No Paraíso de Alter do Chão

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Começo agora uma série de quatro colunas sobre o distante Pará. Descendo do norte para o sul, você visitará praias e rios tropicais, serras de estranhas histórias e gigantescas minas e florestas.

Conheça a seguir esta que é uma das mais belas praias fluviais do Brasil, banhada pelas límpidas águas do Tapajós e aquecida pelo calor do clima equatorial. À sua volta existem duas reservas, onde você poderá conhecer as comunidades ribeirinhas e a natureza amazônica do Pará.

Como o norte do Brasil era invadido por nações europeias, a Coroa decidiu enviar uma expedição para dominá-lo. De sua feroz marcha para o oeste resultou a fundação de Santarém e outras povoações. No local onde habitavam os índios borari surgiu Alter do Chão, nome de origem portuguesa.

Até o começo do século passado, Alter era uma das rotas de transporte do látex das seringueiras de Belterra e de Fordlândia. Depois da decadência do extrativismo, a vila só evoluiu com o surto do turismo. Com quase 7 mil habitantes, Alter curiosamente é mais populosa que a vila do Alentejo que lhe emprestou o nome.

Alter fica a 40 km por asfalto de Santarém, uma cidade surpreendentemente grande. Depois dos ciclos da seringueira e da castanha, cresceu a partir dos minérios de ouro da Serra Pelada e de ferro da Serra dos Carajás. Santarém conta com 100 km de praias, especialmente ao longo do Tapajós, que lá se funde com o Amazonas.

Embora não seja tão longo, com 810 km, o Tapajós tem um impressionante volume de água, num belo colorido esverdeado devido a seu fundo arenoso. O outro rio importante é o afluente Arapiuns, também limpo e volumoso.

Praia do Amor em Alter do Chão, PA (Fonte: Cassiana Pizaia)

As praias ficam nas margens do Rio Tapajós e do Lago Verde. A mais procurada é a Ilha do Amor, numa península arenosa e inundável aonde você chegará num barquinho a remo. É de fato um lugar único – parece pertencer a um sonho, numa época e num local remotos.

Logo na orla ao lado está a Praia de Cajueiro, alcançável a pé. A vila é porta de entrada para outros balneários: Pindobal, Porto Novo e Ponta de Pedras. Mas existem muitas praias ao longo das infinitas margens do Tapajós – conheci entre outras a Praia do Jacaré, a Ponta do Cajuru e Praia de Itaparica.

Praia de Itaparica no Rio Tapajós, PA

A melhor época de visita é no período ago-nov, quando as águas baixam e as praias aumentam. Entretanto, outubro e novembro são muito quentes. Na época úmida, as águas chegam a encobrir a Ilha do Amor.

O auge da estação é em setembro, com a Festa do Sairé, quando a população do vilarejo aumenta dez vezes. Esta celebração une o sagrado ao profano, com procissões, danças tradicionais, confronto entre os botos e muita música, bebida e comida.

Mas a experiência mais mágica de todas foi percorrer os igapós. O igapó é um braço de rio onde aparece uma vegetação amazônica típica de terrenos baixos. As plantas se adaptam aos alagamentos – baixas e emaranhadas, com estranhas raízes aéreas. Atravessar de barco este ambiente exótico e misterioso, no calor e silêncio da mata sob o vermelho sol cadente, foi para mim um momento muito emocionante.

Pôr do Sol no Igapó de Jamaraquá, PA

Para quem cresceu junto ao litoral, o visual da região parece um tanto estranho. Por um lado, o Tapajós, em oposição ao barrento Amazonas, parece mais um mar do que um rio, com seu tamanho e coloração. Por outro, talvez com a única exceção de Alter, as praias têm um aspecto amarelado que indica a sua origem fluvial.

Cruzar o Tapajós pode ser uma aventura: no seu trecho mais estreito de 12 km, levei quase 4 horas na companhia de ondas de até 2 metros. Noto que no mar os barqueiros preferem não se arriscar quando elas excedem 1½ metros.

Encontro das Águas do Tapajós com o Amazonas, PA (Fonte: Cláudio Santos)

Esta região tem uma exuberância realmente amazônica, com suas matas muito verdes, altas e contínuas. Um passeio imperdível é visitar a Floresta Nacional do Tocantins, uma extensão de 530 mil ha na margem direita do Tocantins. O acesso é por lancha ou pela terra da Transtapajós.

Ela é ocupada por 25 pequenas comunidades de caboclos descendentes de índios. Tiveram de lutar por vinte anos para manter sua permanência no local, depois da criação da FLONA em 1974. Desenvolvem um manejo descrito como sustentável em locais específicos da floresta.

A Gigantesca Samaúma na FLONA do Tapajós, PA

As duas trilhas praticadas partem das comunidades vizinhas de Jamaraquá e Maguari: nelas você penetrará na floresta, caminhando por 5 e 9 km de ida. Os dois caminhos retornam após encontrarem em cada caso uma samaúma gigantesca.

As árvores aumentam de tamanho à medida que você penetra na floresta: jatobás, pequis, angelins e cumarus de 30 a 40 metros. A região é habitada por aves como araras, marrecas e maguaris, e mamíferos como veados, onças e bichos preguiça – além das jiboias e jararacas. São visitas obrigatoriamente guiadas, quando você ouvirá muitos relatos sobre a floresta.

Rio Amazonas na RESEX Tapajós-Arapinus em Urucureá, PA

Mas, na margem esquerda do Tocantins, existe uma outra UC: a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Criada em 1998, resultou da luta contra as madeireiras. Ela é imensa, com quase 680 mil ha. E também populosa, com mais de 70 comunidades, que acredito resultaram de assentamentos. As atividades principais são a extração da castanha, da borracha e do açaí. Assim como na FLONA, a caça, a pesca e o plantio são permitidos.

É uma região baixa, com até 200m, também recoberta pela floresta, embora com plantas de menor porte e maior presença de matas secundárias. Novamente, você poderá percorrer trilhas pela floresta e chegar numa delas até as margens do Amazonas.

Canal do Jari entre o Tapajós e o Amazonas, PA (Fonte: Cassiana Pizaia)

É sempre especial encontrar o nosso maior rio. Você poderá alcançá-lo atravessando o Canal do Jari, situado numa estreita faixa de terra, que é a última barreira ao encontro do Tapajós com o Amazonas. A vantagem do Jari é que suas margens próximas facilitam a observação da fauna: avistei jacarés, iguanas, botos, garças e, pela primeira vez, tímidos bichos preguiça.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

  1. Avatar

    Estimado Alberto Ortenblad.

    Comandamos seu excelente trabalho, certamente a melhor matéria e artigo que lemos a respeito de Alter do Chão em muitos anos…

    Muitos escrevem a respeito da região MAS seu trabalho é preciso, rico e extremamente profissional. Também somos apaixondos por essa região somos a Selvagem Tours, um receptivo turístico de nível internacional e nos especializamos em grupos pequenos médios e grandes, atendemos em Inglês, Russo, Espanhol, Francês e Português com inigualavél qualidade de serviços e confiabilidade, oferecemos recepção no aeroporto & traslado, reservas em hotéis, pousadas e todo auxílio necessário que você necessite em Alter do Chão.

    Mais uma vez parabéns pelo seu impressionante trabalho

    Selvagem Tours
    Turismo de Qualidade!
    http://www.selvagem.net

    Ps. carinhosamente revise o seguinte texto “Mas, na margem esquerda do Tocantins, existe uma outra UC: a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Criada em 1998”

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