El Niño: o que esperar da temporada de montanhismo nos Andes em 2026/27?

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O histórico do Aconcágua ajuda a entender o que observar na temporada 2026/27, com El Niño no cenário e efeitos diferentes entre os Andes centrais e a Patagônia.

Imagem de abertura: caminho de Confluência à face sul do Aconcágua. Foto de arquivo: Pedro Hauck.

No Aconcágua, temporadas anteriores com El Niño tiveram temporais, interrupções e poucos cumes. Os balanços de 2015/16, 2018/19 e 2023/24 ajudam a entender o que merece atenção neste verão.

Quem planeja o Aconcágua para 2026/27 tem uma pergunta bem prática: o que aconteceu na montanha durante os últimos episódios de El Niño? Os balanços reunidos abaixo mostram temporadas com dificuldades meteorológicas e uma proporção pequena de candidatos chegando ao topo.

Isso torna o histórico relevante para quem está organizando uma expedição. Mas os registros descrevem o que aconteceu durante episódios de El Niño; não isolam quanto do mau tempo foi causado pelo fenômeno. O tamanho do evento no Pacífico também não funciona como uma régua da dificuldade de cada temporada.

O que sabemos em outubro

No boletim de 8 de outubro de 2026, o Centro de Previsão Climática da NOAA informou que El Niño continuava se fortalecendo, com probabilidade superior a 83% de permanecer forte a muito forte no trimestre janeiro–março de 2027. Trata-se da intensidade do fenômeno no Pacífico tropical, não da probabilidade de uma tempestade numa montanha específica. Fonte: NOAA/CPC.

A Organização Meteorológica Mundial também apontou, em 8 de outubro, uma probabilidade próxima de 100% de persistência de El Niño até fevereiro de 2027. A principal mensagem para o montanhista é que esse será um componente importante do cenário climático da temporada — sem determinar sozinho o tempo de cada expedição. Fonte: OMM.

Aconcágua: o que aconteceu nas últimas temporadas com El Niño?

O quadro compara três temporadas com El Niño e a de 2024/25, sem o fenômeno, como referência. As três destacadas em amarelo coincidiram com El Niño no verão austral, conforme a série histórica do índice RONI da NOAA, adotado pelo órgão no monitoramento oficial em 2026. A comparação é descritiva: os números, por si só, não isolam o efeito do fenômeno sobre os resultados das expedições.

Amarelo: temporada com El Niño no verão austral.

Aconcágua: temporadas com El Niño e a referência de 2024/25
Temporada Permissões de ascensão* Cumes aproximados (%)
2015/16El Niño 2.792 permissões 800 cumes (29%)
2018/19El Niño 3.364 permissões 670 cumes (20%)
2023/24El Niño 2.795 permissões** 500 cumes (18%)**
2024/25Sem El Niño 3.449 permissões Mais de 1.200 cumes (>35%)***

* “Permissões” padroniza a apresentação dos registros da categoria de ascensão; algumas fontes contam ingressos ou participantes, sem separar permissões não utilizadas. ** 2023/24: balanço parcial divulgado em 11/02/2024, sem comparação direta com temporadas encerradas. *** 2024/25: limite aproximado calculado a partir dos 3.449 participantes e do sucesso superior a 35% informado pelo governo; não é uma contagem exata publicada. Em 2018/19, os cerca de 670 cumes também são calculados a partir do percentual divulgado. Em 2015/16, os 800 são uma estimativa extraoficial.

Fontes por temporada: 2015/16; 2018/19; 2023/24, parcial; 2024/25.

2015/16: frio, temporais e expedições canceladas

A cobertura publicada pelo AltaMontanha em abril de 2016 descreveu muito frio, tempestades e enxurradas de lama e pedras que prejudicaram os acessos. O próprio texto qualificava os cerca de 800 cumes como uma estimativa extraoficial. Divididos pelas 2.792 permissões emitidas, representam aproximadamente 29% — perto de três em cada dez.

Há também um relato direto de operação: a High Mountain Expeditions informou ter cancelado duas saídas ao Aconcágua e redirecionado os participantes ao Ojos del Salado diante dos ventos fortes e da instabilidade. É o resultado daquela empresa, não uma estatística de todos os operadores. Fonte: relatório da HME de 2015/16.

2018/19: só cerca de 20% chegaram ao topo

O balanço do Governo de Mendoza descreve temperaturas negativas e rajadas que dificultaram as ascensões ao longo do verão. Dos 3.364 montanhistas que buscavam o cume, cerca de 20% conseguiram. Isso equivale a aproximadamente 670 pessoas; o comunicado não apresenta uma contagem exata de cumes.

É um contraste relevante com 2015/16: mesmo sem repetir a intensidade daquele El Niño na série oceânica, 2018/19 apresentou uma proporção de cumes menor nos balanços consultados. A comparação ilustra por que a intensidade de El Niño, sozinha, não permite calcular a chance de chegar ao topo.

2023/24: neve e vento, depois calor e problemas no acesso

Na temporada mais recente desse grupo, um temporal de neve e vento durou dez dias no começo das operações, segundo reportagem de 7 de janeiro de 2024. Naquela data, a contagem divulgada ainda era inferior a 100 cumes. Fonte: Diario UNO, janeiro de 2024.

O balanço publicado em 11 de fevereiro já informava 500 cumes. A mesma reportagem relatava o fechamento da Quebrada de Vacas após o derretimento e a formação de lagos. O registro posterior do Governo de Mendoza com o Ianigla confirma que uma intensa onda de calor em janeiro de 2024 acelerou o degelo e gerou lagos com potencial risco de movimentos de massa. Fonte: Governo de Mendoza/Ianigla.

A lição desse verão vai além do frio: a dificuldade de uma expedição também pode estar no acesso. E a contagem de 500 precisa continuar identificada como parcial; não localizamos um total final verificável de cumes para substituí-la.

Então, o que esperar do Aconcágua em 2026/27?

A leitura prática desses precedentes é planejar com margem para interrupções por neve, vento e problemas de acesso, em vez de contar com uma sequência contínua de dias aproveitáveis. Essa é uma interpretação dos episódios documentados, não uma previsão de que todos eles se repetirão neste verão.

Como referência de uma temporada diferente, o balanço oficial de 2024/25 relatou condições favoráveis e mais de 35% de sucesso entre 3.449 participantes da categoria de ascensão. O documento não informa o número exato de cumes. O contraste mostra a variação entre temporadas, mas não mede um efeito isolado de El Niño. Fonte: Governo de Mendoza, balanço de 2024/25.

Também precisamos distinguir relatos de mau tempo nas rotas e nos acampamentos de medições feitas no cume. As fontes históricas usadas aqui não oferecem uma série meteorológica homogênea no topo para comparar temperaturas, ventos ou número de dias escaláveis entre esses verões. Seria incorreto transformar esses relatos em uma previsão de temperatura ou de dias de cume para 2026/27.

O histórico dá um motivo concreto para acompanhar a temporada com atenção. A previsão de curto prazo e as condições encontradas na montanha é que orientarão a decisão de subir, esperar ou voltar.

E no Chile central?

Uma das relações mais conhecidas de El Niño é a tendência a mais precipitação no Chile central durante o inverno e a primavera, explicada pela Direção Meteorológica do Chile. A associação ajuda a entender o contexto, mas não deve ser transferida automaticamente para janeiro no Aconcágua. Fonte: MeteoChile, padrões históricos.

Ojos del Salado: cuidado com a generalização

A região do Ojos del Salado merece um recorte próprio. Não é correto transportar para ela, sem conferir a localização e a área coberta pelos boletins, uma previsão destinada a Santiago, ao Altiplano ou à Patagônia.

Para esse destino, a informação útil será a combinação entre os prognósticos regionais atualizados, os avisos de tempo e os relatos locais sobre as condições de acesso. Por enquanto, não há base nesta apuração para prometer uma temporada mais seca, mais nevada ou mais favorável nessa montanha apenas pela presença de El Niño.

Patagônia: menos chuva não significa tempo garantido

O Centro de Ciência do Clima e da Resiliência, da Universidade do Chile, explica que um El Niño intenso tende a favorecer condições de verão mais secas que a média na porção norte da Patagônia ocidental. É uma relação climática: não significa ausência de chuva e tampouco representa toda a Patagônia. Fonte: CR2, análise de maio de 2026.

Essa tendência não autoriza concluir que El Chaltén ou Torres del Paine terão uma sequência de dias estáveis. Menor precipitação acumulada numa região também não informa, por si só, a intensidade do vento ou a duração de uma janela de escalada em outra.

Como isso entra no planejamento?

O prognóstico de temporada ajuda a preparar o roteiro e a acompanhar tendências. Conforme a viagem se aproxima, ganham importância a previsão do tempo para a área, os avisos oficiais e as informações de quem está na montanha. A própria MeteoChile ressalta que uma influência climática sobre uma estação não garante o resultado de uma semana ou de um dia. Fonte: MeteoChile, setembro de 2026.

Vale reservar margem para mudanças e decisões de espera, sem tratar o calendário como garantia de condições. A passagem tem data marcada. A montanha, infelizmente, não recebeu o convite.

Como se preparar para essa temporada?

Com El Niño no cenário de 2026/27, vale dar ainda mais atenção à escolha de quem vai conduzir a expedição. Contratar uma empresa especializada, como a Soul Outdoor, permite contar com uma equipe para acompanhar as previsões meteorológicas, avaliar as condições da rota e ajustar o itinerário. Esse trabalho ajuda a aproveitar melhor as janelas favoráveis para tentar o cume e a reconhecer quando é hora de esperar ou descer. Não há garantia de topo, mas há decisões que podem ser mais bem fundamentadas.

A Soul Outdoor informa que seu programa do Aconcágua inclui um dia extra na montanha para dar flexibilidade ao roteiro diante das variações do tempo. Essa margem pode ser valiosa quando uma janela demora a aparecer. Em uma temporada sob influência de um fenômeno capaz de alterar os padrões climáticos, planejamento e acompanhamento profissional ganham importância — mesmo que ainda não seja possível dizer como será o tempo em cada expedição.

A mesma atenção vale para o equipamento. Peças confiáveis, adequadas à altitude e às condições previstas, em bom estado e testadas antes da viagem, podem influenciar tanto a possibilidade de continuar a ascensão quanto a capacidade de retornar em boas condições. A escolha de um anorak, por exemplo, precisa considerar sua função no sistema de vestuário e as exigências da expedição. A qualidade do conjunto vai além do conforto: faz parte da preparação para evitar exposição desnecessária ao frio, ao vento e à umidade.

Na dúvida, converse com os consultores da loja AltaMontanha. Informe a montanha, a época da viagem e a lista solicitada pelos guias, para receber orientação sobre os equipamentos mais adequados ao seu objetivo. Economizar à custa da segurança, aceitando material inadequado ou comprometendo a qualidade de itens essenciais, é um dos erros mais caros que se pode cometer na montanha. Equipamento bom não substitui aclimatação, preparo e a decisão de voltar, mas não deveria ser o elo fraco da expedição.

Os antecedentes do Aconcágua mostram que o planejamento precisa comportar períodos de espera e mudanças de rota ou de objetivo. Já a Patagônia e os vulcões de altitude exigem seus próprios recortes. Os Andes são grandes demais para caber numa previsão de uma frase.

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Sobre o autor

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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