Imagens feitas no fim de setembro mostram o famoso pico suíço com grandes áreas de rocha exposta. O fenômeno está relacionado ao inverno com pouca neve e às ondas de calor que marcaram os meses seguintes.
Parece uma imagem gerada por IA, mas o Matterhorn realmente está quase sem neve. As imagens que circulam nas redes sociais chamam atenção justamente porque parecem difíceis de acreditar. O Matterhorn, uma das montanhas mais conhecidas dos Alpes, apareceu no fim de setembro de 2026 com grandes áreas de rocha exposta e muito menos neve do que em fotografias feitas no mesmo período do ano anterior.

Matterhorn chega ao fim de setembro quase sem neve. Foto: GC imagen
Os registros de webcams localizadas em Hirli na região de Zermatt mostram o Matterhorn em 29 de setembro de 2026 muito mais descoberto do que na mesma data de 2025. O aspecto incomum da montanha, portanto, não é resultado de uma ferramenta de IA, mas de uma temporada marcada por pouca neve, temperaturas elevadas e condições excepcionalmente secas.
Um inverno com pouca neve
Para entender por que o Matterhorn chegou ao fim de setembro com essa aparência, é preciso voltar alguns meses.
O inverno de 2025/2026 esteve entre os dez menos nevados da Suíça desde o início das medições, segundo dados do Swiss Glacier Monitoring Network (GLAMOS), da Comissão Suíça de Observação da Criosfera e do Instituto de Pesquisa de Neve e Avalanches (SLF). A principal causa foi a baixa quantidade de precipitação.
Isso significa que as montanhas começaram a primavera de 2026 com uma reserva de neve menor do que a habitual. Depois, a situação se agravou durante os meses seguintes.
Entre maio e setembro, todos os meses tiveram períodos de condições secas e pelo menos uma onda de calor. Nesse intervalo, a linha de congelamento permaneceu acima dos 4.000 metros durante 76 dias, mais que o dobro da média e um recorde para a Suíça.
A altitude é especialmente relevante no caso do Matterhorn, cujo cume chega a 4.478 metros.
Pouca neve nova e derretimento rápido
O problema não foi apenas o derretimento da neve que já estava na montanha. Com temperaturas elevadas e pouca precipitação, também houve pouca reposição de neve nas grandes altitudes.
Em setembro, a cobertura de neve já havia desaparecido até mesmo em áreas situadas a cerca de 3.500 metros em alguns pontos dos Alpes suíços. No caso do Matterhorn, a situação foi particularmente visível por causa de sua forma extremamente íngreme e rochosa.
A SRF explica que setembro normalmente já é o mês em que há menos neve nas montanhas. A diferença em 2026 foi a dimensão do fenômeno. Em 2025, por exemplo, uma entrada de ar frio havia levado neve fresca ao Matterhorn justamente no fim de setembro. Um ano depois, essa reposição não aconteceu.

Matterhorn em 29 de setembro de 2025.

A mesma montanha em 29 de setembro de 2026
Por isso, a comparação entre as duas imagens é tão impressionante: a montanha é a mesma, a época do ano é praticamente a mesma, mas as condições meteorológicas foram muito diferentes.
O Matterhorn não é um caso isolado
Embora as imagens do Matterhorn tenham se tornado um símbolo visual do fenômeno, o que aconteceu com a montanha faz parte de uma situação muito mais ampla nos Alpes suíços.
Os dados divulgados pelo SLF em 1º de outubro mostram que os glaciares suíços perderam mais de 5% de seu volume de gelo em 2026. A espessura média dos glaciares diminuiu entre 2,5 e 4 metros, enquanto algumas línguas glaciais perderam até 10 metros durante o verão.
Nos últimos cinco anos, a perda acumulada chegou a quase 20% do volume de gelo dos glaciares suíços. Alguns pequenos glaciares desapareceram completamente durante o período.
O resultado também foi influenciado pela ausência da camada protetora de neve. Sem neve, o gelo fica diretamente exposto à radiação solar, favorecendo a perda de massa.
O calor também muda as condições para o montanhismo
No Matterhorn, entretanto, o problema vai além da aparência da montanha. O calor intenso e a ausência de neve também contribuíram para condições mais instáveis nas áreas de alta montanha durante o verão de 2026. Em julho, guias de Zermatt chegaram a interromper temporariamente ascensões guiadas por causa do risco de queda de pedras. Em agosto, um grande desabamento de rocha ocorreu no lado sul da montanha, a cerca de 3.900 metros de altitude.
A relação está no permafrost, camada de solo ou rocha que permanece congelada durante longos períodos. Quando o gelo presente nas fraturas da rocha descongela, a estabilidade de algumas estruturas pode diminuir, favorecendo movimentos e quedas de blocos.
Assim, a montanha mais “nua” não representa apenas uma mudança visual. Menos neve significa também que as condições do terreno podem mudar e, para quem escala, isso pode significar uma montanha diferente daquela encontrada em temporadas anteriores.
O Matterhorn voltará a ficar branco?
Provavelmente, sim. Ao menos temporariamente. Uma nova nevasca pode transformar a aparência do Matterhorn rapidamente. A própria SRF ressalta que a variabilidade meteorológica continuará existindo: haverá anos em que os Alpes apresentarão muito mais neve no fim do verão.
O que chama atenção em 2026 é a combinação de fatores: um inverno com pouca neve, meses secos, ondas de calor e uma linha de congelamento excepcionalmente elevada.







