Produção independente revisita uma experiência pioneira de 2009 e acompanha duas expedições realizadas em 2025 e 2026, que estabeleceram linhas entre paredes do Conjunto Marumbi, no Paraná.
A história do montanhismo é construída por pessoas, conquistas e conhecimentos transmitidos entre gerações. No Conjunto Marumbi, na Serra do Mar paranaense, essa conexão também ganhou forma por meio do highline, modalidade em que os praticantes caminham sobre uma fita suspensa em grandes alturas.

Highliner atravessando do Abrolhos para a parede da Esfinge. Foto: Renata Souza @renatisses
Essa trajetória é o tema do documentário Highline Marumbi 2026 — Uma Linha Entre Gerações, produzido pela FOCO NOALS, produtora independente. O filme estreia no dia 13/11, às 19h30, no Refúgio AltaMontanha Pub, e apresenta os bastidores da expedição realizada em 2026.
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Mais do que registrar a instalação de linhas entre paredes rochosas, a produção acompanha a continuidade de uma história iniciada por antigos praticantes e retomada por uma nova geração de montanhistas e highliners.
Uma história que começou em 2009
A relação do highline com o Marumbi começou em 2009, quando Irivan Burda e Marcelo Santos (Bonga), José Luiz Hartmann (Chiquinho) e outros praticantes instalaram uma fita entre o Abrolhos e a Torre dos Sinos. Na época, a modalidade ainda dava seus primeiros passos no Brasil, e a experiência representou um desafio técnico e uma nova possibilidade de interação com as paredes da montanha. Ainda assim, eles conseguiram montar a linha entre as montanhas, mas apenas Bonga conseguiu completar a travessia.
Anos depois, essa história chegou aos integrantes do projeto Highline Marumbi por meio de Ronaldo Franzen (Nativo), montanhista que compartilhou relatos sobre a experiência e as possibilidades de realizar novas travessias na região, incentivando a nova geração.
“Quando Nativo nos contou pela primeira vez sobre aquele highline, ele não estava apenas relatando uma conquista antiga. Estava mantendo aquela experiência viva”, destacaram os idealizadores Michael Noal Monteiro Ribeiro, Cainã Castro e Luiz Felipe Prodo.
A partir desse contato, surgiu a ideia de retomar a conexão entre as formações rochosas do Marumbi e ampliar as possibilidades do highline nesse conjunto.
Duas expedições e novas linhas no Marumbi
Em setembro de 2025, a equipe realizou a primeira expedição do projeto, estabelecendo a linha batizada de Desfiladeiro das Catedrais, com 100 metros de comprimento e aproximadamente 200 metros de altura.
A operação exigiu meses de planejamento, autorizações burocráticas e uma equipe com diferentes conhecimentos técnicos. “Organizar um highline dentro de uma área protegida significava que não bastava escolher duas paredes e carregar equipamentos montanha acima. Era necessário apresentar o projeto, discutir os procedimentos e conseguir as autorizações para realizar a atividade”, contaram os idealizadores do projeto”.

Travessia realizada em 2025. Imagem: FOCONOALS
Quando a autorização para a atividade finalmente saiu a equipe tinha poucas janelas de tempo bom. Mas ainda assim decidiram fazer uma investida. No entanto, a montanha os recebeu com chuva, mas eles aproeitaram o dia para reorganizar os equipamentos e apresentar a montanha para o restante da equipe.
“É difícil explicar o Marumbi para alguém antes de levá-lo até lá. A distância no mapa raramente corresponde ao esforço necessário para percorrê-la. A vegetação, a umidade, as paredes e as mudanças rápidas de tempo fazem parte da logística tanto quanto cordas, mosquetões e fitas”, contaram os idealizadores.
Uma pequena janela de tempo bom
Segundo eles, uma rápida abertura nas condições climáticas possibilitou que subissem a montanha e iniciassem os trabalhos ainda nessa primeira investida. Com tudo pronto para montagem, um dos principais desafios foi transportar a primeira linha de um lado ao outro do vale utilizando um drone, operação dificultada pelas fortes rajadas de vento.
Depois de aproximadamente duas horas de espera, o piloto Gabriel Noal conseguiu realizar a passagem. “A equipe foi ao delírio, pois quando conseguimos passar o drone, já é o começo da materialização do highline”, contaram os idealizadores.
Com a conexão estabelecida, os integrantes puderam iniciar as travessias, algumas delas em meio a um cenário de mar de nuvens sobre a Serra do Mar. Em poucas horas de travessia, atravessaram nessa linha Cainã Castro, Isaias Veiga, João Ubaldo, João Vitor de Araujo dos Santos, Leonardo Carvalho, Luiz Felipe Prodo, Michael Noal Monteiro Ribeiro e Reginaldo Tiago de Castro. Os registros dessa expedição renderam um primeiro documentário Highline No Marumbi 2025 Via Desfiladeiro das Catedrais.

Registro do desfiladeiro entre os dois cumes. Imagem: FOCONOALS
O retorno e um novo desafio
Em julho de 2026, a equipe retornou à montanha para um desafio ainda maior: conectar o colo do Abrolhos à Esfinge. No entanto, a nova linha exigiu uma logística mais complexa, incluindo acesso por cordas fixas e aproximadamente 200 metros de rapel pela parede até um platô no meio da parede da Esfinge.

Equipe trabalhando na montagem da linha. Foto: Renata Souza @renatisses.
A expedição também enfrentou imprevistos. Durante uma tentativa de instalação, o primeiro drone utilizado na operação ficou sem bateria e caiu na mata. Assim, a equipe precisou reorganizar os trabalhos e realizar uma segunda tentativa no dia seguinte, desta vez com outro equipamento e o piloto Felipe Prodo.

Travessia entre Abrolhos e Esfinge. Foto: Renata Souza @renatisses
Uma nova travessia
Com a passagem finalmente concluída, começaram as travessias. Assim, Fabiana Fernandes realizou a primeira, durante o pôr do sol, seguida por Leonardo Carvalho e outros integrantes. A atividade continuou no dia seguinte, com novas travessias e registros da paisagem do Marumbi.
A equipe contou com 15 integrantes: Alecsandro Urbano Hannegraf, Cainã Castro, Diogo Fernando Blockwel, Fabiana Fernandes de Souza, Fabio Pinto Vargas, João Vitor de Araujo dos Santos, Jocimar Bica Simões, Leonardo Carvalho, Luiz Felipe Prodo, Matheus do Nascimento Machado, Michael Noal Monteiro Ribeiro, Reginaldo Tiago de Castro, Renata Souza, Ivana Moreira e Vinicius Teodoro.

A equipe contou com integrantes especializados não apenas em Highline mas também em montanhismo e escalada. Foto: Renata Souza @renatisses
A conquista recebeu o nome de “Se precisar eu vou”, expressão que surgiu durante a decisão sobre quem assumiria o acesso à parede da Esfinge para a desmontagem da estrutura.
“Em meio à tomada de decisão de quem iria para o lado B, todos falaram ‘Se precisar eu vou’, mas ninguém se dispôs a ir diretamente, pois todos estavam exaustos. Então, o Cainã e o Michael se dispuseram. O nome surgiu naturalmente de forma coletiva”, explicaram.
Uma conquista coletiva
As duas expedições reuniram escaladores, highliners e montanhistas, demonstrando a importância da integração entre diferentes conhecimentos e modalidades para viabilizar projetos dessa dimensão.
Além dos desafios técnicos, o trabalho envolveu planejamento, logística, autorizações e colaboração com instituições responsáveis pela área protegida e com a comunidade montanhista local.

A equipe teve dois dias de travessias. Foto: Renata Souza @renatisses.
Para os idealizadores do projeto, a história não pode ser atribuída a uma única pessoa ou geração.
“Não existe conquista sem uma coletividade unida, unindo a força corporal, mental e histórica de quem pavimentou os caminhos. Cada trilha aberta, cada grampo batido e cada conhecimento repassado formam o tecido de um coletivo forte”, destacou.
“As paredes do Marumbi deixam isso evidente. Para alcançar determinados pontos, precisamos de escaladores. Assim, como para acessar as ancoragens, técnicas de progressão e rapel. Para compreender caminhos e condições, conhecimento de quem frequenta a montanha há anos. E para instalar a fita, experiência de highline”, concluíram os idealizadores.
Próximo desafio: uma linha de aproximadamente 400 metros em 2027
A história, entretanto, não termina com as expedições de 2025 e 2026. A equipe já trabalha em um novo projeto para o próximo ano, que prevê conectar diretamente o cume da Esfinge ao cume da Torre dos Sinos.
A proposta é estabelecer uma linha de aproximadamente 400 metros de extensão, suspensa sobre um vazio que também pode chegar à ordem dos 400 metros de altura. Portanto, caso seja concretizada, será a maior e mais alta linha instalada pela equipe no Marumbi.
O planejamento envolve estudos de acesso, autorizações, meteorologia, definição das ancoragens e organização logística. Entretanto, além do desafio esportivo, o projeto pretende ampliar sua relação com a comunidade de Morretes, por meio de ações sociais e iniciativas de aproximação com moradores interessados na modalidade.
“Fazendo trabalho social, queremos integrar a comunidade local ao highline. Nosso projeto não é só montar uma fita, é deixar o legado de uma prática que tanto amamos e que acreditamos que pode mudar vidas”, afirma.
A intenção é desenvolver um trabalho de base, aproximando crianças e outros moradores do highline e criando oportunidades para que a comunidade local também participe dessa história.
Estreia do documentário
Produzido pela FOCO NOALS, Highline Marumbi 2026 — Uma Linha Entre Gerações registra os bastidores das expedições, os desafios enfrentados pelas equipes e a relação entre a história do montanhismo local e as novas possibilidades de exploração das paredes do Marumbi.
A estreia será realizada no dia 13 de novembro de 2026, às 19h30, no Refúgio AltaMontanha Pub.
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A produção também representa uma homenagem às pessoas que construíram essa trajetória e à transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações de praticantes. Afinal, como resumiu os idealizadores: “Porque algumas linhas permanecem por poucos dias entre duas montanhas. Outras atravessam gerações”.







