Nossas Serras (15/25): Os Gradaús

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Sugiro que consulte ao texto anterior sobre o Roncador, pois a Serra dos Gradaús é sua exata continuação, num amplo arco que segue rumo ao norte amazônico.

Se você estivesse na longa estrada que penetra no Mato Grosso no sentido norte, julgaria que a serra à sua esquerda seria a mesma que vinha há muito tempo avistando, uma continuação do Roncador. Mas não, depois da fronteira com o Pará, surge uma nova realidade.

Relevo do Pará, com a Depressão do Araguaia em Rosa (Fonte: UFRJ)

Ultrapassada a divisa, aparece um visual diferente, com paredes expostas em formações mais elevadas e acidentadas: as Serras do Matão, da Capivara, da Seringa e sobretudo dos Carajás, acima de 800m. São formações com 100 km ou mais cada uma.

Os geógrafos reúnem a região das três primeiras destas formações sob o nome de Serra dos Gradaús, que como vimos prossegue o rumo norte do Roncador. Naturalmente, essa é uma outra história e, talvez, mais interessante do que a do monótono Roncador. Pois, em alguns momentos, você verá interessantes perfis serranos, especialmente na agitada Serra da Seringa. Quanto aos Carajás, será uma situação diferente, motivo de uma próxima coluna.

Serra dos Gradaús em Redenção, PA

A Serra dos Gradaús ocupa a depressão do Araguaia, situando-se a oeste deste rio. Seu nome vem de uma tribo indígena nas margens desse rio. Localizada inteiramente no Pará, tem uma extensão de cerca de 300 km. Começa na fronteira do Estado e termina nas proximidades de Carajás, que está a noroeste dela. A extensão somada do Roncador com os Gradaús alcança assim 1.100 km – observe que é equivalente à do Espinhaço, considerada nossa maior cordilheira.

Vista do Araguaia em Conceição do Araguaia, PA (Fonte: Divulgação)

Os Gradaús são formados por rochas graníticas muito antigas, naturalmente retrabalhadas e aplainadas ao longo do tempo. Não é um granito puro, pois aparecem também xistos, quartzitos e filitos – bem como hematitas, à medida que se aproxima da província mineral de Carajás. São rochas irregulares e fraturadas, lembrando a variada inconstância dos quartzitos.

Serra dos Gradaús em Rio Maria, PA

Suas altitudes são relativamente modestas, não chegando a ultrapassar os 700m, recuando com frequência a menos de 400m. Em alguns trechos, a serra é apenas um divisor de águas, sem apresentar propriamente elevações visíveis, aliás à semelhança das formações do Centro-Oeste, como o Caiapó e o Roncador.

Ao longo de seu percurso, a vegetação original foi sendo substituída pelas pastagens para criação de gado. É impressionante como a ocupação pastoril quase nunca permitiu preservar sequer manchas da mata nativa, diferentemente do que acontece ao sul – quando, pelo menos, as áreas de córregos e de reserva legal são preservadas.

Nas raras ocasiões onde isto ocorreu, você ainda verá trechos de floresta densa, com hoje escassas árvores de madeira de lei, bem como de cerrado arbóreo. Eventualmente, castanheiras, ipês e jatobás podem ser avistados – mas o mogno, o cedro e o angelim há muito tempo já desapareceram.

Região dos Gradaús em Canaã dos Carajás, PA

A oeste dos Gradaús corre o Rio Xingu, com gigantescas reservas indígenas – especialmente dos caiapós, xicrins e apiterewas. Elas somam inacreditáveis 4.5 milhões de ha, onde naturalmente predomina a floresta tropical. Ela é habitada pela fauna usual de felinos e outros carnívoros, primatas e rodentes, ofídios e muitas aves.

Entre as regiões dos Gradaús e de Carajás fica uma pequena formação que se tornou famosa: a Serra Pelada, local de garimpo manual de ouro. Com a febre da lavra, sua vila chegou a 80 mil residentes em meados da década de 1980, quando o centro regional Marabá não passava de 60 mil pessoas.

Exaurido o minério, a impressionante cava de 200m escavada pelos garimpeiros encheu-se de água. Um belo lago de superfície azulada decora inocentemente a colina dos rejeitos que sobraram daqueles anos de euforia. Mais tarde, foi escavado por trás do lago um estranho túnel, atualmente desativado, de onde dizem ter saído muito ouro. Hoje Marabá se avizinha dos 300 mil habitantes, enquanto na vila de Serra Pelada teimosamente ainda vivem 3 mil pessoas.

Serra dos Gradaús, Rio Maria, no Pará

As únicas reservas naturais da região são associadas à Floresta Natural de Carajás, onde a Vale desenvolve seu gigantesco projeto de mineração, como você saberá na próxima coluna.

Essa região tão vazia não contém naturalmente cidades de porte. As maiores, como Redenção, Santana do Araguaia e Xinguara, não chegam a 100 mil habitantes. São vilas relativamente recentes, originadas da extração da borracha, da pecuária de corte e da pequena agricultura. Durante o governo militar, a região foi palco da chamada Guerrilha do Araguaia – e até hoje os parentes dos mortos buscam localizá-los.

O Agitado Perfil da Serra da Seringa no Pará

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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