No Reino do Parque Nacional do Itatiaia

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Relato da situação inaceitável que estamos vivenciando através de ingerência, falta de gestão e descaminho na administração pública do Parque Nacional do Itatiaia.

Copio ipsisliteris o post do
Eliseu Frechou sobre o assunto. A situação que vivemos é inaceitável.
Faço das palavras dele as minhas palavras. Mais do que nunca, este é o momento de fortalecermos a nossa representatividade através das federações. Esse é o tipo de situação que se resolve politicamente, com pressão da opinião pública, etc… Simplesmente inaceitável. Escalada e Montanhismo também é defender os nossos interesses e garantir o nosso acesso às montanhas e áreas de escalada. Entre as diversas “funções” das federações (Femesp, Femerj, GEAN, CBME, etc…) essa é uma das mais preementes.

Bom, o post original está em :

espnbrasil.terra.com.br/eliseufrechou/po…

itatiaia01
Portaria do PNI. Acesso cada vez mais complicado.
Crédito da imagem: Eliseu Frechou

Ontem, a CBME divulgou a nota abaixo, à qual acrescento a minha
opinião a respeito dos rumos que a administração do PNI está tomando:

Sou um montanhista que há mais de 25 anos freqüenta o Planalto do
Itatiaia e posso afirmar que, após conhecer diversos outros Parques
Nacionais brasileiros, o de Itatiaia é o que pior funciona. E o que
mais descontentamentos criou com os visitantes e vizinhos. Isso, apesar
de todas as proibições, taxas, multas, acusações, fechamentos, e todo o
tipo de represarias administrativas possíveis e inimagináveis, que as
direções (incluindo a atual) impuseram nos últimos anos aos
proprietários de terras e montanhistas que freqüentam o PNI. Se todas
estas medidas punitivas e proibitivas tivessem surtido algum efeito
positivo, pelo menos teríamos um consolo. Mas isso, para quem freqüenta
o lugar, nunca se mostrou. Muito pelo contrário. Tal autoritarismo só
resultou em antipatias, desafetos e na perda de confiança de parceiros
que poderiam ser importantes aliados para o PNI.

Faz três anos que foi criada a Câmara Técnica de Montanhismo e
Ecoturismo para discutir as diretrizes de um uso sustentado para a
parte alta do PNI. O que de fato foi aproveitado dessa parceria? Ao
mesmo tempo em que se proíbe – a título de preservação – o uso de
trilhas clássicas, as mesmas trilhas são liberadas para uma corrida de
aventura com dezenas de participantes. Qual é a lógica no reino de
Itatiaia?

No meu entender, a proibição de pernoite no entorno (veja que nem
falo na área interna) do PNI, aliada a interdição dos dois únicos
locais permitidos para camping e hospedagem na parte alta, e uma
estrada que me parece abandonada de manutenção, soa como uma clara
expulsão das pessoas que tem por objetivo as atividades de montanha.
Note-se que o hotel mais próximo está a mais de 13 km da entrada do
PNI, e o único acesso é uma estrada em condição lamentável. E após a
entrada, ainda tem-se que andar mais 2 horas até, por exemplo, a base
das Prateleiras. Quem diria Agulhas Negras. A que horas o visitante
terá que sair de seu hotel para conseguir fazer esse passeio? Chegou-se
ao cúmulo do impedimento à visitação.

Talvez para os administradores, funcionários públicos, seja mais
fácil gerir um parque com menos gente, com menos problemas. Mas não
para isso que eles estão lá. Eles estão neste cargo para justamente
assegurar, facilitar e incrementar a visitação e que ela seja o mais
prazerosa, educativa e segura para todos que queiram aproveitar desse
direito.

Infelizmente, ao contrário do que acontece em outros Parques
Nacionais (PNSO, PNT e muitos outros), que tem programas bem sucedidos
de voluntários e ONGs (como associações de montanhistas) atuantes e que
realmente são ouvidas, o PNI parece querer afastar os visitantes,
contrariando a própria razão de sua existência: ser um local para o
lazer da população e servir de um instrumento de educação. Depois de
ver tudo e sentir tudo isso, uma pergunta não sai da minha cabeça, por
mais óbvia que pareça ser a resposta?

De quem é um Parque Nacional: da população ou de seu diretor?

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MANIFESTO PÚBLICO

Através desta carta pública a FEMERJ, a FEMESP e a Confederação
Brasileira de Montanhismo e Escalada – CBME, à qual as duas Federações
são filiadas, vêm reforçar e destacar o fato de que, há anos, existe
uma demanda formal e informal das Federações e de montanhistas em geral
por uma opção de hospedagem na parte alta do Parque, na forma de
camping e/ou abrigos de montanha.

Formalmente essa demanda tem sido encaminhada através da Câmara
Técnica de Montanhismo e Ecoturismo – CTME e do Conselho Consultivo do
Parque, onde FEMESP, FEMERJ e GEAN, filiados à CBME, participam
oficialmente. Essa demanda nunca foi priorizada e, repetida e
historicamente, recebe uma série de objeções e dificuldades, nunca
tendo respaldo para seguir adiante como um projeto de implantação.
Observa-se ainda que, no mesmo período, houve aporte significativo de
recursos (e implantação) de inúmeras outras ações, tanto na parte alta
quanto na parte baixa. Este fato tornou-se mais evidente na comemoração
dos 70 anos do PNI, quando houve aporte de um montante razoável de
recursos para o Parque, mas muito pouco foi aplicado no sentido de
resolver a demanda de onde se hospedar na parte alta. As ações
limitaram-se a uma pequena reforma do Abrigo Rebouças, culminando com
sua reabertura e festa de re-inauguração, feitas com recursos oriundos
de parceiros, tendo o Parque entrado com mão de obra.

Sem prejuízo ao valor histórico do Abrigo Rebouças – que deve ser
preservado – e a importância das ações executadas em prol deste, a
reforma até o momento não atendeu a demanda original dos montanhistas,
uma vez que a sua capacidade é muito pequena – para apenas 20 pessoas,
e recentemente reduzida para 16. Como agravante, o sistema de reserva e
uso do Abrigo é ineficaz do ponto de vista organizacional e
administrativo, sendo alvo de constantes reclamações. Entretanto,
ressaltamos que, mesmo que as reservas do Abrigo Rebouças fossem
eficazes, ainda assim não atenderiam a demanda existente com seus 16
lugares. Some-se a isso outros problemas associados ao Abrigo, e que
não foram priorizados nem resolvidos na pequena reforma – dos quais o
mais grave é sua fossa séptica – temos uma situação inaceitável do
ponto de vista de uso público.

Na parte alta, as opções de hospedagem para visitantes e
montanhistas acabaram se voltando para o Alsene e, um pouco mais longe
(por estrada em péssimas condições) à Pousada dos Lobos. Contudo,
recentemente a direção do PNI interditou ambos os estabelecimentos. Não
discutimos os motivos e o mérito da interdição, entretanto destacamos
que esta interdição, somadas ao horário de funcionamento do parque,
praticamente inviabilizam várias atividades na parte alta por
montanhistas.

Os 13km de estrada entre a Garganta do Registro e o Posto Marcão
demandam de 40 minutos a uma hora de deslocamento em veículo comum, por
estrada rústica normalmente em péssimas condições. A opção de
hospedagem ou camping mais próxima fica há alguns quilômetros da
Garganta do Registro, seja na direção Itatiaia, seja na direção
Itamonte, e é evidente que a visitação e as atividades de montanha
ficam severamente prejudicadas no contexto criado: ausência de um
camping rústico na parte alta aliada ao fechamento das únicas opções
existentes. Adicionalmente, ressaltamos que o ato de pernoitar em
montanha, é uma atividade que faz parte da cultura do montanhismo no
mundo todo, e cuja prática é limitada, pelas mesmas razões, no Planalto
do Itatiaia.

Por esta razão, através deste manifesto, solicitamos que a questão
da hospedagem na parte alta do PNI seja finalmente considerada
prioritária, passe a constar da agenda de ações da direção do Parque e
se concretize em dois projetos simples e de baixo custo:

1- A criação de um camping rústico na parte alta em local inclusive já
indicado no Plano de Uso Público do Parque. Prazo desejado: Maio de
2010;

2- A adoção de um processo administrativo transparente,
justo e eficaz para a utilização do Abrigo Rebouças. Prazo desejado:
Março de 2010.

As entidades que assinam este manifesto oferecem sua ajuda técnica e
tradicional disposição para que estas demandas se concretizem.

Atenciosamente,

Silverio Nery
Presidente da FEMESP e da CBME
Bernardo Collares
Presidente da FEMERJ
Edson Santiago
Presidente do GEAN

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Sobre o autor

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Davi Marski (In Memorian) Era guia de montanha e escalador em rocha e alta montanha (principalmente nos Andes) desde 1990. Além de guia de expedições comerciais, ele ministrava cursos de escalada em rocha. Segundo ele mesmo "sou apenas mais um cara que ama sentir o vento frio que desce das montanhas". Davi levava uma vida simples no interior de São Paulo e esforçava-se por poder estar e viver nas montanhas. Davi nos deixou no dia 19 de Novembro de 2014.

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