Embora seja impressionante, ele não é nem bonito nem radical. Mas é especial e raro. O Pico do Cabugi tem um perfil muito bonito, devido aos dois longos braços do seu relevo, que convergem no centro para uma aguda pirâmide. Ela termina suavemente num ponto que parece suspenso numa prece ao céu. Talvez esse delicado desenho tenha inspirado aos tupi-guarani o seu nome de peito de moça.

O desenho gracioso do Pico do Cabugi (Fonte – Divulgação).
O Cabugi é um dos poucos acidentes vulcânicos do continente brasileiro. Pertence à planície frontal á orla do Rio Grande do Norte. Sua origem foi antecedida por dois eventos principais: a ruptura do ancestral Continente Gondwana que criou a abertura do Atlântico, levantando o relevo litorâneo do Brasil, e os sucessivos avanços e recuos oceânicos, que deixaram interessantes deposições marinhas no interior do Estado.
Pois o Cabugi é uma das raras montanhas brasileiras formadas pelo basalto, rocha básica marinha. E talvez seja nosso único vulcão inativo que ainda conserva íntegro o seu interessante desenho pontiagudo.

Seção geológica das intrusões magmáticas no litoral do RN.
Existem muitos testemunhos próximos ao litoral nordestino, desde o RN até a PB, de atividades vulcânicas, variando desde 70 a menos de 10 milhões de anos passados. Alguns são diques tabulares e outros são cones e pescoços. A formação das ilhas vulcânicas de Fernando de Noronha é talvez a mais visual manifestação desse magmatismo. Veja o desenho acima.
Como ele jamais entrou em erupção, não formou a caldeira circular típica dos vulcões extintos. Mas, se não irrompeu, certamente resultou de uma violenta colisão, que fraturou sua rocha. Isto aconteceu há cerca de 20 milhões de anos, o que é geologicamente muito recente.

Esquema do Cabugi (Fonte – Global Tourism) .
O Cabugi surge de forma um tanto inesperada a partir do relevo sempre plano que antecede Natal, a uma centena de km da capital. Seu acesso acontece no município de Lajes, a partir da rodovia BR 304, com uma curta aproximação a pé. Dizem que seu desenho arrojado pode ser avistado desde o mar e que foi ele, e não o Monte Pascoal, que foi avistado pelos primeiros navegadores portugueses. Acredito que suas lunetas deviam ser melhores do que as nossas, para avistarem tão bem e tão longe.
Você achará o ambiente do Cabugi parece bastante hostil. Embora me digam que a vegetação de juremas e imburanas permanece esverdeada mesmo na seca, ela se mostra rala, torta e áspera. Aliás como é seu solo seco e arenoso, com exposição de rochas com estrias que parecem de origem marinha. Apenas pequenos animais sobrevivem à escassez da natureza e à dureza do clima.

O dorso desagregado do Cabugi, semelhante a uma moraina.
O Cabugi tem toda a sua pirâmide formada por rochas vulcânicas desagregadas, ou seja, separadas entre si. No início e no fim, têm tamanhos medianos, mas na parte central apresentam formatos grandes, que serão penosos de subir e, especialmente, de descer. Entretanto, por sua formação exclusivamente rochosa, não é uma montanha difícil de ser conquistada.
Se esse acarreio de pedras pudesse ser mais elevado, talvez na altitude próxima a mil metros, seria realmente uma montanha notável. Mas isto seria difícil, dada a baixa planície de onde ela se alça. Talvez apareça um dia alguém querendo compará-lo ao Ojos del Salado, o gigantesco vulcão chileno com encosta em pedras soltas.
Sua trilha tem apenas dois trechos distintos: cascalho no começo e rocha sempre depois. Curiosamente, você acompanhará no início uma adutora de água que escoa um reservatório na encosta da montanha. Logo a partir dele, na altitude de 400 metros, você encontrará a rampa rochosa e fraturada, que subirá num trajeto aproximadamente sinuoso.
Você avançará no sentido de umas árvores curiosamente isoladas – depois delas, a trilha se tornará mais fácil e contínua. Quando tiver subido, você notará que a encosta oposta possui também estranhas árvores plantadas na rocha, são três antigas oiticicas. Ninguém sabe como puderam crescer e resistir ao ambiente inóspito. Esse conjunto de rocha vulcânica certamente forma um microambiente peculiar.

O trecho final da trilha que contorna a montanha.
O cume é um amplo espaço arenoso a 590 metros, após uma subida relativamente moderada de 400 metros. A trilha é no rumo sul, acredito que com algo menos de 3 km. Normalmente se sobe o Cabugi de madrugada ou de tarde – no primeiro caso para um bate-e-volta e, no segundo, para um acampamento de cume. Nos dois casos, para escapar ao calor emanado pelas rochas aquecidas.
Por estar isolado num ambiente plano, o Cabugi não desfruta de uma vista tão interessante. O mar está longe demais para ser visível sem as lunetas coloniais e, nas proximidades, surgem apenas alguns serrotes isolados. Acredito que os espelhos dos poucos rios não possam ser vistos. É um visual pálido e cinza na seca, que se transforma em verdejante nas primeiras chuvas.

Pico do Cabugi visto da Serra do Feiticeiro (Fonte – embuscadeaventura).
Mas você poderá avistar no interior o relevo da Serra do Feiticeiro, que integra mais além a formação de Santana, uma das principais do Estado. O humilde Cabugizinho estará ao lado e o plano e imenso sertão, a toda a sua volta. Ele tomou o lugar do mar quando este recuou pela última vez – e o sertão inundou todo o interior com a aspereza de sua caatinga.









