Dedo do Moleque, projeto leva curso de escalada a comunidade quilombola na Chapada dos Veadeiros

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A comunidade do Vão do Moleque, na Chapada dos Veadeiros, faz parte do território quilombola Kalunga e abriga inúmeras montanhas e beleza do cerrado brasileiro. Entre elas está o Dedo do Moleque onde foi realizado o 1º Curso de Introdução a Escalada em Rocha entre os dias 12 e 18/10.

O curso totalmente gratuito foi oferecido por um grupo escaladores do Paraná de forma voluntária e contou com parceria com diversos apoiadores. A comunidade Kalunga também se uniu para apoiar o curso, fornecendo logística e alimentação a todos os integrantes. Participaram das aulas sete alunos, todos de origem Kalunga e moradores do Vão do Moleque ou da comunidade vizinha, Engenho II.

Alunos e professores durante a entrega dos certificados. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

O objetivo da ação foi apresentar a escalada ao povo Kalunga, fomentando e oferecendo as ferramentas básicas para que eles possam compreender e até mesmo auxiliar os turistas que buscam a região para praticar esse esporte. Além do curso, o esporte também foi apresentado aos 25 alunos, de 6 a 12 anos, da Escola Municipal Capela do Moleque por meio de um muro de escalada indoor instalado nas dependências da instituição.

A montagem do muro foi acompanhada por alunos curiosos. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

A inauguração do muro de escalada feita pelos pequenos escaladores Kalunga. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes.

Escola Capela do Moleque com o Dedo do Moleque ao fundo. Foto: Gustavo Procat.

Um sonho com mais de 20 anos

A ideia de levar a escalada até a comunidade quilombola surgiu quando o escalador Fábio Lima e sua parceira Nair Rubia Baptista visitaram o local em abril desse ano acompanhados por uma amiga, Evie Negro. Na ocasião, Lima se encantou com a história da região e descobriu que um dos guias locais, Martinho Fernandes dos Santos, sonhava em escalar o Dedo do Moleque há mais de 20 anos.

Martinho foi o guia da primeira expedição de escalada a essa montanha, realizada em 2003. Na época ele levou a escaladora Andrea Zimmermann e outros escaladores de Brasília até a base da parede. Posteriormente, em 2006, uma nova expedição organizada pela Associação Brasiliense de Escalada e Montanhismo (ABRESCA) colocou uma caixa de cume no topo da montanha. Desde então Martinho sonhava em chegar ao cume e ver a caixa deixada, porém nunca teve oportunidade para isso, até que o trio formado por Lima, Rubia e Evie chegaram por lá.

Dedo do Moleque no pôr do sol visto desde o quintal da casa de Martinho. Foto: Gustavo Procat.

“Eu já tinha guiado as pessoas até a base, daí eles falaram que iam me levar na segunda vez que eles viessem, iam passar um cinto em mim e me levar, porque lá tinha aquela caixinha no cume e eu fiquei muito curioso”, contou o guia Kalunga, Martinho.

Aproximação à base da via. Foto: Maruza Silverio

Lima percebeu o interesse de Martinho, mas como não tinha equipamentos disponíveis para emprestar, disse ao Kalunga que não seria possível. Quando Lima chegou ao primeiro platô e montou uma ancoragem, viu Martinho se aproximando, escalando em solo. Novamente o escalador mais experiente falou sobre os riscos. No entanto, o Kalunga respondeu “não se preocupe moço. Eu só vou até aqui, mas o meu sonho é ver o que a Andrea deixou lá em cima”. Comovido com a resposta e simplicidade de Martinho, Lima conversou com suas parceiras e improvisou uma cadeirinha de fita para que o mesmo pudesse chegar até ao cume.

O guia Kalunga não pensou duas vezes e embarcou na aventura para realizar o seu sonho de ver a tal caixa deixada lá há tantos anos. Ao ver a emoção de Martinho no topo da montanha, Lima decidiu que iria ensinar ele a escalar e dar as ferramentas para que ele pudesse ter uma noção mínima e começasse a se desenvolver no esporte.

Martinho pela primeira vez no cume do Dedo do Moleque

“Muitas coisas me moveram para que eu voltasse, a pessoa do Martinho foi a principal, e outra foi ver que num lugar tão distante, onde num passado não tão distante um povo que foi tratado com tanto descaso e humilhação, mas conseguiu unir forças e lutar pela sua liberdade e sobreviver em meio a tantas adversidades”, disse o escalador. Lima que também possui descendência africana, disse ainda que se identificou com o povo Kalunga. “E como não falar também de como me vi neles, mesmo vivendo em outra realidade, o descaso da nossa sociedade é o mesmo e faz com que nem todos tenham a oportunidade de ao menos conhecer e praticar um esporte como a escalada”.

1º Curso de Introdução à Escalada em Rocha do Vão do Moleque

Assim, a ideia inicial ganhou corpo e novos alunos interessados. Então Lima decidiu convidar os amigos e escaladores: Gustavo Procat, Maruza Silverio, Lucas Szabo e Ebraim Oliveira para ajudar a ministrar o curso. O grupo rodou cerca de 1800 quilômetros de Curitiba, no Paraná, até o Vão do Moleque, em Cavalcante, no norte de Goiás. Marcos Schaus também integrou a equipe dando apoio desde a capital paranaense.

A viagem foi feita em dois carros para levar todos os equipamentos arrecadados. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

Lá eles conheceram o escalador e guia, Gabriel Gomes que também auxiliou no projeto e os alunos Martinho, Danilvan José Torres, Januário Fernandes dos Santos, Leila Ivana José dos Santos, Maurício Ferreira da Silva, Neucilene Francisco da Costa e Stefany Fabian Alves Maia.

O local escolhido como base para o curso foi o Pouso da Dona Santina, pousada comandada pela esposa de Martinho. Os alunos receberam aulas teóricas sobre o montanhismo, escalada e os principais procedimentos de segurança no esporte. Eles praticaram os procedimentos de forma improvisada em mangueiras e na parede do galpão. Ao fim do curso, o grupo foi dividido em dois para escalar o Dedo do Moleque e colocar em prática os novos aprendizados além de conhecer essa belíssima montanha.

Alunos aprendendo sobre ancoragens na escalada. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

Primeiros contatos com as cordas dinâmicas e cordeletes. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

Apresentação dos equipamentos aos alunos. Foto: Lucas Szabo/ Guanaco Filmes

A via escolhida para acessar o cume chama-se Kalungueiro Guerreiro e foi conquistada em móvel por Lima em abril. Trata-se de uma homenagem ao Martinho, que os acompanhou na ocasião. No entanto, para dar mais segurança e tornar essa rota viável para os novos escaladores Kalungas, o grupo decidiu equipá-la com proteções fixas.

Além de oferecer o curso, Lima também arrecadou equipamentos e doou um kit básico de escalada para cada um dos alunos. “Tudo isso só pôde acontecer devido à ajuda de pessoas e empresas que toparam me ajudar, doando seu tempo, mas também todos os equipamentos necessários para que pudéssemos não somente ministrar o curso, mas também deixar para cada um deles tudo que fosse necessário para que eles possam dar continuidade na escalada”, ressaltou Lima.

 Kalungas no cume do Dedo do Moleque

Após mais de 200 anos morando na região, finalmente os Kalungas puderam chegar ao cume dessa montanha emblemática que enfeita a paisagem dos quintais de suas casas. Atualmente, Martinho é o Kalunga que esteve mais vezes no cume do Dedo do Moleque (duas vezes em abril e uma durante o curso).

“Quando eu fui com vocês, na primeira vez, em abril deste ano, pra mim foi bom porque eu cheguei lá, vi que eles tinham ido lá mesmo, a caixinha tava lá e para mim foi uma beleza. Também porque eu subi numa altura que eu não esperava. Pra mim aquilo ali não tem nem palavras. E vocês confiaram muito em mim, porque vocês nunca tinham me visto escalar, eu nunca tinha feito um rapel, eu não tinha nem noção de um rapel, e vocês confiaram e me levaram junto para o cume. Então da primeira vez que eu cheguei ao cume foi muito bom e a segunda vez foi melhor ainda porque também tinha meus amigos e vi eles também muito felizes”, detalhou Martinho.

Januário, Danilvan, Maurício e Martinho, quatro amigos Kalungas reunidos no cume do Dedo do Moleque. Foto: Fábio Lima

“Eu só tenho a agradecer a oportunidade. O curso para mim foi muito bom, porque a gente tendo conhecimento nos dá mais segurança para a prática. E é o que eu gosto, o meu esporte é aventura, sabe? É uma cavalgada, corrida de cavalo, e agora eu estou muito viciado nisso, enquanto eu estiver dando conta de escalar, de subir nas alturas, o meu foco é esse”, finalizou o Kalunga.

Já Neucilene que também trabalha como guia na comunidade contou que também se apaixonou pelo esporte e quer continuar escalando e se aprimorando no esporte. “Eu amei, foi uma experiência incrível. Eu tinha vontade de fazer rapel, mas não tinha muito interesse em escalar, porque eu não conhecia a modalidade de escalada, como que era e como que funcionava. Graças ao curso eu tive essa experiência e amei. Pretendo sim continuar escalando, pretendo pegar mais preparo e mais agilidade nesse ramo. É uma coisa que quero fazer para mim”, contou ela.

Leila escalando pela primeira vez na vida. Foto: Fábio Lima.

Neucilene, Lima e Leila no topo da montanha.

Neucilene e Leila escrevendo seus nomes e registrando a chegada das mulheres Kalungas ao cume. Foto: Fábio Lima.

Território Kalunga

A comunidade Kalunga possui mais de 200 anos de história e ocupa uma área com cerca de 230 mil hectares, divididas em quatro comunidades: Engenho II, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas.  O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK) é o maior território em extensão de descendentes quilombolas do Brasil. Ele é reconhecido pela fundação Palmares e pelo Governo de Goiás desde 1991. Em 2021, ele também foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Atualmente ele abriga cerca de 4 mil pessoas, de acordo com a Assembleia Legislativa de Goiás. A população vive em uma região remota e de forma autossustentável, produzindo sua própria comida no cerrado. A cidade mais próxima ao Vão do Moleque é Cavalcante. No entanto, para chegar até lá é necessário percorrer no mínimo 60 km em estradas de terra, que sofrem interdições frequentes na época das chuvas. A energia elétrica juntamente com a internet rural chegou à região apenas no ano de 2018, mas também é comum a falha desses serviços .

Segundo a ALEGO, na língua banto, a palavra kalunga significa lugar sagrado, de proteção. Além da Agricultura familiar de subsistência, os Kalungas também lutam para desenvolver o turismo responsável protegendo as tradições locais e a rica biodiversidade do cerrado.

Apoiadores do projeto

Este curso foi feito de maira voluntária e viabilizado com o apoio das marcas Loja Alta Montanha, Alto Estilo, Arienti Equipamentos, Armbury, Bonier Equipamentos, Casa Terra Cavalcante, Cavalcasa, Chima Rocks, Climb Clean, Clube Paranaense de Montanhismo, Cogumelos Agari, Conquista, DNA da Montanha, Guanaco Filmes, Montanero Expedições, Mureiz, Nos Alpes, Pole Climb, Pouso Dona Santina, Quatro Ventos, Quintal de Casa Ecoturismo, Ressolas Curitiba.
Algumas pessoas também apoiaram a ação: Felipe dos Santos, Bruno Magalhães, Ebraim Oliveira, Luiz Guilherme Souza, Roberto Pitella, Ronaldo Franzen “Nativo”.

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Sobre o autor

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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