigado por compartilhar essa experiência maravilhosa, pretendo fazer esse roteiro no segundo semestre de 2021 com meu filho, hoje começa o caminho, o planejamento. Entrarei em contato para pegar dicas, mapas , …

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      Olá, Roberto! Que legal! Fazer o Caminho com um filho deve ser uma experiência sensacional. Qualquer dúvida, só entrar em contato. Depois veja no Youtube ( basta pesquisar #caminhodesantiago ) pois lá registrei toda a viagem! Buen camino, desde já!

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    Olá!
    Pode me passar a configuração da bike que vc usou? Foi de MTB?
    Gostei do roteiro que vc utilizou. Em que período foste?

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      Olá Allan! Levei minha companheira de viagem. Na ocasião estava muito mais em conta levar do que alugar lá, mesmo pagando taxa cobrada pela companhia aérea. Outra vantagem de levar é já estar configurada para mim e ir devidamente revisada.

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    Olá!!
    Tenho certeza que é uma experiência sem precedentes, peço a Deus que um dia possa realizar esse percurso tão rico e principalmente em relação a espiritualidade. Obrigada por dividir essa experiência!!!

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