O casamento de um montanhista

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Lilianne e eu nos conhecemos exatamente 57 meses atrás. Foi amor à primeira vista. Na época eu estava desempregado, recém chegado da mochilada que me ingressou no montanhismo, então tinha tempo. Vim pra São Paulo pra conhecê-la. Peguei um vôo pra passar o final de semana e acabei ficando dez dias. Antes de voltar pro Rio de Janeiro, meu local de nascimento e onde morei até abril de 2007, a pedi em namoro e ela disse sim! Vou contar um pouco de nossa História no meio do montanhismo.

Depois de minha visita em São Paulo ela foi ao RJ me ver, passamos o final de semana juntos. Depois de uns quinze dias ela foi de novo e dessa vez me disse que minha sogra me convidou a ficar com ela até conseguir um emprego. Fantástico já que eu planejava mesmo sair do Rio de Janeiro. Muita violência, muito calor, muito sol…Em duas semana vendi tudo que tinha, o que não consegui vender enfiei em quatro mochilas e o que não deu nas mochilas deixei na casa que era alugada. Fui embora pra São Paulo.

E assim começou a História de minha vida com minha esposa Lilianne Schmidt. Nos primeiros seis meses eu buscava por emprego desesperadamente e não conseguia. Até de garçom no Outback tentei, mas encontrar emprego na cidade de São Paulo não é fácil, só na capital são 19.200.000 de pessoas e no estado inteiro passa de quarenta milhões. Diabos isso é gente pra burro! É muita mão de obra qualificada e brigar por emprego é por si só um trabalho.

Bem, quando consegui um emprego foi ótimo já que sou muito dedicado, determinado e perfeccionista no que faço, o que sempre me dá bons frutos. Em só três meses fui promovido, depois de sete de novo, bem, em só quatorze meses eu tinha sido promovido quatro vezes e já liderava o departamento. Eu estava bem no emprego, ganhando relativamente bem, mas algo faltava. Lá eu só tive tempo pra me dedicar a alta montanha uma vez em dois anos e eu queria mais, foi quando decidi sair e poder colocar em prática o projeto Quanto Mais melhor. O fiz em dezembro de 2009. Fui pras montanhas e depois de 75 dias voltei pra casa com duas primeiras ascensões brasileiras. De novo, a Lilianne me apoiou desde o início, e o mais impressionante, me esperou.

Nesse meio tempo, ela teve férias, então acabamos indo juntos pra Europa! Vinte dias mochilando juntos por nove países no velho continente. Depois ela voltou e eu fui rumo a Vossa Majestade Mont Blanc, passando antes pela Suíça, décimo país pra mim na viagem.

Escalei com sucesso, dormi nas ruas de Zurich por três noites, e bum: De volta ao Brasil, procurando emprego de novo. Mais uma vez, Lili me deu suporte todo tempo.

O ano novo veio e nada de emprego, então entreguei a casa que tinha alugada, vendi metade das minhas coisas e fui pra uma nova expedição, Equador. Dia primeiro de janeiro peguei um vôo pra Colômbia e de lá outro vôo pra Quito chegando lá depois de meia noite, na manhã seguinte já fiz cume no Rucu Pichincha sozinho, sem comer e sem ter água, foi pauleira mas consegui.

A viagem como um todo não foi boa, nevou no país como não nevava fazia quase quarenta anos, e dos dez cumes que planejei pra vinte e dois dias, só fiz quatro. E tentei cinco montanhas. As outras cinco nem tive chance de pisar, o Cotopaxi só consegui na terceira tentativa por causa de mau tempo. Mas, valeu a experiência. Depois das três semanas voltei pra casa de novo procurando emprego.

Dessa vez veio rápido! No final de fevereiro fiz uma entrevista, dois dias depois uma outra e comecei no emprego dia primeiro de março, então já estou no comando da ACF faz dez meses. Como o tempo voa! É um emprego muito bom, e pela primeira vez na vida posso dizer que trabalho em um lugar onde o dinheiro que ganho é de um negócio que tem princípios. Junto com o cargo vem muito estresse, responsabilidade (90 funcionários e 570 atendidos), mas posso cuidar de tudo, vale a pena. Lilianne sempre esteve ao meu lado, o tempo todo, e continua.

Mas, o que eu não disse a ninguém antes é que, enquanto estávamos em Veneza na Itália fazendo um passeio de barco, eu a pedi em casamento! Ela disse sim! Fui romântico até hein…hehehe. Desde então vínhamos planejando como fazer nosso casório sem gastar muito.

Aconteceu oficialmente no cartório no dia 15 de outubro deste ano, e mudei meu nome de Paulo Roberto Felipe da Silva para Paulo Roberto Felipe Schmidt, olha que bom, nem o Parofes precisa mudar ahahahahha……

O nosso jantar de casamento aconteceu no dia 3 de dezembro, semana retrasada. A maioria da família dela estava mas de meu lado, quase ninguém. Minha mãe não é viva, meu pai é louco e não fala comigo, minha irmã mais nova veio e foi bom pois não nos víamos faz mais de quatro anos, minha irmã mais velha não pode vir por problemas de datas…Bem, chato, mas faz parte. Pelo menos todo mundo gostou do nosso bolo (o bolo cenográfico eu e Lili que fizemos!!!), nossos bonequinhos, o jantar foi maravilhoso, todos gostaram.

Agora a parte que mais esperávamos, lua de mel!

Deixamos São Paulo na madrugada do dia 4 ainda, antes do sol nascer. Um vôo até BsAs, de lá mais um até Ushuaia, e de lá um terceiro vôo no mesmo dia pra El Calafate. Patagônia povo!

A Patagônia é um lugar fantástico pra se conhecer seja escalador ou não, vale desde crianças até terceira idade ou pra lua de mel. Lá fomos nós! Aliás, adiamos nossa ida a Patagônia uma vez em 2009. O dinheiro não influenciou em nada na decisão do lugar, já que queríamos mesmo é voltar a Europa pra pisar em mais meia dúzia de países, mas o tempo que se gasta pra chegar e sair de lá, não valeria a pena. Dinheiro por dinheiro, ir pra Patagônia é tão caro quanto. Simbora.

É claro, nosso objetivo principal era Perito Moreno!!! Que lugar singular…Uma das maiores experiências de beleza que eu tive, e arrisco falar que a maior da Lili. Ela quase morreu literalmente pra conseguir vencer a moraina só na aproximação, antes mesmo de pisarmos no gelo, mas continuou como se estivesse em uma missão, não reclamou, não fez cara feia, não se arrependeu nem nada.

Uma vez na beira do glaciar, colocamos os crampons e entramos no gelo, primeira vez da Lili em uma geleira aos 27 aninhos.



Sobre o glaciar andamos por quase quatro horas, já que nosso trekking era o Big Ice, o mais caro no glaciar, e fizemos com a melhor companhia lá. Na verdade eu gostaria que fossemos só nós dois, mas fazer o trekking na geleira sem guias autorizados hoje em dia é proibido, e a Lili não se sentiria segura mesmo.

Cavernas azuis, lagos azuis, gretas em cor púrpura, nossa, nunca vi tanto azul na vida. Chegava a doer de olhar mesmo de óculos julbo nos olhos. Lilianne adorou tudo de ponta a ponta e mesmo exausta, exaurida no final de sete horas andando, me disse o que eu queria ouvir: "Amor, valeu a pena, você tinha razão, é incrível".

Quando deu sete da noite estávamos de volta ao nosso mais que chique chalé de madeira (Solares Del Sur) com sala, cozinha, banheiro e quarto, e eu cozinhei nosso jantar. Fiz uma salada e um bife típico argentino acebolado (toque brasileiro). Nossa, tínhamos até varanda gramada com vista privilegiada pro Lago Argentino, Bahia Redonda e Flamingos a só 500m à frente…

A cidade em si, El calafate, cresceu grotescamente desde a inauguração do aeroporto em 2001, quando a população era de 5000 pessoas. Hoje, só dez anos depois, chega a 22.000 pessoas. A cidade está coberta de hotéis, pousadas, chalés, albergues, agências de turismo e restaurantes. Atende muito bem a escaladores passando por ali, turistas de todas as idades, todo mundo.

No terceiro dia pegamos nosso quarto vôo, de volta pra Ushuaia, agora sim pra ficar na cidade. Cidade conhecida como fim do mundo mas na verdade não é, mais ao sul há uma última, Puerto Mont, já na ilha de Navarino.

Nossa, amamos a cidade…Pra viver e não pra turismo!!! Muito, muito aconchegante, comida fantástica, pessoas divertidas, neve, gelo, calor (relativamente, entre 5 e 15 graus no verão hehehe), e ainda tem o Parque Nacional Tierra Del Fuego repleto de vida selvagem, árvores lindas, muitas e muitas montanhas. Todas são pequenas mas representam uma dificuldade de acordo com o terreno de lá. A maior é o Monte Olívia visível da cidade, de 1.326 metros. Mas na base a altitude é de só 260 metros. Mais de mil metros de desnível, dependendo da rota, há até verglass pra encarar já que ele tem um glaciar!

Muito potencial pra vias tradicionais de escalada em rocha, via ferrata, etc. Que lugar…a cidade está cercada por cerca de 40 montanhas como o Monte Olívia, que variam de 900 metros a 1300 metros de altitude, imagino rotas invernais neste lugar. Devem testar o psicológico bem…

Um ponto a mais pra Lili! Levei-a na borda do glaciar martial no pé do Cerro Martial (1000m), e ela pisou na neve pela primeira vez! Agora só falta uma nevasca pra ela…hehehe


Bem, as fotos falam por si só…o Lugar é incrível, infelizmente lua de mel dura pouco, e depois de três dias mais voltamos pra casa no quinto e sexto vôos. No total foram sete dias incríveis e 6GB de fotos e vídeos, que estou catalogando, montando as panorâmicas, publicando aos poucos…

Bem, estamos juntos há quatro anos e nove meses, casados há dois meses, felizes (pelo menos eu sei que estou e acredito que ela esteja hehehe), temos a vida inteira pela frente, e finalmente podemos dizer que fomos a Patagônia! A próxima viagem provavelmente será Europa de novo, mas isso será uma outra História pra eu contar…

Para ver mais vídeos, acesse: www.youtube.com/parofes

Para ver mais fotos, acesse: www.parofess.blogspot.com

 

Abrazos a todos

Parofes

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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