Lavras x Carrancas: A travessia Z

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Distante quase 400km de São Paulo, Lavras é um município brasileiro da região do Campo das Vertentes, sul de MG. Seu nome remonta as grandes quantidades de ouro e pedras preciosas encontradas no século 18, que impulsionaram não apenas a economia como o desenvolvimento da região. Mas não apenas isso, pois Lavras também é ponto de partida de uma longa caminhada que percorre a cumieira de campos de altitude sul mineiros e finda na badalada Carrancas. É a “Travessia Z”, cujo trajeto tem o formato da última letra do alfabeto, contabiliza quase 70kms e demanda 4 dias bem andados. Pernada de fácil navegação que não apenas se vale da emenda de cristas sucessivas, trilhos de vaca e um pequeno trecho da Estrada Real; é uma travessia que abraça boa parte dos atrativos naturebas da região, como cânions, cachus, picos pitorescos e o imperdível cenário alienígena de Sete Pedras.

Logo após a virada do século uma matéria da extinta revista “Adventure Nez” despertara minha atenção pruma região do sul de MG que desconhecia totalmente. Versava da beleza das serras existentes entre Itutinga e Carrancas, que logo me motivou a estudar a carta local afim de empreender a travessia do mesmo nome, que foi posteriormente realizada com sucesso. Chinelada esta que depois repeti outras três ocasiões, sendo que na última estiquei até Minduri, aproveitando a dica das Chapadas das Perdizes, do Sergio Beck. Ao mesmo Sergio indaguei das possibilidades na direção contrária, isto é, sentido Itumirim. Mas ele foi direto: “Serras chatas, enfadonhas e sem atrativos!”, o que me desanimou em meter as caras naquela região por tempo indeterminado.

Muito tempo então passou e por coincidências de internet tropecei com o autor da matéria do inicio do parágrafo anterior, o Paulo Gaia, aventureiro de Itutinga com quem troquei muita informação, reascendendo meu interesse pelo quadrante noroeste de Carrancas. O melhor de tudo era que ele afirmava que a região era repleta de atrativos, totalmente desconhecidos pro pessoal de fora. Comentou, inclusive, da possibilidade duma longa travessia pela cumieira da serra partindo de Lavras e findando em Carrancas, em formato de “Z”. Pronto, isso bastou pra mim. Infelizmente nossas agendas não coincidiram pra pernada derradeira, que programei prum feriadão de meados de ano, mas ele me deu grande apoio: “Cara, eu não posso ir junto! Mas vai lá e depois me diz como foi!”. No entanto, a Lau, minha grande companheira e parceira de roubadas topou a empreitada. Mas isso só foi possível porque abreviei consideravelmente a quilometragem diária e os perrengues estimados pra ela. E lá fomos nós.

Saindo de Lavras

Dessa forma eu e minha parceira saltamos em Lavras por volta das 4hr da madrugada após tranquila viagem no latão da Gardênia. A escuridão reinava plena naquela madrugada estupidamente fria e não nos restou opção senão ficar ali, aninhados no banco da pequena rodoviária á espera do raiar daquele dia. Bem que tentamos dormir mas não teve jeito, pois o incômodo dos bancos de plástico e a baixa temperatura não deixaram. Antes estivéssemos encasulados em nossos sacos de dormir e dentro da barraca que trazíamos em nossas cargueiras… E tome uma espera que pareceu não ter fim. Altitude local? Míseros 800m acima do nível do mar.

Mas bastou o Astro-Rei levantar-se que praticamente o movimento na pacata cidade começou. As 7hr então zarpamos da rodoviária e tomamos a Rua Alfredo Marani, tocando na direção sul, mas não sem antes passar numa padoca e tomar um delicioso desjejum regado a pingado e pão-de-queijo. Dali já se avistava a escarpa da serra que deveríamos alcançar, iluminada pelos tons dourados daquele inicio de manhã bastante promissora. Cruzamos o asfalto da BR-265 onde tomamos a poeirenta Estrada da Serrinha, sempre pro sul, passando por loteamentos, fazendas de café e pela sede da Cachaça Bocaina, fábrica de birita que inclusive toma emprestado nome da serra que era nosso destino.

Serra da Bocaina e Alagoas

Por volta das 10:30hr e depois de engolir muita poeira, finalmente pisamos no pé da Serra da Bocaina, que leva este nome pela enorme fenda que a separa da Serra de Alagoa, enorme morrote a sudoeste. Segue-se então uma subida de suave declividade por uma precária via que se alterna entre asfalto, pedras e paralelepípedos, ao mesmo tempo que adentra no enorme vão da serra indo de encontro ao selado da mesma. A farta vegetação pulsa de ambos lados, e o som reinante da nossa lenta ascensão é o marulhar dum pequeno afluente do Córrego do Óleo, que corre a nossa esquerda.

Pela crista da Serra da Bocaina

Cumieira da Serra do Carrapato

Devagar e sempre, as 11:15hr pisamos  nos quase 1290m do alto da Serra da Bocaina. O sol brilhava forte mas uma suave brisa refrescava nossos rostos suados. O topo daquela cumieira é tomado por três antenas de telefonia que se espalham ao largo da serra. Na última delas fizemos um breve descanso antes de prosseguir ao mesmo tempo em que pudemos apreciar a bela panorâmica que se descortina em volta. O cocoruto ocre e isolado, a oeste, da Serra de Alagoa contrasta com os tons dourados de pasto que brilham na continuidade da cumieira á leste, numa paisagem que imediatamente emulou os Campos do Quiriri (PR). Enquanto isso, a geometria de Lavras destacava-se da horizontalidade predominante de todo aquele quadrante, ao norte.

Prosseguimos então nossa jornada pelo restante da cumieira da Serra da Bocaina com pouca variação de altitude, cruzando a bela campina que dança ao vento daquele comecinho de tarde. Mas eis que na beirada da serra o caminho então desce forte ao fundo de vale que nos separa da Serra do Carrapato, cruzando um pastado tomado do por um decrépito coxo e um pequeno capão de mata por onde corre o Ribeirão das Cruzes, onde fizemos mais um breve pit-stop pra encher nossos cantis e mastigar alguma coisa. Foi ali que a Lau começou a se queixar de dores no pé, incômodo que a acompanhou por toda travessia. Horário? Pouco depois das 13hrs.

Cruzando capão de mata

Do vale a vereda ganha a encosta seguinte em largos ziguezagues até chegar nos 1252m da Serra do Carrapato, onde a direção muda levemente pra sudeste. Ali já posso avaliar a rota assim como já antever a Serra do Campestre espichando-se a leste, lugar que será palmilhado no dia seguinte. A caminhada segue morosa pela abaulada crista e a Lau logo fica pra trás, extremamente cansada pela sucessão de subidas e descidas por um trilho escorregadio e repleto de pedregulhos. Por sorte o caminho não tarda a perder altitude em definitivo, descendo forte em direção á estrada que interliga Lavras a Luminárias.

Antes de atingir o asfalto, porém, encontro uma clareira decente pra pernoitar em meio a mata e encerro a chinelada por volta das 16hrs. Estávamos ambos exaustos pela noite anterior mal-dormida, os quase 15kms percorridos e realmente precisávamos encostar o corpo nalgum lugar. Montamos acampamento e imediatamente pusemos o fogareiro pra ronronar antes mesmo de escurecer. O macarrão com legumes e calabresa que dali brotou nunca esteve tão delicioso, o que nos fez dormir por toda aquela noite fria sem nenhuma intercedência. De madrugada, uma inoportuna coceira no tornozelo serviu apenas pra constatar que aquela serra fazia jus ao nome. Sim, carrapatos. E tornei a dormir!!

Na manhã seguinte levantamos bem mais dispostos, revigorados por agradável noite de sono. O dia começava envolto em certa nebulosidade que foi se dissipando conforme o sol se elevava no horizonte, iluminando o firmamento de forma ímpar ao mesmo tempo que prometia um dia estupidamente limpo, com bom tempo. Tomamos um delicioso desjejum e arrumamos as tralhas do acampamento logo a seguir, de modo a otimizar a chinelada prevista praquele dia.

Começamos a pernada por volta das 8hrs, cruzamos a estrada, desviamos um capão de mata e  retomamos a suave ascensão ao alto da crista da Serra do Campestre em meio a uma simpática campina que dançava ao vento daquele início de manhã. Um inconfundível carreiro passeava pela abaulada cumieira com pouca variação de altitude, quando no alto dos 1195m dum dos cocorutos pude avistar toda extensão daquele serrote, que em tese deveria ser vencido até o final do dia.

Alto da Serra do Campestre

Desescalaminhada básica

E assim prosseguiu nossa camelagem de forma tranquila, porém compassada, pelo alto da serra quando não tardou a surgir a vegetação típica de cerrado, em meio aos tradicionais campos rupestres. Arbustos retorcidos e rochedos aflorando do chão sempre apontando pro norte geográfico se tornam cada vez mais comuns, embelezando a paisagem ao redor. O sol forte começa a martelar forte na cabeça mas felizmente o frescor da sombra proporcionado por um capão de mata que é atravessado num selado de interligação de crista. Aliás, são poucos estes selados florestados no caminho, mas neles existem bifurcações nas quais é preciso avaliar o mapa e conferir a rota com a bússola, que deve sempre apontar nossa rota na direção leste.

Entre altos e baixos pudemos avançar satisfatoriamente, a despeito da morosidade da Lau nas subidas de encosta mais íngremes e expostas. No entanto, sempre dávamos algumas breves descansadas a sombra nas áreas florestadas, geralmente nos selados, onde sempre havia algum pequeno córrego pra abastecer nossos cantis em meio a chaparrais de samambaias. A altitude pela crista se manteve numa média dos 1150m até quase meio-dia, quando a vereda desembocou num estradão de chão maior que prosseguiu na direção desejada, acompanhando altos paredões de quartzito de onde podia se avistar Itumirim, pequenina ao norte.

Rio Capivari

Pois bem, o caminho começou a descer até dar num loteamento deserto, que depois soube ser uma obra embargada, onde tivemos que desescalaminhar os finalmentes da Serra do Campestre afim de buscar um lugar pra atravessar o Rio Capivari e dali retomar a serra seguinte. Após um trecho de encosta pirambeira bem exaustivo chegamos as margens do Rio Capivari as 14hr, e enquanto a Lau descansava fui bisbilhotar a margem atrás dum trecho seguro de travessia. Procurei, procurei e nada. O rio era largo e fundo demais pra atravessar na raça, sem sinal algum de pontilhão próximo.  Pra piorar, a margem era composta de vegetação agreste e fechada pra seguir o rio.

Dali simplesmente não vi opção senão retroceder ao loteamento abandonado e tomar um estradão que ia pro sul. Mas antes disso descansamos um bocado e beliscamos nosso lanche, afinal haveria de subir toda piramba anterior. Paciência. Retomamos então a chinelada pela via supracitada e assim fomos perdendo altitude na direção sudeste, novamente tocando pro vale do Rio Ingaí (afluente do Capivari), porém por outro lado. Caminhada esta tão tediosa quanto demorada que não fosse uma valiosa boa alma nos teria consumido todo restante do dia.

Cachu Paraíso

Por sorte passou um tiozinho motorizado, Seu Severo, que ia pro mesmo lugar e nos deu uma valiosa carona que nos poupou um chão considerável. Prestativo, ele tava roçando uma trilha pra romeiros que iam de Lavras até Aparecida, e nos deu valiosas informações do caminho que teríamos pela frente, além de nos deixar numa linda queda d’água, onde decidimos encerrar a pernada daquele dia. Horário? Coisa das 17hr.

Nos despedimos do simpático senhor e montamos acampamento as margens da Cachoeira Paraíso, que faz todo jus ao nome. Ali, através de enormes lajotas de quartzito, um afluente do Rio Ingaí despejava suas águas cristalinas numa sucessão de quedas até serem represadas num piscinão de tom azulado incrível. Felizmente conseguimos nos brindar com um refrescante banho naquelas águas frias antes da escuridão se debruçasse sobre o vale. A janta quente saiu logo depois, ao mesmo tempo em que a noite e a temperatura despencaram abruptamente. Sim, aquele foi o pernoite mais frio da travessia, com direito a geada até. Mas como estávamos exaustos pelos quase 15 kms percorridos, o friozinho até temperou mais nosso merecido descanso, que ignorou os zilhões de estrelas que pincelaram o manto negro da noite. Também pudera, embalado no som hipnótico da cachu bem ao nosso lado, eventualmente rompido pela passagem de um trem longe dali, o sono ali estava mais que garantido.

O dia seguinte começou envolto num espesso nevoeiro, tanto que bastou abrir a entrada da barraca pra constatar uma fina camada de gelo cobrindo o gramado a nossa volta. Tomamos um delicioso leite quente, mastigamos suculentos sanduíches e logo foi vez das nossas mochilas engolir todo equipamento de camping, permitindo que mantivéssemos nossa habitual marca de saída por volta das 8hr da matina.

Cânion Pirambeira

Nossa chinelada seguiu as recomendações do tiozinho, isto é, sentido leste e acompanhando precário estradão. Num piscar de olhos cruzamos o respeitável Rio Ingaí por uma ponte de concreto que permitiu vislumbrar perfeitamente o “Cânion da Pirambeira”, um majestoso desfiladeiro onde os altos paredões de granito pareciam emparedar as águas aparentemente mansas do Rio Ingaí. As brumas presentes daquele horário apenas tornavam a paisagem daquela garganta de pedra sinistramente belas. Ou quem diria, mágicas.

Depois da ponte nos mantivemos pelo estradão de terra que ao menos desviava do enorme foco de mata que nos impedia de aceder ao comecinho da Serra da Estância, elevação que nos tomaria grande parte daquele dia. A via rumou um pouco na direção sul, mas virou no sentido leste, cruzando a via férrea da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, que interliga Lavras a Carrancas, as vezes se estendendo além daquele perímetro.

Campos rupestres da Serra da Estância

A pernada então prosseguiu pela via de chão, mas não por muito tempo pois foi ali que reparei o nosso acesso ao alto da serra, as 9hrs. Uma evidente vereda nascia da margem esquerda da estrada e se pirulitava mata adentro, ganhando lentamente a íngreme encosta da serra. Ao emergir, logo acima, em campos mais abertos na cota dos 1400m, qual nossa surpresa da abundante névoa anterior a muito ter desaparecido conforme o Sol aquecia aquele quadrante da serra.

Uma vez no alto da serra foi só se manter na vereda, com pasto e arbustos caindo de ambos lados, e tocar indefinidamente pela cumieira, sentido leste. E assim o alto da Serra da Estância foi palmilhado no mesmo esquema anterior, ou seja, alternando suaves subidas e descidas com pequenos focos de mata no caminho. Campos rupestres se sucediam frequentemente, assim como lindas pastagens e vegetação típica do Espinhaço, como as inconfundíveis canelas-de-ema, candeias e quaresmeiras. Outra gramínea bem comum nestes campos de altitude é um capim dourado chamado de “espeta-cu”.

Morro da Baleia

Nosso avanço prosseguiu sem intercedências pelo alto da serra, quando as 11hrs avistamos uma formação tão curiosa quanto pitoresca, elevando-se a sudeste. Ela atende pelo nome de Morro da Baleia (ou Janela) por se assemelhar a uma Moby Dick “nadando” nas campinas pra quem observa de longe. É formada pelo maciço principal, mais elevado e que corresponde á cabeca, e outro menor que seria a cauda. Após passar pela pitoresca “cachalote de pedra” foi que a vereda começou a perder altitude indo de encontro ao vale seguinte, que nos separava da Serra do Pombeiro.

No vale, ao meio-dia, tomado basicamente por reflorestamentos de eucaliptos, ficamos em dúvida que rumo tomar. Como já conhecíamos a Serra do Pombeiro da nossa incursão anterior na “Itutinga-Carrancas”, decidimos apenas percorrer um breve trecho inicial dela até a Cachu das Aranhas, e depois retomar os caminhos que nos levassem na direção sudeste.

Topo de mais uma cachu

Dito e feito, cruzamos mais e mais reflorestamentos que pareciam não ter fim.  Mas foi aí que esqueci de atentar ao cansaço da Lau e resolvi fazer uma breve parada a margem da via de chão. E enquanto a Lau descansava e tratava das bolhas nos pés eu prossegui atrás daquela cachoeira, que ficava num setor mais elevado da serra. Andei, andei e andei e cheguei na bichinha as 13hr em ponto. Uma bela queda com poço, cercada de grotões e lajedos, que brilhavam a luz daquele inicio de tarde. Mas fiquei ali o suficiente pra registrar minha presença, beber bons goles de água e retornar até onde a Lau renovava suas energias.

Pois bem, cheguei até onde a Lau estava e prosseguimos nossa chinelada, retornando pelos reflorestamentos. Mas quando vi que dava pra atravessá-los afim de cortar caminho não pensei duas vezes. Lá fomos nós numa linha perpendicular ao trajeto original, que nos fez ganhar um tempo (e perda de altitude mínima) considerável. Pisamos novamente noutra poeirenta estrada de chão, onde trocamos rapidamente informação com Seu Mauro e seu filho, que nos informou que estávamos na Faz. Faria e que estávamos no caminho certo pra Serra do Galinheiro. “É só seguir reto até lá…mas tem um bom chão pela frente!”, completou.

E tome chão nisso aí. Caminhamos um tanto no calor da tarde com sol fritando miolos, quando a Lau começou a se queixar dos pés, da unha e de toda sorte de bolha incomodando seu avanço. E eu torcendo pra gente chegar o mais próximo da serra pra armar acampamento. Foi aí que cruzamos dois pontilhões, provavelmente sobre os Córregos do Faria e do Peixe, quando chegamos nas proximidades da Faz. Jacarandá, marcada por uma bela igrejinha coroando uma baixa colina, na cota dos 900m

Logo adiante fomos deixando a estrada de modo a permanecer próximos do sopé da Serra do Galinheiro, cada vez mais próxima. Cruzamos alguns currais, chapinhamos um afluente do Córrego do Maroto, o Andorinha, e fincamos final de expediente numa estreita clareira protegida num espesso capão-de-mata, a exatas 16:30hr. Ufa! Aquele dia haviam sido mais de 17km bem andados. Com o dia findando rapidamente montamos acampamento, preparamos nossa janta e nos enfiamos nos sacos-de-dormir antes mesmo da noite cair naquele cafundó situado entre Itutinga e Carrancas. Pela madrugada saí pra “regar a moita” e pude vislumbrar um céu coalhado de estrelas, além das luzes cintilantes a noroeste, que pressumi serem do vilarejo rural de Ingaí.

No último dia de pernada levantamos mais cedo afim de render  o máximo que desse, uma vez que teriamos que vencer os mais de 15km de extensão da Serra de Carrancas até o final do dia.   Por conta disso cuidamos bem do estrago que cada um tinha, a Lau de suas trocentas bolhas e eu as feridas promovidas por reação alergica aos carrapatos. Lanchamos e arrumamos as tralhas dentro do programado, permitindo que partissemos pontualmente as 7:40hrs.

Partimos então em direção ao sopé da Serra do Galinheiro cruzando um amplo campo forrado de pequenos arbustos e pasto, pra logo em seguida galgar sua encosta levemente inclinada desviando de alguns capões de mata mais espessa. Mas uma vez no alto da serra a pernada suavizou e se manteve mais amistosa, mas só após vencer os 1100m do grande cocoruto de rocha que serve de boas-vindas ao Galinheiro.

Cume da Serra do Galinheiro

Dali em diante bastou se manter pela cumieira na direção sudoeste, alternando pasto e campos rupestres. Os únicos obstáculos aqui se limitam a uma série de muretas de pedra que surgem no caminho, muros estes construídos por escravos no final do séc. XVII com a finalidade de demarcacão de terras. A paisagem é soberba e contempla todo entorno da região, de onde se destaca a majestuosa muralha da Serra de Carrancas, preenchendo boa parte de quadrante sul.

Dali a chinelada ganha altitude de forma imperceptivel até atingir os vastos campos de pasto varrido pelo vento, na cota dos 1200m.  Daqui temos breve desvio em direção a encosta oeste da serra, onde encontro uma picada que desce na diagonal e num piscar de olhos desemboca num dos locais mais espetaculares de toda pernada. Horário? Por volta das 9:45hr, e o sol brilhava forte no firmamento, aquecendo lentamente aquele dia que começara frio.

Sete Pedras é tido como o lugar mais misterioso da região, uma vez que seu conjunto de majestuosas rochas de arenito – meticulosamente esculpidas pelo vento e chuva – se assemelham as ruínas de uma antiga cidade perdida, feito Machu Picchu, da qual só restaram as colunas. Basta chegar lá e deixar a imaginação adivinhar quais correspondem ao Portal, as Pedras do Guardião, do Altar e do Elmo. A Pedra do Astronauta imediatamente identifiquei por ser aquela bem na encosta da serra, como se estivesse á espreita do vale logo abaixo. Por conta de tudo isso este belo e pouco conhecido monumento natural é envolto num clima de magia e misticismo e, obviamente, repleto de lendas. Algumas afirmam que o lugar já foi forrado de cristais, que o platô é lugar de pouso de discos voadores e onde são costumeiramente vistas luzes sobrevoando a montanha a noite.  Verdade ou não, o fato é que toda essa fama local carimbou o lugar pra realização de reuniões de grupos esotéricos. Logicamente que eu e a Lau ficamos um bom tempo ali, curtindo as energias de Sete Pedras, além de um bom descanso e bons goles de água antes de prosseguir pernada.

Sete Pedras

Formacões rochosas pitorescas

Pedra do Astronauta

Descansados, retomamos a chinelada ao alto da Serra do Galinheiro, mas logo depois começamos a descer por um trilho óbvio em direção ao Beco. Este é um fundo de vale cercado de paredões que divide as Serras do Galinheiro com a de Carrancas, onde dizem as lendas os índios emboscavam invasores portugueses. Uma vez nos 1000m deste fundo de vale bastou bordejar o capão de mata e encontrar o precioso líquido correndo em meio ao mato, pouco depois das 11hrs, onde pudemos encher os cantis.

Dali retomamos a suave ascensão ao alto da Serra de Carrancas serpenteando arbustos e rochas, até ganhar outra vez os campos de pasto 200m acima do Beco. Dali a pernada é intuitiva, sempre sentido leste, alternando pasto, campo rupestre e eventuais focos de vegetação. Aqui é necessário desviar pela esquerda dos 1300m do imponente Morro do Cupim, que se ergue majestosamente de toda cumieira desta serra.

Rumo o Morro do Cupim

Assim fomos bordejando a serra tocando pra leste, apreciando a bela paisagem de todo quadrante norte, agora avistando toda extensão da Serra do Galinheiro de outra perspectiva. Dali foi preciso escalaminhar os campos rupestres pra dar continuidade á chinelada até que enfim pisamos no precário estradão de chão que corta toda cumieira, no calor das 13:30hr. E tome chão interminável pelos 15kms que se sucederam pela abaulada crista, pernada que se tornou exaustiva e demandou muitas paradas não apenas pela distância vencida e sim pelo calor causticante daquela tarde e ausência total de água e sombra!

Pelo alto da Serra de Carrancas

Mas devagar e sempre chegamos no campo de pouso na beirada da serra e, logo depois, a margem do asfalto que interliga Itutinga a Carrancas, as 16:30hr. Mas só conseguimos carona meia hora depois, até finalmente pisar em Carrancas, cidade contemplada pela Estrada Real e muito turismo. Com o sol já caindo no horizonte, conseguimos lugar na Pousada Senna, onde pudemos tomar um delicioso banho que levou ralo abaixo todo cansaço e nhaca imaginável.

Desnecessário dizer que depois prestigiamos a deliciosa comida mineira num restaurante próximo, onde comemos além da conta porque na manhã seguinte teríamos que levantar cedo abrindo mão do suculento café-da-manhã da pousada, pra embarcar em direção a Lavras e, na sequência, Sampa. Sim, voltávamos cansados pra casa. Com bolhas nos pés, trocentas marcas de carrapatos pelo corpo e com corpo moído. Mas incrivelmente contentes e satisfeitos por levar a cabo nosso propósito em conhecer este rincão menos conhecido destas serras sul mineiras que tem muito a oferecer.

marco da Estrada Real em Carrancas

Finalizando, a Travessia Lavras-Carrancas (ou “Travessia Z”, como preferir) é apenas uma extensão mais puxada da tradicional Itutinga-Carrancas. Mas uma coisa é certa: é muito mais cênica e interessante que a enfadonha Chapada das Perdizes, que emenda até Minduri. Isso porque a totalidade de atrativos entre Lavras e Carrancas sequer foram arranhados por questões de tempo e logística. Por exemplo, de Itumirim é possível unir o simpático ferrotrekking até Carrancas, via Cânion Pirambeira e Cachu do Funil. Ou até esticar de Sete Pedras até o Cânion Sumidouro, a sudoeste,  entre muitas outras possibilidades. Mas pode anexar aí facilmente um ou mais dias pois as distâncias são longas e os trajetos, bem acidentados. Independente de qualquer consideração extra, a “Travessia Z” certamente se firma como mais uma caminhada de longa distância merecedora de reconhecimento. Ou melhor não, pois somente assim as belezas do seu singular trajeto se manterão preservadas por muito mais tempo.

Saldo final: picadas de carrapatos e bolhas nos pés!

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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