O Sertãozinho do Tietê

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Apesar de residir em São Paulo, é curioso como tenha escrito tão pouco sobre a natureza paulista, acho que não mais de dez artigos, dentre centenas deles ao longo dos anos. Foi por insistência do montanhista Jorge Soto que vim a conhecer esta pequena serra na região de Mogi das Cruzes, uma cidade perto da capital. Possui uma história bem peculiar, embora sem montanhas tão altas ou natureza tão exuberante.

 O Acesso

Se você deixar a cidade de Mogi das Cruzes com destino ao litoral, dificilmente perceberá que está atravessando uma pequena serra, após ter percorrido os primeiros 20 km da Rodovia Mogi-Bertioga. Esta serra é a última manifestação do planalto, antes que você mergulhe nas escarpas da Serra do Mar rumo à cidade praiana de Bertioga.

Então, passe pela entrada de Biritiba Mirim e prossiga no asfalto até Manuel Ferreira, um discreto bairro quase às margens da rodovia. Pertence ao município de Biritiba Mirim. É uma área rural um tanto acanhada e anônima, com pequenas fazendas e algumas chácaras e reflorestamentos.

Vou chamar essa região de Sertãozinho do Tietê, você logo saberá por que, ela não tem um nome oficial. É neste ponto que você deve abandonar a rodovia e encontrar a natureza no interior da serra.

Biritiba Mirim

O Rio Tietê nasce perto, em Salesópolis, e cruza ainda jovem a região. Chega a correr a meras duas dezenas de km do litoral, mas a Serra do Mar empurra-o para o interior do Estado, onde ele encontra sua foz mais de mil km depois. Durante a colonização, o Tietê foi uma ativa rota de penetração do território paulista, permitindo atingir através dele o interior do Brasil.

O Alto Tietê é ainda em Mogi um rio modesto (Fonte – Flickr – creative commons – Fernando Stankuns).

Pois creio que foi a presença do Tietê, bem como de uma rede de afluentes, que explicam por que esta região foi desde cedo atravessada pelos bandeirantes. Eles com frequência marcavam com cruzes os caminhos percorridos. Foi numa estrada que margeia o rio onde surgiu o primeiro povoado – é hoje Biritiba Mirim.

Com o tempo, a vizinha Mogi das Cruzes cresceu muito mais, beneficiada pelo trânsito dos tropeiros e bandeirantes que se seguiram ao sertanista Brás Cubas e, depois, pelas culturas do fumo, café e algodão. Biritiba dela fazia parte, mas se emancipou meio século atrás. É nela que estão as montanhas que descrevo a seguir.

 

A Adutora     

A existência da malha hídrica, com cerca de uma dezena e meia de rios em Biritiba – além daqueles em municípios próximos – favoreceu a construção de barragens, seja para geração de eletricidade ou coleta de água. A que nos interessa é a de Rio Claro, cuja adutora foi então a maior obra pública em Mogi. Era bem extensa, suas tubulações chegavam até o bairro paulistano da Mooca.

Foto antiga da adutora de Rio Claro.

Na época, compartilhava com Guarapiranga o abastecimento de toda a capital. Hoje, o conjunto a que pertence (chamado de Alto Tietê) corresponde apenas à metade do tão comentado Sistema Cantareira. Ao chegar em Manuel Ferreira, você logo verá seus escuros dutos metálicos, correndo estranhamente paralelos à estradinha de terra – ela é importante, será seu acesso às montanhas.

 

A Serrinha

Fica nesta região uma sucessão de picos, alguns dos quais rochosos, que integram o que estou chamando de Serra do Sertãozinho do Tietê. Esse nome aparece nos mapas da região, exatamente onde fica nossa área de interesse. São formações modestas, entre 850 e 1.080 metros de altitude, com encostas recobertas de vegetação. Elas abraçam os dois lados da estradinha de terra que prossegue a partir de Manuel Ferreira.

Eu diria que estas formações montanhosas estão dispostas ao longo de um contorno vagamente oval, com 15 a 20 km de comprimento, de ambos os lados da Mogi-Bertioga. Desta forma, elas circundam a região baixa da estrada, que pertence à bacia do Rio Biritiba Mirim.

Região de Biritiba Mirim, com o Pico do Itapanhaú.

 

Isto parece tornar esta área bastante abafada nos dias quentes. Mas é dela que você poderá subir até os picos à sua volta e até mesmo ensaiar algumas travessias entre eles. Mas, neste caso, terá de conviver com o relevo acidentado, a mata interferente e a dificuldade de orientação. Na realidade, existe hoje a travessia entre os cinco picos comentados neste texto. 

A vegetação, assim como a topografia, é bastante mexida, com uma sucessão de diferentes plantas, desde as verduras das plantações, as gramíneas das pastagens, as tabocas dos brejos, os eucaliptos dos reflorestamentos e os angicos e cedros da mata atlântica. A fauna é naturalmente de pequeno porte: pacas, capivaras, macucos, tucanos.

Confesso que não é um visual particularmente impressionante, pois pertencendo à região elevada do planalto, a floresta não tem a exuberância da Mata Atlântica nem as montanhas apresentam a verticalidade da Serra do Mar, que ficam logo abaixo.

 

Dois Parques

Por estar na borda do planalto, esta região é sujeita a persistentes neblinas. A Suzano, produtora de papel e celulose, implantou no antigo Sertão dos Freires uma pequena reserva chamada Parque das Neblinas.

Lá você poderá desfrutar dos remansos do Rio Itatinga, bem como da espetacular vista panorâmica do litoral santista. Existe aqui uma outra adutora que desce até a orla, uma obra cênica e arrojada, belamente construída em impressionantes arcos de alvenaria. Foi nesse local que fiz uma de minhas primeiras travessias.

A impressionante Cachoeira do Elefante (Fonte – Wikimedia Commons).

E, logo a sul, começa o formidável PE da Serra do Mar, o maior do Estado.  Uma de suas principais trilhas é chamada de Mogi-Bertioga, que desce mata adentro, até alcançar o litoral.

É um caminho íngreme e difícil, dentro de uma natureza selvagem e às vezes desorientadora. Sua principal atração é a enorme Cachoeira do Elefante, que surge de forma maravilhosa no interior da floresta exuberante. Terminar uma trilha como essa na areia da praia é uma recompensa bem especial.

 

A Pedra do Sapo    

Voltando ao começo, o primeiro pico que é avistado de baixo pela estradinha de terra é a Pedra do Sapo (960 metros), que aos poucos emerge da densa vegetação logo à sua direita. Você terá de caminhar por uma estradinha, atravessar uma porteira e subir por uma trilha discreta e agradável dentro da mata secundária.

Chegará a uma laje plana chamada Pedra da Forquilha. De lá, subirá por corda num pequeno trecho empinado até o Sapo. É até bonita a vista dos altos do Sapo, pois o relevo é bastante ondulado, com uma série de montanhas à sua frente.

Pedra do Sapo com Itapanhaú com Peito de Moça ao Fundo (Fonte – wikimapia).

Em particular, o cume triangular do Pico do Gavião ou Peito de Moça (1.030 metros) e o corpo elevado do Itapanhaú, com sua antena de telefonia. Ele é o ponto culminante da serrinha, com 1.080 metros. Note que seu nome também designa o rio que nasce na região, forma a Cachoeira do Elefante e deságua no mar de Bertioga, sendo o maior curso do litoral paulista.

Para a volta, existe uma variante à sua esquerda, que é mais curta e íngreme. Em vários pontos existem cordas fixas, dada a declividade da descida. Este caminho é usado por praticantes de rapel. Repare que você sairá num portão pelo qual já havia passado na ida.

 

O Pico da Esplanada

Se você prosseguir mais longamente pela estradinha de terra do relato anterior, poderá alcançar o Pico da Esplanada (1.050 metros). Seu início acontece dentro do reflorestamento da Fazenda Casa Verde pertencente à Suzano, exatamente onde existe uma placa indicativa. Você a verá logo após uma construção branca um tanto estranha à sua direita – não parece, mas é a Igreja da Fonte Celestial.

Picos do Garrafão e da Esplanada (Fonte – Jorge Soto).

De novo, subirá dentro da encosta da mata num caminho suavemente ascendente, até alcançar o rochoso, a norte do anterior. Veja como a vegetação irá variando desde os eucaliptos iniciais até a mata rala, que tem um aspecto nebular um tanto ameaçador. À medida em que solo for se tornando rochoso, as árvores darão lugar aos arbustos, gramíneas e musgos.

Note que, quando você atingir a rocha, deixará de subir, pois estará percorrendo um grande domo horizontal, semelhante à esplanada que dá nome a esta pedra. Você avistará a leste o litoral, a oeste as represas e, vagamente a sul, a Pedra do Garrafão, com aproximadamente a mesma altitude.

Na volta, você talvez seja tentado a prosseguir ao invés de retornar na estrada, pois ela se dirige à vila de Biritiba Mirim, embora com maior distância. É um vilarejo modesto, mas com um centro bem simpático e acolhedor.

O Casarão do Chá, construído em 1942 pelo mestre-carpinteiro Kazuo Hanaoka.

Se você retornar à Rodovia Mogi-Bertioga, convém descer à direita no Trevo de Taiaçupeba e conhecer o surpreendente Casarão do Chá. Existiu na época da Grande Guerra uma fábrica processadora de chá preto, que era plantado lá mesmo.

É uma preciosa (que eu saiba, única) mistura entre as técnicas da taipa de pilão cabocla e do telhado em trama sem prego japonês. Reformada milagrosamente pela Prefeitura, será um surpreendente programa para o seu fim de semana.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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