Do granito do El Capitan ao calcário da Sardenha e do Verdon, Lauren Berry, Aleksandra Taistra e Iris Bielli protagonizam três notícias que chegaram nesta segunda-feira. São histórias diferentes, unidas pela preparação, pela capacidade técnica e pela disposição de assumir projetos exigentes.
Uma primeira visita ao El Capitan que terminou com a ascensão em livre de uma de suas grandes vias. Uma escalada de 220 metros sem corda na Sardenha. A primeira ascensão em livre de uma nova linha nas paredes do Verdon.
As três notícias reunidas pelo AltaMontanha neste 2 de novembro têm mulheres como protagonistas: Lauren Berry, Aleksandra Taistra e Iris Bielli. As escaladas aconteceram em diferentes momentos de outubro, mas ganharam espaço no noticiário recente e oferecem uma oportunidade de olhar com mais atenção para a presença feminina nas paredes.
Cada realização tem suas particularidades. Há diferenças de dificuldade, estilo, duração e exposição ao risco que impedem colocar tudo no mesmo pacote. Em comum, estão projetos que exigiram muito mais do que força: leitura da rocha, preparação, persistência e decisões tomadas sob pressão.
Lauren Berry: a estreia no El Capitan pela Golden Gate
Aos 24 anos, Lauren Berry concluiu a Golden Gate em livre na primeira vez em que escalou o El Capitan, em Yosemite, nos Estados Unidos. Ao lado de Tom Waldin, entrou na parede em 14 de outubro e, segundo seu relato original no Instagram, chegou ao topo no dia 23.

A via tem 36 enfiadas — os trechos percorridos entre uma parada de segurança e outra. Ao longo da ascensão, a dupla enfrentou tempestade, desgaste nas mãos e uma permanência na parede maior do que havia previsto.
Lauren vinha construindo experiência na escalada tradicional, com preparação em Squamish, no Canadá. Em Yosemite, precisou reunir essa bagagem às exigências de viver na rocha: administrar água e comida, içar equipamentos e manter a concentração mesmo cansada.
Seu relato também expõe uma barreira menos visível. Em entrevista à Gripped, ela contou ter enfrentado situações em que homens presumiam que fosse menos competente ou dirigiam perguntas ao companheiro, embora ela estivesse presente. A conquista ganha outra dimensão quando se conhece esse contexto: além de escalar, ainda precisava lidar com expectativas alheias sobre aquilo de que seria capaz.

Na publicação original, Lauren detalha o estilo da ascensão: informa ter feito a enfiada Monster com corda por cima e a partir de uma posição de descanso, além de mencionar proteções previamente colocadas em Gold Desert. Essas ressalvas fazem parte de seu relato e ajudam a compreender o feito sem apresentá-lo como uma ascensão integralmente guiada à vista.
Veja o relato de Lauren e a reportagem e entrevista da Gripped.
Aleksandra Taistra: 220 metros sem corda na Sardenha
Na ilha italiana da Sardenha, Aleksandra Taistra realizou um feito de natureza bastante diferente. Em 29 de outubro, a polonesa de 44 anos escalou em free solo a Margarites, no Monte Oddeu: uma linha de 220 metros, sem corda ou sistema capaz de deter uma queda.

Taistra descreveu a realização como seu free solo mais difícil. Antes da tentativa, estudou extensamente os movimentos com corda por cima. A preparação permitiu conhecer as passagens e trabalhar as sequências, mas não eliminou a consequência extrema de um erro na ascensão sem proteção.
A escaladora tem uma longa trajetória na escalada esportiva e, posteriormente, nas vias de várias enfiadas. A Sardenha tornou-se parte importante desse percurso, com ascensões como Hotel Supramonte e outras linhas exigentes.
A filmmaker Aneta Starzynska acompanhou a realização para documentá-la. O registro permite conhecer o feito, mas pede uma leitura responsável: experiência e preparação não transformam o free solo em uma atividade sem risco. A própria Taistra já desencorajou outras pessoas a reproduzir esse tipo de escalada.
Confira o registro publicado pela atleta. Informações também em Planetmountain e Gripped.
Iris Bielli: encontrar a solução para uma nova via no Verdon
Nas Gargantas do Verdon, na França, Iris Bielli protagonizou a primeira ascensão em livre da Fragili Equilibri, uma via de aproximadamente 220 metros e sete enfiadas na parede de Estellié.

Em 22 de outubro, a italiana guiou todas as enfiadas, concluindo a ascensão em livre em um dia. A linha havia sido aberta anteriormente por Luca Ducoli e Leo Gheza, com participação de Daniele Lorusso na fase inicial do projeto.
O desafio combina movimentos técnicos em pequenas agarras com trechos mais físicos em formações de calcário. No lance decisivo, uma fissura pouco definida e uma formação arredondada exigem precisão no posicionamento do corpo.
Iris trabalhou as sequências antes da ascensão. Segundo o relato da equipe, algumas agarras se quebraram durante as tentativas, obrigando a rever movimentos e encontrar novas soluções. O nome Fragili Equilibri — “equilíbrios frágeis” — conversa com essa característica da rocha e da escalada.
Veja a publicação da equipe. Informações também em Gripped e Up-Climbing.
Escalada em livre e free solo são coisas diferentes
A distinção é essencial para compreender as três notícias.
Na escalada em livre, a progressão acontece com mãos e pés na rocha. Corda, mosquetões e outras proteções integram o sistema de segurança, sem serem usados para puxar o corpo e vencer os movimentos. É nesse sentido que aparecem as realizações de Lauren e Iris.
No free solo, não existe corda para deter uma queda. Foi o estilo adotado por Aleksandra na Margarites.
Também há diferença entre abrir uma via e realizar sua primeira ascensão em livre. No caso da Fragili Equilibri, a linha já estava estabelecida: Iris resolveu a escalada de suas enfiadas em livre. Explicar isso reconhece tanto o trabalho dos conquistadores quanto a realização da escaladora.
Protagonismo que merece espaço
As três histórias mostram por que vale acompanhar a escalada feminina para além de uma menção ocasional. Há projetos, trajetórias e estilos distintos que merecem ser contados com o mesmo cuidado dedicado a qualquer grande realização do esporte.
O relato de Lauren acrescenta uma questão concreta: o reconhecimento da capacidade técnica também passa pela maneira como as pessoas são tratadas antes de chegar ao topo. Presumir que uma mulher precisa de orientação enquanto o homem ao lado tem experiência é uma forma de tornar o ambiente menos acolhedor — e de ignorar quem está realmente conduzindo a própria escalada.
Nesta seleção de notícias, elas ocupam o centro da história. Lauren encarou sua primeira experiência no El Capitan; Aleksandra levou adiante um projeto de exposição extrema; Iris encontrou os movimentos para liberar uma nova linha.
Três grandes feitos femininos, três maneiras diferentes de se relacionar com a parede. E bastante história para contar entre a primeira agarra e o topo.







