Doação de sangue e alta montanha: como o gesto solidário pode impactar o desempenho em expedições

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A máxima de que doar sangue salva vidas pode, de fato, ser comprovada por números. No Brasil, são registradas cerca de 3,1 a 3,2 milhões de doações por ano. Como cada uma pode beneficiar até quatro pessoas, estima-se que aproximadamente 12 milhões de vidas sejam impactadas anualmente por esse gesto de solidariedade.

As doações de sangue podem ser feitas em hemocentro ou banco de sangue da sua cidade. Foto: Ciete Silvério/Governo do Estado de SP

De modo geral, qualquer pessoa saudável entre 18 e 69 anos, com mais de 50 kg, pode doar sangue periodicamente — homens a cada 60 dias e mulheres a cada 90 dias. No entanto, para quem pratica montanhismo de altitude ou está se preparando para expedições em alta montanha, é necessário adotar alguns cuidados específicos antes de realizar essa boa ação.

Após uma doação, o corpo humano precisa repor entre 450 e 500 mL de sangue, o que corresponde a cerca de 7% a 8% do volume total de um adulto de 70 kg. De acordo com a médica Juliana Schlaad, nutróloga, doutora pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pós-graduada em medicina de expedições e áreas remotas pela Royal College of Physicians & Surgeons of Glasgow (Reino Unido), o organismo de uma pessoa saudável tolera bem essa redução inicial e imediatamente inicia processos de reposição.

Ainda assim, durante a doação são coletados leucócitos (glóbulos brancos, responsáveis pela defesa imunológica), plaquetas (atuantes na coagulação), hemácias (glóbulos vermelhos, responsáveis pelo transporte de oxigênio) e plasma (parte líquida do sangue). A reposição completa desses componentes pode levar até oito semanas, dependendo das condições de saúde e da dieta do doador.

Menos oxigênio

Segundo Juliana, alguns estudos indicam que, para indivíduos já aclimatados, uma doação isolada não compromete de forma significativa o desempenho físico em altitudes de até cerca de 3 mil metros. Entretanto, em expedições de alta montanha, o impacto tende a ser mais relevante devido à intensidade do esforço exigido.

“Após uma doação, o número de hemácias diminui, reduzindo a quantidade de oxigênio que chega às células. Em um ambiente em que a exigência física é elevada, como em alta montanha, essa redução vai implicar em fadiga maior, menor capacidade física e até em maior risco de desenvolver doenças agudas relacionadas à altitude, como mal agudo de altitude”, explicou Juliana.

Aclimatação no Equador. Foto: Pedro Hauck.

Nesse contexto, é importante destacar que a diminuição da oferta de oxigênio ocorre justamente em um ambiente onde o corpo já enfrenta dificuldades naturais para captá-lo. Consequentemente, o processo de aclimatação pode ser prejudicado.

Um doador recente, portanto, tende a apresentar maior dificuldade de adaptação à altitude, já que a entrega de oxigênio às células fica comprometida pela redução temporária das hemácias circulantes. Dessa forma, sintomas semelhantes aos do mal de altitude como fadiga, dor de cabeça, tontura e falta de ar, podem se intensificar. Nesses casos, apenas um especialista pode realizar o diagnóstico adequado, sendo que a negligência desses sinais pode representar riscos significativos à saúde.

Além disso, é comum observar um ritmo mais lento nas subidas, maior propensão à fadiga precoce e mais dificuldade na recuperação e no sono.

Cinco a nove semanas

Diante desse cenário, para evitar um desgaste adicional do organismo e reduzir riscos, a doutora Juliana Schlaad recomenda que montanhistas realizem a doação com antecedência de cinco a nove semanas em relação à expedição. Esse intervalo permite que todos os componentes sanguíneos sejam devidamente restabelecidos antes da exposição à altitude.

No dia da doação, o repouso é fundamental. Ainda assim, atividades leves podem ser retomadas após 24 horas, enquanto exercícios físicos mais intensos e treinamentos voltados à alta montanha devem ser retomados apenas entre 48 e 72 horas depois.

Deve se esperar pelo menos dois dias para voltar a rotina de treinos e escaladas. Foto: Divulgação Via AltaMontanha.

Por outro lado, alguns grupos exigem atenção redobrada, como pessoas com baixos estoques de ferro, mulheres em idade fértil e indivíduos veganos, que apresentam maior risco de desenvolver anemia por deficiência de ferro após a doação. Nesses casos, Juliana reforça que é necessário “evitar esforço físico muito intenso em 72h, hidratar-se adequadamente, aumentar o consumo de alimentos ricos em ferro e vitamina C e evitar bebidas ricas em cafeína e leite junto às principais refeições”.

Cuidados especiais

Por fim, Juliana explica que, embora a doação de sangue não afete o desempenho esportivo a médio prazo, pode haver redução do desempenho aeróbico no curto prazo, geralmente por até quatro semanas. “A doação de sangue é uma prática segura para atletas amadores e profissionais, desde que observadas algumas regras como manter boa hidratação e alimentação nos dias subsequentes à doação; respeitar o tempo de repouso após a doação; e monitorar sinais e sintomas como tontura, fadiga excessiva ou mal-estar, e procurar um médico caso isso aconteça”, detalhou a doutora.

A hidratação é fundamental durante o período na montanha. Foto: Pedro Hauck

Já para quem pretende doar após retornar de uma expedição longa, a recomendação é avaliar cuidadosamente as condições de saúde. “Uma expedição longa em altitude pode ter impactos na saúde e/ou alterar alguns parâmetros laboratoriais. Ao retornar de uma expedição, certifique-se de que está em boas condições nutricionais e de saúde como um todo, antes de doar sangue”, explicou Juliana.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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