Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho! Waldemar Niclevicz
O mundo possui 14 montanhas acima de 8 mil metros de altitude. A primeira delas a ser conquistada foi o Annapurna no Nepal em 1950, pela expedição chefiada por Maurice Herzog. A França dispunha então de uma brilhante geração de alpinistas, Lachenal, Terray e Rébuffat, que se uniram numa missão nacional de conquista.

A edição original do livro Annapurna de Maurice Herzog.
Herzog é mais uma das figuras polêmicas do montanhismo. Articulado e influente, autoritário e manipulador, não foi um notável escalador e sim um grande chefe de expedição, com uma carreira política depois da conquista. Seu livro, cuja capa original é aqui reproduzida, foi uma da maiores obras sobre o alpinismo. Um dia ele escreveu essa frase triste: Avec cette réalization nous tournons la page: une nouvelle vie commence. Il y a d´autres Annapurna dans la vie des hommes. Sim, a vida continua e depois dela há outros Annapurnas.
O paranaense Waldemar Niclevicz nasceu em 1966 e é um dos mais versáteis alpinistas brasileiros. Acredito que o período que passou na Academia Militar de Agulhas Negras no Vale do Paraíba foi fundamental para fazê-lo conhecer as magníficas montanha da Mantiqueira e para incutir o valor da disciplina, tão importante na sua carreira.
Foi o primeiro do país a alcançar o cume do Everest, na sua segunda tentativa. Essa façanha foi feita em 1995, em dupla com Mozart Catão, o grande escalador da Serra dos Órgãos. Catão encontrou morte trágica na perigosa parede sul do Aconcágua em 1998, com apenas 36 anos. E Niclevicz continuou sua progressão, baseada na organização, paciência e coragem.

Niclevicz na sua primeira tentativa de 1991 no Everest (Fonte – niclevicz.com.br)..
Ele completou até hoje sete dos picos acima de 8 mil metros, incluindo uma segunda vez no Everest, dez anos depois. Realizou inúmeras escaladas em solitário, como o Aconcágua, o Huascarán e o Chimborazo todos nos Andes. Além deles, os perigosos Matterhorn nos Alpes e Carstensz na Indonésia, a gigantesca pirâmide de Trango Tower no Paquistão, o gelado Vinson na Antártida e o McKinley nos Estados Unidos. Niclevicz participou de expedições em todo o mundo, da Austrália à Groenlândia e da Venezuela ao Cazaquistão.
Como é comum no alpinismo, ele procura atrair parceiros de alta montanha, alguns sendo brasileiros, como Irivan Burda nos Himalaias e Pedro Hauck nos Andes.

Numa tirolesa nas Cataratas do Iguaçu, sua cidade natal (Fonte – Zig Koch).
Sua geração inclui até o momento poucos brasileiros experientes em grande altitude – as exceções talvez sendo Máximo Kausch, nascido na Argentina, com grande bagagem mundial, Ana Boscarioli no começo do século e o surpreendente Moeses Fiamoncini atualmente.
Niclevicz acaba de completar junto com o alpinista Vinícius Todero o Projeto Quatro Mil dos Alpes, iniciado em 2018, com todos os picos alpinos acima dessa altitude – iniciativa que tomou quase seis anos.
Desde 2012, tem focado a Cordilheira dos Andes (que ele considera a coluna vertebral da América), com cerca de 15 conquistas – dentre as 300⁺ montanhas que já escalou. Assim como Messner em relação aos Dolomitas, os Andes são a sua casa.

Niclevicz na Patagônia chilena (Fonte – Renato Kalinowski).
Na realidade, o que ele chama de Mundo Andino é o seu projeto de vida, quando tem desenvolvido perfis tanto físicos como humanos dos locais que visita. Infelizmente, teve de interrompê-lo por falta de recursos.
Ele assim escreveu (resumido): Explorar a Cordilheira dos Andes é como realizar uma descoberta que abre a alma ao universo. Nos Andes ainda ressoa a voz mais funda da terra, que fala com severidade dos velhos deuses através de seus vulcões. Um lugar onde voa em perpétua solidão o magnífico condor, as árvores têm raízes mais profundas e até o coração do homem é maior, para poder viver com o ar rarefeito das montanhas.

Waldemar Niclevicz (Fonte – niclevicz.com.br).
Niclevicz está agora terminando a implementação da Reserva Natural do Alpinista, numa área degradada com cerca de cem hectares em Campo Largo, próximo a Curitiba. O projeto envolve o plantio de araucárias e de espécies nativas, bem como programas de educação ambiental, principalmente para crianças.
Entre suas palestras, seus livros e suas entrevistas, você pode encontrá-lo na sua casa paranaense no Maciço do Marumbi, onde muitos montanhistas têm residência. E, se não estiver lá, no seu jipe amarelo, rodando pela vida, se não já o tiver vendido.







