Batizada de Needle in My Sleep! (Uma agulha no meu sono), a via de grande parede tem 23 enfiadas e graduação proposta de 7c, A0-. Para concluir a conquista na Pedra Agulha, os escaladores britânicos Mike “Twid” Turner e Mark Thomas dedicaram 16 dias à abertura, à instalação das proteções e à limpeza da linha para a escalada em livre.
Uma parede ainda inexplorada, 650 metros de escalada e 16 dias de trabalho. Esses foram alguns dos desafios enfrentados pelos escaladores britânicos Mike “Twid” Turner e Mark Thomas durante a abertura da via Needle in My Sleep!, na face sul da Pedra Agulha, em Pancas, no Espírito Santo. Com 23 enfiadas, a linha recebeu dos conquistadores a graduação proposta de 7c, A0- e representa uma nova possibilidade para a escalada em rocha na região.

A Pedra Agulha destacando-se no horizonte. Foto: Mike Twid Turner
Nascido na Inglaterra, Mike “Twid” Turner possui um extenso currículo na escalada, com inúmeras ascensões no País de Gales, escaladas de grande exposição, indicação ao Piolet d’Or, experiência em cascatas de gelo e a abertura de mais de 50 vias nos Alpes, na Patagônia e no Alasca. Apesar de sua experiência internacional, a beleza da Pedra Agulha foi um dos fatores que despertaram seu interesse pela formação rochosa brasileira.
Já Mark Thomas cresceu em Cardigan, uma pequena cidade do País de Gales, onde aprendeu a escalar. Desde então, construiu uma trajetória que o levou a diferentes regiões do mundo, com escaladas no Reino Unido, nos Alpes e em outros destinos internacionais. Além de compartilhar a paixão pela escalada em grandes paredes, Thomas é amigo de longa data de Mike e voltou a formar dupla com ele para esse projeto no Brasil.
Da descoberta à conquista da Pedra Agulha
A ideia de abrir uma nova via na Pedra Agulha surgiu depois que Mike realizou a primeira ascensão de Runnel Vision, na Pedra Baiana. Na sequência, em busca de outra parede para escalar, ele encontrou imagens da formação rochosa de Pancas e decidiu pesquisar suas possibilidades de escalada.
“Encontrei algumas imagens da Pedra Agulha e pensei: que torre incrível! Fiz algumas pesquisas e descobri que a face sul ainda não havia sido escalada. Era o lugar ideal, já que se tratava de uma face bastante sombreada”, contou Mike.

A Pedra da Agulha é um dos ícones da paisagem de Pancas. A Pedra Agulha destacando-se no horizonte. Foto: Pancas.Drone
A primeira tentativa de conquistar a parede aconteceu em 2023, quando o escalador esteve em Pancas com um grupo de amigos. Naquela ocasião, a equipe passou dez dias trabalhando na linha. No entanto, apesar do esforço, o tempo disponível e o desgaste físico impediram que o projeto fosse concluído.
Posteriormente, Mike tentou retornar ao Brasil em duas ocasiões, em 2024 e 2025. Entretanto, o surto de dengue no país e a preocupação com a falta de vacinação fizeram com que os planos fossem adiados.
Finalmente, em outubro de 2026, o escalador voltou a Pancas para dar continuidade à conquista. Dessa vez, além de considerar que a situação parecia mais favorável, a equipe escolheu um período com menor presença de mosquitos.
Para a nova tentativa, Mike contou com a parceria de Mark Thomas. Os dois já haviam compartilhado experiências em grandes paredes em Baffin, no Alasca, e em Taghia, no Marrocos. Assim, reunindo a experiência acumulada em outras escaladas, eles retomaram o projeto na Pedra Agulha.
Ao todo, foram necessários 16 dias para concluir a via, instalar as proteções e limpar a linha, deixando-a preparada para a escalada em livre.
Desafios técnicos e calor intenso durante a abertura
Apesar da experiência da dupla em grandes paredes, a conquista da Needle in My Sleep! apresentou desafios particulares. Além das dificuldades técnicas da face sul da Pedra Agulha, os escaladores precisaram lidar com temperaturas entre 35 °C e 38 °C, acompanhadas de elevada umidade.
Segundo Mike, o calor e a umidade foram especialmente difíceis durante a aproximação. Os britânicos precisaram varar a mata fechada para alcançar a base da parede. Já na parede, as condições foram relativamente melhores, embora alguns dias tenham sido mais exigentes. Ainda assim, as altas temperaturas diminuíram o ritmo da equipe, principalmente durante as subidas pelas cordas fixas para alcançar as enfiadas superiores.
“Levávamos três horas para subir pelas cordas fixas até alcançar as enfiadas superiores. Fizemos isso seis vezes. Foi um trabalho duro!”, relatou.
Uma via como legado para outros escaladores
Mesmo diante do desgaste, a dupla manteve o objetivo de concluir a conquista com um padrão de equipamento que permitisse a repetição da via por outros escaladores. Por isso, além de superar os trechos mais difíceis, os conquistadores dedicaram tempo à instalação das proteções e à limpeza da linha.

Buscando uma linha para a ascessão. Foto: Mike Twid Turner
Do ponto de vista técnico, um dos principais desafios foi encontrar pontos adequados para a progressão em uma parede com poucas fendas. Consequentemente, Mike e Mark precisaram combinar escalada em livre e escalada artificial para instalar os grampos ao longo do percurso.
“Como não tínhamos muitas fendas para seguir, usamos grampos. Queríamos criar uma via esportiva de grande parede (Big Wall) de qualidade, equipada com grampos de aço inoxidável, que tenham longa durabilidade e não sofram corrosão, para que outras pessoas também possam aproveitar a escalada”, explicou Mike.
Dessa forma, a proposta não se limitou a alcançar o cume da Pedra Agulha. A dupla também buscou deixar uma via equipada para que outros escaladores possam conhecer a parede e repetir a experiência.
Via de 650 metros amplia as possibilidades de escalada em Pancas
Concluída após 16 dias de trabalho, Needle in My Sleep! tem 650 metros de extensão, distribuídos em 23 enfiadas, e graduação proposta de 7c, A0-. De acordo com Mike, as dificuldades das enfiadas variam aproximadamente entre 6c e 7c+, com predominância do sétimo grau.

A dupla conseguiu livrar vários trechos da via. A Pedra Agulha destacando-se no horizonte. Foto: Mike Twid Turner
Além dos desafios técnicos, a paisagem foi outro aspecto marcante da experiência. A formação rochosa isolada e as vistas panorâmicas do cume tornaram a conclusão do projeto especialmente significativa para os escaladores.
“É um cume muito especial. Oferece vistas espetaculares de 360 graus e é um lugar ideal para contemplar a paisagem deslumbrante”, afirmou Mike.

A dupla no cume após a conquista. A Pedra Agulha destacando-se no horizonte. Foto: Mike Twid Turner

Visual no topo da Pedra Agulha. A Pedra Agulha destacando-se no horizonte. Foto: Mike Twid Turner
Para o escalador, encontrar uma torre rochosa tão singular, isolada e sem uma via de escalada equipada no estilo moderno foi uma experiência incomum. Por isso, a abertura da Needle in My Sleep! também representa uma oportunidade de aproximar outros praticantes da escalada em rocha em Pancas.
Por fim, Mike espera que a nova via desperte o interesse de escaladores de diferentes partes do mundo, tanto pela qualidade da escalada quanto pela beleza natural e pela cultura local.
“Esperamos inspirar outras pessoas a conhecer e aproveitar a maravilhosa escalada e a cultura do Brasil”, concluiu.







