Da K2, no Corcovado, à Italianos, no Pão de Açúcar, as montanhas cariocas oferecem história, desafios técnicos e uma perspectiva diferente dos cartões-postais.
O Rio de Janeiro tem uma peculiaridade para quem escala: algumas das paisagens mais famosas do Brasil também são paredes de escalada. Enquanto parte dos visitantes procura o melhor ângulo para fotografar o Pão de Açúcar ou o Corcovado, outros passam o dia procurando onde colocar a ponta da sapatilha.
Entre praias, prédios e florestas, a cidade reúne vias que marcaram gerações de montanhistas. Há percursos usados na formação de iniciantes, linhas técnicas que surpreendem escaladores experientes e chaminés que ajudam a entender como se escalava antes de os ginásios se espalharem pelo país.
Esta seleção reúne sete clássicas cariocas. Não é um ranking definitivo: em uma cidade com tanta história na rocha, sempre haverá alguém defendendo, com bons argumentos, a inclusão de mais uma.

K2: o Corcovado além do Cristo Redentor
A K2 mostra que o Corcovado oferece muito mais do que uma visita ao monumento. Com aproximadamente 150 metros de escalada, combina agarras, aderência, oposição e deslocamentos laterais. A variedade de movimentos é parte importante de sua fama: o escalador precisa interpretar a rocha, ajustar o corpo e usar bem os pés.
A paisagem acrescenta outra dimensão à experiência. A cidade permanece próxima, mas o ambiente da parede muda completamente a relação com aquele cartão-postal. A K2 integra o livro 50 Vias Clássicas no Brasil, de Cintia e Flavio Daflon.
Há, porém, um cuidado de planejamento: foram divulgadas obras nas estruturas de contenção próximas ao final da via. Antes de programar uma repetição, é necessário verificar com o Parque Nacional da Tijuca e a comunidade local a situação da saída e eventuais restrições. O aviso consultado não permite confirmar a condição atual do acesso.
Italianos com Secundo: uma combinação clássica no Pão de Açúcar
A Via dos Italianos é uma das escaladas mais conhecidas do Rio. Seus movimentos técnicos, as pequenas agarras e a continuidade das passagens exigem precisão. Quem chega acostumado a outro tipo de rocha pode descobrir que a graduação carioca tem personalidade própria.
É importante distinguir a Italianos da combinação normalmente usada para alcançar o cume: Italianos com Secundo. A primeira tem aproximadamente 100 metros; a junção oferece cerca de 260 a 270 metros de escalada, conforme o traçado considerado.
O interesse vai além da vista. É uma oportunidade de experimentar a escalada em várias enfiadas — trechos percorridos entre pontos de reunião da cordada — em uma das montanhas mais emblemáticas do país.

Coringa: o terceiro grau que merece respeito
Na face sul do Pão de Açúcar, a Coringa demonstra por que um número sozinho não descreve uma escalada.
O informativo do Centro Excursionista Rio de Janeiro apresenta a via com cerca de 100 metros e graduação geral de terceiro grau. Isso não impede que ela seja conhecida, em tom de brincadeira, como “o terceiro grau mais difícil do Brasil”.
Conquistada em 1981 por Denise Emmer, Giuseppe Pellegrini e Paulo Ferreira, a linha reúne passagens técnicas e agarras que podem parecer mais generosas vistas de baixo. Termina no Costão, permitindo combinar os percursos para continuar até o cume.
É uma clássica pelo conjunto: movimentos interessantes, paisagem e uma dificuldade que rende boas conversas depois da escalada.
Chaminé Stop: uma viagem pela história da escalada
Também no Pão de Açúcar, a Chaminé Stop oferece uma experiência diferente das paredes abertas de agarras e aderência.
Conquistada em 1944, ela exige familiaridade com a progressão em chaminés: espaços entre paredes nos quais o escalador utiliza diferentes partes do corpo para sustentar e movimentar-se. Passagens estreitas e travessias acrescentam exigência técnica e psicológica.
É uma escalada que ajuda a compreender a diversidade do esporte. Força nos dedos pode ser útil em muitas vias, mas não resolve sozinha uma passagem na qual o posicionamento do corpo é o principal recurso.
A Stop merece ser escolhida pelo interesse nesse estilo de escalada, com preparação específica para ele.
Paredão Vermelho: uma escola de escaladores na Urca
Nem toda clássica precisa ser uma escalada longa ou terminar em um cume famoso. Algumas conquistam seu lugar por participar da formação de muita gente.
É o caso do Paredão Vermelho, na face sul do Morro da Urca. Aberta em 1974, a via inaugurou o Paredão dos Coloridos, onde várias linhas receberam nomes de cores.
Normalmente percorrida em quatro enfiadas, combina escalada em agarras e passagens de aderência. O setor tornou-se um espaço importante de aprendizado para os escaladores cariocas.
É uma boa lembrança de que a história do montanhismo também se constrói nas primeiras reuniões, nos primeiros procedimentos de corda e naquele momento em que olhar para baixo ainda parece uma ideia pouco recomendável.
Passagem dos Olhos: outra perspectiva da Pedra da Gávea
A Pedra da Gávea é muito procurada por caminhantes, mas também abriga escaladas tradicionais. Entre elas está a Passagem dos Olhos, associada às formações conhecidas como Olhos do Imperador.
O percurso oferece uma experiência diferente da subida habitual da montanha. Seu interesse está na posição da linha na parede e no contato com aquelas formas que, vistas de longe, ajudam a desenhar a silhueta da Gávea.
Para quem deseja ampliar o repertório além das paredes da Urca, é uma das referências da cidade. A presença da via tanto no catálogo da federação estadual quanto nos registros do CERJ reforça seu lugar na tradição carioca.
Costão do Pão de Açúcar: o começo de muitas histórias
O Costão mistura caminhada, progressão sobre rocha e trechos de escalada. Por isso, não deve ser confundido com uma trilha convencional até o cume.
Com acompanhamento qualificado, pode proporcionar uma primeira experiência de escalada a pessoas sem prática anterior. Os trechos técnicos exigem equipamentos e procedimentos apropriados, além de disposição para a subida.
Sua importância está também em apresentar uma possibilidade que muitos visitantes nem imaginam: alcançar o alto do Pão de Açúcar pelos próprios meios. O bondinho pode continuar fazendo parte da experiência, mas a subida ganha outra história.

Uma cidade para voltar a escalar
A seleção poderia continuar pelas paredes do Cantagalo, entre Lagoa, Ipanema e Copacabana, ou pelas vias do Morro da Babilônia. O Cantagalo, por exemplo, reúne linhas de várias enfiadas e aproximação curta, integradas à paisagem urbana da Zona Sul.
Essa proximidade, entretanto, não elimina o compromisso da atividade. Escolher uma via exige avaliar dificuldade, exposição, condições da rocha, previsão do tempo e capacidade da cordada. Quem está começando deve procurar formação em clube ou escola de escalada e acompanhamento profissional qualificado.
Croquis atualizados e informações locais fazem parte do planejamento. Esta seleção apresenta as experiências; não substitui a descrição técnica de cada percurso.
O privilégio carioca é poder terminar uma escalada, guardar a corda e ainda encontrar a cidade acontecendo logo ali. Poucos lugares combinam de maneira tão marcante a vida urbana com a possibilidade de passar algumas horas pendurado em um cartão-postal.
Fontes consultadas
- Companhia da Escalada — Escaladas no Rio de Janeiro.
- Companhia da Escalada — Obras na via K2 no Corcovado.
- Companhia da Escalada — Via dos Italianos.
- Kmon Adventure — Italianos com Secundo.
- CERJ — Informativo Paredão Coringa.
- CERJ — Informativo Chaminé Stop.
- CERJ — Informativo Paredão Vermelho.
- CERJ — Informativos Vias Clássicas.
- FEEMERJ — Catálogo de Escaladas do Estado do Rio de Janeiro.
- Companhia da Escalada — Costão do Pão de Açúcar.
- Companhia da Escalada — Escaladas no Cantagalo.
- Prefeitura do Rio — Plano de Manejo do Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca.







