Naoki Arima abre via de 180 metros em solitário no Espírito Santo e enfrenta calor intenso na parede

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Batizada de Coentro Provençal, a nova linha fica no Paredão Polese, em João Neiva, e tem graduação sugerida de 4º grau, com crux de 4º sup. Durante a conquista, Naoki Arima chegou a retirar as sapatilhas para aliviar o desconforto nos pés causado pelo calor.

O escalador abriu uma nova via de escalada tradicional no Paredão Polese, em João Neiva, no Espírito Santo. Batizada de Coentro Provençal, a linha tem 180 metros de extensão e graduação sugerida de 4º grau, com crux de 4º sup. A conquista foi realizada em solitário, modalidade na qual o escalador realiza a atividade sem um parceiro de cordada, assumindo sozinho a progressão e o gerenciamento dos equipamentos.

Naoki durante a conquista da via. Foto: Naoki Arima

A abertura foi marcada pelas condições de calor intenso na parede, cuja rocha escura absorve bastante calor. O desconforto chegou a levar Arima a retirar as sapatilhas durante parte da conquista, uma situação incomum que evidenciou as dificuldades enfrentadas naquele dia.

Uma nova linha em uma parede mais inclinada

O Paredão Polese é um setor conhecido pelos escaladores locais. As primeiras conquistas na região ocorreram em 2020, durante a pandemia de COVID-19. Desde então, segundo Arima, cerca de 20 vias foram abertas no local, que também conta com um setor de escalada esportiva.

A motivação para a nova conquista surgiu do interesse em encontrar uma parede mais inclinada do que as demais da região, mas que mantivesse uma característica marcante do local: a abundância de agarras.

“A motivação foi buscar uma parede um pouco mais inclinada, pois, em todas as outras, a parede é menos inclinada, mas sempre com muitas agarras — algo que é bem incomum por aqui. Então, pensei que se as agarras continuassem aparecendo em uma parede mais inclinada, seria uma via incrível”, explicou o escalador.

O escalador iniciando a conquista da nova via. Foto: Naoki Arima

Arima já havia observado a parede em uma visita anterior à base do paredão. Ao decidir testar a ideia, lembrou-se do trecho localizado ao lado de uma cachoeira. A presença da queda-d’água, porém, impôs limites ao traçado, já que era necessário manter distância suficiente para evitar que a via passasse diretamente pelo curso principal da água.

No dia da conquista, a cachoeira estava praticamente seca, o que facilitou o trabalho. A escolha do percurso também levou em conta a inclinação da rocha e a distribuição das agarras. “Unindo isso à busca pelo trecho mais inclinado, a escolha do traçado acabou sendo bem simples e natural”, contou.

A segurança também orientou a instalação das proteções. Arima optou por proteger melhor a saída da via, reduzindo o risco de uma queda até o solo. Nas partes mais altas, onde a distância do chão já é maior, as proteções seguem o padrão local, com alguns lances mais longos, mas em trechos nos quais há muitas agarras.

Agarras grandes e lances que exigem confiança

Apesar da inclinação, a Coentro Provençal não apresenta, segundo o conquistador, movimentos especialmente técnicos. A dificuldade está mais relacionada à leitura da parede e à confiança necessária para avançar em alguns lances mais longos.

“No jargão da escalada, diria que é uma via de agarrões do início ao fim. Não há nenhum movimento ou trecho com uma movimentação mais técnica”, descreveu.

A percepção da dificuldade muda conforme o escalador progride pela parede. Algumas agarras não são facilmente identificadas desde a base, o que pode tornar os lances mais intimidadores à primeira vista.

“Talvez a dificuldade esteja em manter a cabeça tranquila nos lances longos, pois à primeira vista sempre assusta, mas, à medida que se vai progredindo, vai-se vendo que há muitas agarras que, de baixo, não são visíveis”, explicou.

Entre os trechos que mais chamaram sua atenção estão a primeira e a terceira enfiadas. A saída, por apresentar maior inclinação, foi um dos pontos que considerou mais interessantes. Já na terceira enfiada, um trecho mais vertical proporciona uma sensação de exposição e uma vista ampla da paisagem.

“Eu acho que a saída, por ser mais inclinada, é muito legal. E, na terceira enfiada, há um trecho mais inclinado que é bonito pela sensação de altura. A vista que se tem do vale é muito bonita”, relatou.

O calor quase interrompeu a conquista

O principal obstáculo durante a abertura não foi a dificuldade técnica da via, mas a temperatura da rocha. Como a parede é escura, ela absorve calor e aquece bastante sob a incidência direta do sol, tornando o contato dos pés com a superfície desconfortável mesmo com as sapatilhas de escalada.

Ao final da terceira enfiada, Arima chegou a considerar a possibilidade de abandonar a investida e descer. A expectativa de que as nuvens encobrissem o sol por alguns instantes ajudava a manter a esperança de condições melhores, mas isso acontecia apenas ocasionalmente.

“Além disso, sabia que faltava apenas uma enfiada para terminar e a parede parecia bem fácil, então resolvi seguir com a conquista”, contou.

A situação ficou tão desconfortável que o escalador precisou retirar as sapatilhas em alguns momentos. Segundo ele, nunca havia feito isso durante uma conquista, justamente porque ficar descalço na parede não é uma opção segura.

“Nunca fiz isso, até porque não é muito seguro ficar descalço na parede, mas o calor estava acabando com os meus pés. Eu ficava pensando o tempo todo em uma sapatilha mais folgada que havia deixado em casa.”

O escalador seguindo com a conquista sem sapatilhas. Foto: Naoki Arima.

A experiência também alterou o tempo necessário para concluir a via. Com base em outras conquistas, Arima estimava que a abertura levaria cerca de cinco horas em condições normais. Naquele dia, o trabalho se estendeu por aproximadamente seis horas.

“No final, a cada chapeleta batida, eu tirava a sapatilha por causa do calor”, relatou.

A situação deixou uma lição prática para futuras conquistas em períodos quentes: escolher um calçado que permita maior conforto ao longo de várias horas na parede. “A lição que aprendi foi: no verão, levar a sapatilha mais folgada!”, resumiu.

Os desafios de conquistar uma via em solitário

A abertura de uma via sem parceiro exige planejamento adicional, tanto pelo volume de equipamentos quanto pela sequência de operações necessárias para avançar pela parede. Em uma conquista em solitário, o escalador precisa administrar sozinho o material e repetir procedimentos a cada enfiada.

Arima explica que o trabalho é mais cansativo porque, após guiar uma enfiada, precisa descer de rapel para recolher o equipamento e, em seguida, retornar à parede utilizando técnicas de ascensão pela corda, conhecidas como jumar. O ciclo se repete até a conclusão da linha. Ao terminar, ainda é necessário rapelar toda a via para descer.

“A principal dificuldade está no volume de carga e no esforço empreendido. Quando se vai sozinho, é preciso levar toda a carga que normalmente é dividida com mais pessoas”, explicou.

O planejamento também precisa contemplar possíveis imprevistos. Arima afirma que procura reduzir os riscos que podem ser controlados, especialmente diante da possibilidade de um acidente ou de uma situação que exija ajuda externa.

Entre os recursos utilizados está um rastreador via satélite, importante em locais onde o sinal de celular pode não estar disponível. Outro cuidado é respeitar os horários e reservar margem suficiente para concluir a escalada e a descida antes do anoitecer.

“Eu tento ao máximo mitigar os riscos que podem ser contornados, principalmente em caso de um imprevisto ou acidente. Uma das coisas que levo, por exemplo, nesse tipo de escalada é um rastreador satelital, pois nem sempre há sinal de celular”, contou.

Para o escalador, a atividade não termina quando se chega ao chão. É necessário considerar todo o percurso de retorno e evitar que uma conquista se prolongue além do tempo previsto.

“Respeito muito mais os horários, sempre deixando uma boa margem de segurança para não descer à noite, por exemplo, pois a escalada não acaba quando se chega no chão — ela só acaba quando chego em casa”, destacou.

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Recomendações para futuras repetições

Embora a Coentro Provençal tenha sido traçada para evitar o curso principal da cachoeira, a geografia da parede limita as possibilidades de passagem na parte final. Na última enfiada, a rocha exposta é delimitada pela cachoeira à esquerda e pela vegetação à direita, deixando pouco espaço para ajustar o percurso.

Por isso, Arima recomenda que os escaladores interessados em repetir a via observem atentamente as condições da cachoeira antes de iniciar a escalada, com atenção especial à parte superior da linha. A escolha do período também faz diferença: o final da temporada, quando o clima tende a ser mais seco, é a janela que ele considera preferível para a atividade.

“Tentei alinhar a via fora do curso principal da cachoeira, mas, mais para o final, especificamente na última enfiada, a rocha exposta fica limitada à esquerda pela cachoeira e à direita pela vegetação, então não há muito espaço”, explicou.

A recomendação reforça a importância de avaliar as condições locais antes de entrar na via, especialmente em paredes próximas a cursos d’água, onde mudanças no volume da cachoeira podem interferir nas condições de escalada.

 

A experiência para além da conquista

Para Arima, abrir uma via vai além de estabelecer uma nova linha para a comunidade de escaladores. O processo também envolve uma experiência pessoal marcada pela concentração, pelo isolamento e pela necessidade de tomar decisões continuamente.

“Pode parecer clichê, mas nesse tipo de escalada o que conta muito é a experiência, o processo na parede. Aqueles segundos, minutos ou horas em que se fica com a mente totalmente focada na escalada são algo muito gratificante; não é a mesma coisa que escalar com outra pessoa”, afirmou.

A sensação de solitude, porém, vem acompanhada do comprometimento e dos riscos inerentes à modalidade. De acordo com Arima, é justamente esse equilíbrio entre dificuldade, responsabilidade e experiência pessoal que faz da conquista em solitário uma atividade distinta da escalada em cordada.

Ao concluir a Coentro Provençal, Arima levou consigo não apenas a satisfação de abrir uma via de 180 metros, mas também a lembrança de uma jornada marcada pelo calor, pelo esforço e pela concentração.

“Além da via que fica para a comunidade, para mim fica a lembrança da experiência vivida na pedra. É difícil explicar essa sensação de solitude e sofrimento que vira, de alguma forma, prazer”, concluiu. “Eu acho que todo mundo deveria experimentar, pelo menos uma vez na vida, essa sensação na montanha; com certeza será uma experiência transformadora”, contou ele.

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Sobre o autor

Maruza Silvério é jornalista formada na PUCPR de Curitiba. Apaixonada pela natureza, principalmente pela fauna e pelas montanhas. Montanhista e escaladora desde 2013, fez do morro do Anhangava seu principal local de constantes treinos e contato intenso com a natureza. Acumula experiências como o curso básico de escalada e curso de auto resgate e técnicas verticais, além de estar em constante aperfeiçoamento. Gosta principalmente de escaladas tradicionais e grandes paredes. Mantém o montanhismo e a escalada como processo terapêutico para a vida e sonha em continuar escalando pelo Brasil e mundo a fora até ficar velhinha.

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