Nossas Serras (23/25): Ibiapaba

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Diferentemente das outras regiões do Brasil, o Nordeste não conta com serras muito longas. A exceção é a Serra ou Chapada de Ibiapaba, uma surpreendente formação que divide o Ceará do Piauí e, de tão comprida, quase alcança o mar.

Mapa da Serra de Ibiapaba (Fonte: IBGE)

O trecho mais conhecido da Serra ou Chapada de Ibiapaba é aquele que percorre a sucessão de cidades cearenses, desde Croatá até Viçosa, numa extensão de talvez 130 km. É ao longo dele que aparecem as maiores altitudes e as mais exuberantes vegetações. É nele também que se concentra o turismo regional, à volta da Gruta de Ubajara.

Porém a visão mais impressionante da parede da Ibiapaba ocorre nas regiões de Ipu e Ipoeiras, esta estando uns 20 km ao sul. Como o vale que as contém é muito baixo, a apenas 250m, parece gigantesco o desnível até o áspero penhasco da serra, que surge imponente e inacessível.

Contrafortes da Serra de Ibiapaba, CE (Fonte: Divulgação)

Mais 70 km ao sul, e mesmo além, você voltará a encontrar os perfis serranos, ora chamados de Serra Geral, ora de Cariris Novos. Inversamente, a formação só se dispersará a partir da Serra de Ubatuba, talvez 40 km acima de Viçosa, a sua cidade mais ao norte. Faltou pouco, algo como 40 ou 50 km, para que a serra alcançasse o mar do Piauí.

Assim, a Serra ou Chapada de Ibiapaba tem a meu ver cerca de 300 km, sendo a mais extensa do Nordeste (outras fontes indicam 200 km). As demais grandes formações ficam na divisa entre Piauí e Pernambuco, como as Marrecas e os Dois Irmãos, mas não chegam a 150 km.

Bica do Ipu Vertendo da Serra de Ibiapaba, (Fonte: Divulgação)

A parte central e conhecida da Serra de Ibiapaba possui uma altitude média da ordem de 850m. Os trechos sul e norte são mais baixos, talvez com 700m. O ponto culminante está a 954m. Que eu saiba, não existe nenhuma montanha conhecida associada à serra.

Mas Ibiapaba não é nem uma serra, nem uma chapada. Ela não apresenta as duas vertentes típicas das serras, e sim apenas uma, voltada a leste para o Ceará. E tampouco contém um platô plano no topo de sua parede, orientado para o Piauí. Este na realidade é um suave declive, que avança a oeste.

Desta forma, Ibiapaba é o que os geógrafos chamam de cuesta, uma forma de relevo bastante comum, que você já encontrou algumas vezes antes nesta série de artigos.

É uma região notável, com um pacote variado de rochas, desde a parede arenítica no Ceará até o planalto cristalino no Piauí. Como em todo o Nordeste, seu relevo foi formado a partir da ruptura do Continente Gondwana, quando o Atlântico separou a América da África.

Pedra do Machado, Serra de Ibiapaba, Viçosa do Ceará (Fonte: Divulgação)

O arenito fortemente compactado foi soerguido, formando a parede da Ibiapaba, que se sobrepôs à depressão sertaneja, composta pelas antigas rochas cristalinas encontradas em todo o Nordeste. Mas tanto o granito como o arenito mostram-se diferentes daqueles do Sudeste – o primeiro é mais fraturado e granulado e o segundo é mais denso e aglomerado.

Ibiapaba é também notável pela vegetação. Na vertente leste, aparece uma mata atlântica frondosa e verdejante, com terrenos férteis aproveitados para o plantio de frutas e hortaliças, flores e cana de açúcar. Mas, no seco oeste, apresenta vegetação de carrasco e caatinga, com predominância da pecuária.

Porém existem também zonas de transição, com feições de cerrado, de floresta amazônica e de mata dos cocais, compondo um intrigante mosaico vegetal. Não é especialmente rica em fauna, pois os terrenos altos, férteis e sombreados são bem ocupados e as depressões vazias são muito áridas.

Mata dos Cocais de Babaçu na Serra de Ibiapaba (Fonte: Fotonatural)

Ibiapaba foi colonizada a partir do século XVI por franceses e portugueses que aportaram na costa oceânica ao norte e desceram ao encontro dos índios tapuias e tabajaras –naturalmente exterminados. Houve no século XVIII um ciclo de mineração, seguido pelo desenvolvimento da agropecuária e, mais recentemente, pelo turismo. Nenhuma das cidades da região é de grande porte, as maiores sendo as vilas médias de Tianguá e Viçosa.

A Serra de Ibiapina compreende um território longo e estreito de 3.000 km² que é disputado entre o Ceará e o Piauí. O litígio surgiu quando o Ceará devolveu ao Piauí uma cidade costeira que lhe tinha sido atribuída e, como compensação, incorporou áreas próximas a Ibiapaba. O Piauí considerou que foi desvantajoso trocar serra por sertão e entrou na Justiça, para contestar uma questão que perdura há quase um século e meio.

Área de Litígio na Região de Ibiapaba entre Ceará e Piauí (Fonte: IBGE)

O maior atrativo regional é o PN de Ubajara, cuja gruta ocupa uma impressionante depressão cercada por penhascos calcários e areníticos. A caverna é pequena, com desenvolvimento de 1 km, mas contém decorações sugestivas. Existem outras grutas nas proximidades, como Urso Fóssil e Morcego Branco. E trilhas que buscam as cachoeiras da parte baixa do Parque.

Interior da Gruta de Ubajara, PN Ubajara, CE (Fonte: pavablog)

Só conheço duas outras reservas nesta região, ambas no Ceará. Bem ao sul em Crateús existe a Reserva Natural Serra das Almas, cujos 6 mil ha pertencem a uma ONG privada. Foi criada por um dos descendentes da família fundadora da empresa norte-americana SC Johnson, a produtora das conhecidas Ceras Johnson. Seu pai havia detectado a presença de carnaúbas, usadas como matéria prima, e o filho adquiriu as terras 65 anos depois. A Reserva possui alojamentos, painéis informativos, atividades de pesquisa e visitação frequente.

Serra dos Tucuns, Reserva Serra das Almas, Crateús, CE (Fonte: wikipedia)

No extremo norte, no município de Granja, foi criado o PE das Carnaúbas com 10 mil ha, num vale circundado por serras. Apesar de estabelecido cerca de cinco anos depois da Serra das Almas, não dispõe de qualquer instalação, conta com pouca divulgação e não apresenta visitação regular. Triste contraste entre a dedicação privada e o desinteresse público.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

2 Comentários

  1. Marcelo Baptista em

    Andei na região em 2011, visitando o Parque Nacional de Ubajara e região. Achei revigorante e imponente! Bela região do Ceará

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