O Fogo e o Gelo

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Vou lhe falar de um dos países mais surpreendentes do planeta, seja por sua situação e geografia ou por seu clima e seu povo. Não sei se voltarei lá no futuro, mas desconfio que suas imagens e sensações continuarão me acompanhando por todo o futuro.

A Islândia é uma ilha de tamanho moderado, parecido com a Irlanda e 2 ½ vezes menor do que o Reino Unido. Seus 100 mil km², entretanto, parecem perdidos na vastidão do Atlântico Norte, entre a Escandinávia e a Groenlândia. Repare que ela é tangenciada pelo Círculo Ártico, indicando uma posição quase polar.

Localização da Islândia.

Curiosamente, a ilha só foi ocupada permanentemente bem tarde, por volta de 870, certamente devido aos mares perigosos. Ao se aproximar do litoral, o norueguês Ingolfur Arnarson atirou dois remos do seu navio, que chegaram à península de Reykjavík, onde se estabeleceu. Depois dele, vieram várias tribos norueguesas, que rapidamente ocuparam o território.

O parlamento islandês é o mais antigo do mundo, datando de 930, e seus chefes feudais se reuniam a cada verão para resolver disputas. Mas não havia um poder central, o que levou a um período sangrento de conflitos políticos, até que a ilha passou ao domínio da Noruega em 1260. Porém Noruega e Dinamarca foram nações unidas até o século XIX. Quando se separaram, a Islândia coube aos dinamarqueses.

Barco do início da era dos vikings.

Entretanto, o movimento separatista liderado nesta época por Jon Sigurdsson acabou frutificando no século seguinte. A Islândia tornou-se independente de forma pacífica, ao fim da II Grande Guerra. Pouco antes, no auge da guerra, havia mais soldados americanos na ilha do que islandeses adultos.

O governo do país investiu em modernizar a frota pesqueira e desenvolver a agricultura – e a Islândia deixou de ser a mais pobre nação da Europa a partir dos anos 1960.

O modelo escandinavo de bem estar social foi adotado, embora o país fosse então dominado por 14 familias – o Grupo Octopus controlava os bancos, o comércio, a pesca, a política e a comunicação social. A burocracia, a polícia e o exército eram também comandados pelo Octopus. Parece familiar a você?

Até que a economia foi liberalizada pelo Primeiro Ministro David Oddsson nos anos 1990. Isso causou um aumento da desigualdade social. Entretanto, o índice IDH atual, que mede o desenvolvimento social, é de 0.95, simplesmente o quarto melhor do mundo. Compare com o nosso 0.75, com quase 90 nações à frente do Brasil.

Apesar de uma profunda crise financeira no início deste século, a Islândia é um país próspero, com renda/capita quase dez vezes a brasileira e uma economia diversificada.

A energia geotérmica na Islândia.

Seu povo é um dos mais felizes do planeta, com acesso a educação e saúde sob grande igualdade social. Possui a água e a energia mais limpas do mundo. Apesar de ser membro da OTAN, a Islândia hoje não possui exército, apenas polícia e guarda costeira – e é um dos países mais seguros do mundo.

Os estudos de DNA mostram que os homens islandeses que vieram originariamente da Noruega, eram provavelmente humildes fazendeiros ameaçados, não heroicos guerreiros vikings.

Mas os viajantes da Idade Média não navegavam com suas esposas. As mulheres da ilha são descendentes de escravas celtas, capturadas nas Ilhas Britânicas. Assim, existem dois diferentes bancos genéticos originários no país.

Reykjavík com a igreja de Hallgrimskirkja.

A população da Islândia é de 370 mil pessoas – algo como as cidades de Pelotas, Uberaba ou Petrolina. A capital Reykjavík tem o tamanho de uma cidade interiorana média no Brasil. O relativo isolamento do país criou um alto grau de parentesco.

Os islandeses não possuem sobrenomes, quero dizer, apenas adicionam son ao nome do pai (como Peterson) ou dóttir ao da mãe (como Johannadottir). Há um arquivo sobre a genealogia e um comitê de nomeação para controlar a situação.

Devido ao baixo crescimento e à alta expectativa de vida, a população é relativamente idosa (média de 38 anos). Falam a antiga lingua nórdica (Old Norse), que não evoluiu, por isso são capazes de ler textos de oito séculos atrás. É política do país evitar a introdução de palavras estrangeiras. Assim como não há ferrovias, não há também dialetos. E cheiros: o país me pareceu completamente inodoro.

Sendo durante muito tempo um povo basicamente autóctone, diferentemente da Arca de Noé de algumas nações europeias, a Islândia conseguiu presevar sua cultura. Os laços de parentesco e a religião luterana permaneceram muito importantes no país. E até hoje ainda existem adeptos do paganismo nórdico.

Veja por exemplo que antigamente não havia instrumentos musicais, por isso há uma tradição de música folclórica vocal, que pode retroceder até os vikings, com ritmos que já desapareceram no resto da Escandinávia.

A música eletrônica, atmosférica e experimental de Bjork tornou-a a mais conhecida artista da Islândia.

A primeira produção da cantora Bjork foram canções tradicionais de seu país, antes de aderir ao punk, pop e rock. E as festas tradicionais continuam ativamente comemoradas.

Também a culinária mantém os pratos que eram originalmente fermentados ou defumados, para que pudessem ser conservados. E o consumo de álcool permanece alto. Lendas e figuras mitológicas não desaparecram da cultura, onde o folclore é valorizado.

E as sagas, que são histórias do período da colonização no século X, formam um acervo impressionante de meia centena de relatos, uma memória social que ainda inspira a cultura islandesa. Ao contrário de brasileiros que nunca leram um livro, um em cada dez islandeses já publicou pelo menos uma obra.

As sagas islandesas.

Mas essa situação me parece ilusória. Assim como os árabes, os islandeses evitam os empregos simples e pobres. O turismo crescente favoreceu a imigração anual média de 10 mil jovens nos últimos vinte anos – garçons, guias, faxineiros, recepcionistas.

Hoje 20% da população é estranjeira, sem conhecimento da lingua e sem laços com a cultura. Quase sempre, é com eles e não com os nativos que você irá interagir. Assim, a Islândia virou um país de forasteiros.

Mas essa situação não me parece clara, pois existe uma elevada emigração, e em todos os anos. Talvez jovens nativos buscando no exterior educacões avançadas ou empregos inovadores, idosos aposentando-se ao calor das praias ibéricas ou forasteiros retornando a seus países de origem.

O povo é considerado liberal e progressista, com alta tolerância e igualdade de gênero. Mas o aspecto austero da população mais velha me deixou muitas vezes em dúvida.

Talvez haja uma outra divisão social que não a de nativos vs. imigrantes. Ou seja, aquela entre idosos conservadores e jovens liberais. Ou ainda entre a capital avançada e populosa e o interior despovoado tradicional. A sociedade islandesa parece bem diferente da europeia – e acredito que eles têm noção da sua identidade única.

A formação da Islândia é inteiramente vulcânica, resultando de duas situações. A primeira é a enorme Dorsal Meso-Atlântica, que percorre por inacreditáveis 11 mil km o assoalho do oceano.

Essa cordilheira aflora em apenas em poucos locais, como nos Açores e nas Bermudas, mas a Islândia é de longe sua maior (e última) presença emersa. Ela é um dos hotspots, onde as plumas magma fervente se aproximam da crosta.

As placas tectônicas da Islândia.

A Dorsal decorre do afastamento das placas tectônicas, que estão fazendo o Atlântico aumentar até 10 cm a cada ano. Porém duas delas colidem exatamente sobre a ilha: as enormes Placas Norteamericana e Euroasiática, com 70 e 40 milhões de km². A ilha da Islândia foi formada 25 milhões de anos atrás pelo magma ejetado da fenda entre elas.

Mas a enorme cicatriz geológica que percorre a Islândia de SW a NE forma uma área de instabilidade da qual emergem frequentes irrupções. No momento em que escrevo, foram sete delas a partir do atual século. A mais recente ocorreu na Península de Reykjanes, com uma lava que os cientistas não conseguem explicar.

A primeira erupção teria ocorrido 16-10 milhões de anos atrás. A pior da história foi a do Vulcão Laki (o único nome curto que achei até agora, embora haja versões mais longas dele) em 1783, no sul do país.

Metade da vida animal e um quarto da vida humana foram destruídos pela contaminação do solo e envenenamento do ar, durante os oito meses do fenômeno. Os efeitos das colunas de 15 km de gases repercutiram no mundo inteiro, da Ásia e Europa à África e América.

A erupção também no sul em 2010 do Eyjafjallajokull (mais um nome complicadíssimo) acarretou a paralisação generalizada dos voos na Europa, causando uma espécie de efeito dominó em todo o mundo.

Foi este evento que tornou o país mais conhecido e desencadeou o fluxo turístico. Há cadeias como o Hekla ou o Katla que irromperam entre 20 e 40 vezes cada ao longo da história.

A mais recente erupção em Reykjanes. Veja o público assistindo ao redor.

São nada menos do que 30 cinturões vulcânicos, com provavelmente 250 vulcões, atravessando numa diagonal o país inteiro. Quando a Islândia derrotou a Inglaterra num jogo histórico pela Eurocopa, o atacante Lineker comentou: perdemos para um país que tem mais vulcões do que jogadores.

O relevo islandês é formado por planaltos e montanhas, com uma altitude média de 550 metros. O impronunciável ponto culminante do país é uma corcova a 2.100 metros de altitude.

As geleiras, que recobrem cerca de 10% da área total, tiveram um importante papel na modelagem do relevo, incluindo os profundos fiordes do litoral norte. O maior glaciar é Vatnajokull com 8 mil km².

Aproximadamente 60% da Islândia é um deserto de lava, em especial nos planaltos do interior, sem cobertura vegetal constante. Isto dá ao país um aspecto rude e desolado. Isto explica por que é tão procurado por cineastas e astronautas.

E apenas 25% é recoberto pela vegetação contínua de taiga (pequenas coníferas como bétulas nos solos rasos do sul) e tundra (relvas e musgos rasteiros nas regiões de permafrost do norte), e ainda assim boa parte dela é alagada.

Paisagem glacial em Hófn.

A biodiversidade é naturalmente reduzida, neste mundo de solo pobre e clima gélido.  Veja que praticamente não mais existem florestas no país. Porém antigamente elas se estendiam do alto das montanhas até a costa do mar. Hoje só as bétulas lenhosas e arbustivas, junto com escassos salgueiros e sorveiras, são visíveis.

Os rios são naturalmente pequenos, fluindo dos glaciares ou das montanhas. Mas seus caudais são fortes, com grandes quedas d´água, como Skogafoss e Gullfoss. Isto  favoreceu a operação de muitas hidrelétricas no país. A geração geotérmica também é importante, de forma que praticamente toda a energia gerada é limpa – e também barata.

A cachoeira de Skogafoss no inverno.

A Islândia é beneficiada pela passagem no seu bordo esquerdo da quente e forte Corrente do Golfo, a conhecida Gulfstream. A fria Corrente do Labrador vem da Groenlândia, resfriando o norte da ilha. Assim, ela é uma fronteira entre o Atlântico morno e o Ártico gelado. Seu clima varia desde temperado a polar, sendo mais ameno do que sua alta latitude indicaria.

O inverno vai de dezembro a março e o verão, de junho a setembro. Venta muito e faz muito frio no inverno, algo como -5⁰C. No verão, o clima chega a ser morno, com 25⁰C.

Prepare-se para dias de 10 a 20 horas, com dias escuros até quase as 8 hs da manhã no inverno e, inversamente, dias iluminados além das 8 hs da noite no verão. Mas existe também o sol da meia-noite, que acontece na Ilha de Grimsey.

Mais da metade dos dias são nublados. Chove bastante, algo como um a cada três dias, e em todas as estações, tornando o clima imprevisível. São no total de 1.500 mm no ano, sendo 2/3 chuva e 1/3 neve. Levando em conta todos os fatores, foi definido um índice de turismo com a estação mais favorável sendo de meados de junho ao fim de setembro.

A aurora boreal e a montanha de Kirkjufell.

Mas o grande evento climático da Islândia é a aurora boreal, que os europeus chamam de Northern Lights. Os ventos solares (que contêm plasma carregado de energia), ao entrarem em contato com o campo magnético terrestre, formam nas regiões do Norte impressionantes fluorescências em direção ao Polo.

São curiosos desenhos coloridos, principalmente verdes e vermelhos (gases de O2) ou azuis e violetas (gases de N2). A aurora pode ser observada em especial nas noites limpas de inverno.

A fauna da Islândia só é realmente rica nos quase 6 mil km do litoral muito recortado da ilha. Existe uma grande variedade de peixes (bacalhau, haddock, salmão, truta) e de frutos do mar (camarão, cavala, mexilhão). Os cetáceos mais avistadas são as jubartes e os golfinhos, e as caçadas são as baleias fin e minke.

O maior baleeiro islandês é Kristjan Loftsson, que há meio século segue exterminando as baleias: É profundamente lamentável que um único baleeiro islandês apoiado pelo governo esteja minando a proibição global da caça comercial, que existe para garantir o futuro das baleias do mundo, comenta John Sauven do Geenpeace.

Essa baleia pode ser avistada de Reykjavik.

Existem cerca de 40 mil baleias fin à volta da Islândia, diz Loftsson, acrescentando que a cota anual é algo como 160. Portanto, podemos continuar para sempre. Felizmente, na sua idade acima dos 80, ele mesmo não irá continuar para sempre. E espero que sua empresa Hvalur (baleia em islandês) não sobreviva a ele.

Antes de abandonar esse assunto, apenas considere que uma baleia fin tem o tamanho de um avião comercial e o peso de dez elefantes grandes. Para mim, é um dos mais magníficos emblemas da natureza. Seu canto é de todos o de maior alcance e sua vida é de todas a mais longa. Quando não abreviada pela Hvalur.

Os mamíferos terrestres nativos da Islândia limitam-se às belas e tristes raposas do ártico. Voam pelos ares os papagaios do mar (os simpáticos puffins), as andorinhas, os patos, as gaivotas e os albatrozes. Vários animais foram introduzidos, como minks ou visons, cabras, cães pastores e renas.

Raposa do ártico.

Papagaio do mar.

O prato típico svid, lá comem de tudo.

Duas espécies trazidas tornaram-se importantes: as ovelhas e os cavalos islandeses. Os cavalos são pequenos, fortes e longevos; foram mantidos puros por mais de mil anos.

Assim como os cavalos, as ovelhas vieram da Noruega. São mais populosas na ilha do que os humanos. Elas fornecem a principal opção de carne aos abundantes pescados.

Mas os islandeses costumam também se deliciar com a carne dos cavalos, dos papagaios do mar, das renas e até das baleias minke. Que eu saiba, só não comem por enquanto as suas raposas.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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