O Vulcão Brasil

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Você imaginaria que o Brasil possui o mais antigo vulcão conhecido do mundo? Essa notícia circulava há vinte anos sem muito crédito nos meios científicos. Até que suas evidências foram sendo confirmadas – e o Vulcão Brasil se tornou uma realidade entre os geólogos e, depois, um sucesso junto à mídia.

O pequeno continente Ur talvez tenha sido o primeiro, por volta de 3 bilhões de anos atrás.

Quando a Terra se formou, não existiam continentes, apenas rochas. O primeiro continente teria sido Ur, formado há 3 bilhões de anos. Ur significa primordial. Mas não era grande, pois a maior parte da massa terrestre estava dispersa em pequenas ilhas graníticas. Ur pode ter sucedido um continente anterior, mas por outro lado dele resultou o primeiro supercontinente.

Colúmbia surgiu há cerca de 2 bilhões de anos. Seu nome remete a uma região basáltica no que é hoje os Estados Unidos. Formou-se por aglutinação das massas terrestres mostradas na figura, através da subducção (colisão entre si, seguida de afundamento) das placas tectônicas.

Nesta época o magma era fluido e facilitava a movimentação tectônica. Dos atritos e choques entre as placas surgiram inúmeros vulcões. Colúmbia existiu por 300 milhões de anos, até se fragmentar e ser substituída pelo supercontinente Rodínia a partir de 1 bilhão de anos. Mas Rodínia também acabou sendo separada em oito novos  continentes.

O supercontinente Colúmbia ou Nuna teria existido a partir de 1.8 bilhões de anos. Laurêntia é a América do Norte e Báltica é parte da Europa.

Antes dessa época, Theia já havia colidido com a Terra, a Lua havia se formado e o planeta havia sido bombardeado por meteoritos. Já existiam então o clima, o oceano e a vida, mas ainda não as plantas. No período proterozóico, o planeta era muito quente, devido à maior radiação do interior da Terra. As rochas eram escarpadas e os mares, quentes e rasos.

As bactérias primitivas, através da fotossíntese, liberaram pela primeira vez o oxigênio no ar. A partir de então, a atmosfera já não seria mais feita por metano e gás carbônico – e sim nitrogênio e oxigênio, como hoje. E surgiram os eucariotas, células com núcleo, que originarão todos os demais organismos complexos da vida.

Há cerca de 2 bilhões de anos, teria havido uma intensa subducção da placa oceânica, mergulhando para baixo da placa continental de Colúmbia. Sabe-se que o magma aquecido do interior do planeta costuma fluir pelos condutos e fendas abertos pelo tectonismo. O vulcanismo expele lavas, cinzas, rochas e gases, remodelando de forma violenta a paisagem.

O mundo infernal do proterozoico.

Diz o geólogo Caetano Juliani que ao longo da formação da Terra, a Amazônia foi um campo gigante de vulcões ativos … Aquilo era o inferno na Terra. As atividades vulcânicas eram muito explosivas, com volumes gigantescos arremessados de dentro das câmaras magmáticas subterrâneas.

A Amazônia era desértica, pois não havia então vegetação. Aconteceram erupções muito remotas, de 3.0 e 2.5 bilhões de anos passados. Houve então quatro eventos importantes entre 2.1 e 1.8 bilhões de anos. Esse ciclo vulcânico teria durado algo como 40 milhões de anos, mas a rigor só se extinguiu 1 bilhão de anos depois.

O primeiro dos vulcões ancestrais foi descoberto em 2000 entre os Rios Tapajós e Jamanxim, no sudoeste do Pará. Com a assombrosa idade de 1.9 bilhões de anos, tem hoje 200 metros de altura, ou 400 metros a menos do que naquela época. Foi apelidado de Vulcão Brasil. Vale lembrar que essas designações têm funcionado até o momento como nomes de fantasia, não fazendo parte de qualquer registro oficial.

Vulcão na bacia do Tapajós, o mais bem estudado até o momento. Foi chamado de Vulcão Brasil (Fonte – Prof. Caetano Juliani).

Foi Juliani quem o descobriu, depois de muita investigação. Ele chefiou uma equipe de talvez uma dezena de técnicos, em parceria com universidades brasileiras, norte-americanas e europeias. No início apenas notado na academia, passou a ser conhecido pela mídia – não há semana em que não conceda entrevistas.

Existe um segundo vulcão, a 50 km de distância e 100 metros mais elevado, um pouco mais jovem – também encontrado por sua equipe. Este foi chamado de Vulcão Amazonas. Novamente, este é apenas um nome de fantasia.

Estão parcialmente recobertos por sedimentos e surpreendentemente bem preservados, acredito que devido à longa estabilidade do vale amazônico. Neste momento, uma dezena de edifícios vulcânicos já foram encontrados nessa região pelos técnicos ligados a Caetano Juliani.

Os vulcões costumam ocupar as bordas de grandes caldeiras. As caldeiras são áreas rebaixadas no interior de um contorno com bordas definidas. As caldeiras resultaram do colapso dos maciços vulcânicos, pela ação combinada do peso dos edifícios vulcânicos e do esvaziamento das câmaras magmáticas que os originaram.

Localização do chamado Vulcão Amazonas (Fonte – Portal Amazônia).

Essas caldeiras vulcânicas estendem-se além do Tapajós, avançando a leste até o Xingu, a sul até o Mato Grosso e a norte até as Guianas. Porém nem todos os eventos aconteceram na mesma época – por exemplo, os do Mato Grosso são datados de 1.90 a 1.75 bilhões de anos.

Vista aérea de uma caldeira amazônica. Veja o típico arco circular (Fonte – Prof. Caetano Juliani).

São ao todo 1.2 milhões de km², equivalente à área do próprio Pará. Na região estudada, teria ocorrido o Evento Uatumã, com indícios de uma colisão tectônica como a que formou a Cordilheira dos Andes. Mas ninguém sabe por que não existe vestígio físico dela.

E, nessas dezenas de vulcões, existem preciosos depósitos minerais de ouro, prata, cobre, zinco e outros. Não são profundos, variando de 100 metros a 1 km. Resultaram da deposição de minerais existentes nos vapores hidrotermais liberados pelo vulcanismo, num ambiente de alta sulfidação. Esses depósitos estão sendo pesquisados nas Províncias Minerais de Tapajós, Juruena e Alta Floresta.

Representação conceitual de um vulcão (Fonte – Prof. Caetano Juliani).

Os depósitos mais superficiais ou epitermais têm alta concentração e pequeno volume. Nos profundos ou pórfiros, ao contrário, as concentrações são menores, mas os volumes são muito grandes. É na verdade essa riqueza, mais do que a curiosidade científica, que estimulou e financiou as pesquisa para encontrá-los.

Vulcões em nosso país são como neve, não acreditamos na sua presença pois não mais os avistamos hoje. Apesar dos vulcões, no proterozóico existiram também as chamadas eras geladas. E, durante a era mesozoica, 250 a 65 milhões de anos atrás, o Brasil foi sujeito a terremotos e vulcanismos, especialmente na sua costa.

Mesmo antes, há cerca de 600 milhões de anos, existiu o chamado Arco do Rio Doce, com 550 km de uma magnífica cordilheira vulcânica, que se estendia do norte de Minas ao Paraná. Nesta época, pode ter existido vulcanismo no sul do país.

O vulcão de Nova Iguaçu, com 70 milhões de anos, provavelmente não existiu. Mas há evidências do vulcanismo de Ipojuca (PE) de 100 milhões de anos. Bem como em Guarulhos, Ribeirão Preto, Cabo Frio, Araxá e Poços de Caldas. E também na Serra do Mar e na Mantiqueira.

Mesmo depois da era mesozoica, corpos de origem vulcânica foram encontrados em vários locais do Nordeste, de 70 a 15 milhões de anos passados.

Os arquipélagos atlânticos brasileiros.

E formaram-se as ilhas vulcânicas de Fernando de Noronha, Trindade e Atol das Rocas. Exceto por estas, os vestígios desse vulcanismo passado foram encobertos pela erosão do relevo. Restaram apenas as cicatrizes desses eventos ancestrais.

Caetano Juliani nasceu na fértil região de Taquaritinga, na região central de São Paulo. Seu interesse pela geologia foi despertado no ginásio por sua professora russa – ele diz que ela lhe ensinou toda a geologia que conhece. Começou sua carreira no IPT de São Paulo, pois queria evitar uma organização tão grande como a USP.

Entretanto, a partir de seu Doutorado em Geociências, passou lá os últimos 35 anos de sua vida. Contratado em 1988 pela USP, é hoje Professor Titular da instituição. Foi durante quatro anos diretor do Instituto de Geociências. Relata um certo alívio quando pôde retornar recentemente à sua vida de pesquisador e professor.

Caetano Juliani, geólogo pesquisador e professor da USP.

Sua tese de livre-docência já versava sobre os sistemas vulcânicos na Amazônia. Foi em Brasília onde, consultando os arquivos da mineradora Rio Tinto, percebeu que havia na Amazônia a associação de dois minerais de origem vulcânica.

Iniciou então sua pesquisa de campo, visitando por dois meses a cada ano diversas regiões do Pará e Mato Grosso: o Tapajós, São Félix, o Iriri, Alta Floresta, o Araguaia, Itaituba, algumas mais de uma vez.

Na região do Tapajós, a cidade mais próxima é Itaituba, a 120 km de distância. Juliani e sua equipe viajavam em aviões monomotores, desses que podem aterrissar em pistas precárias. Os avanços na floresta eram penosos, pelo clima úmido e vegetação cerrada. Naturalmente, pousavam acampados. Até hoje não existem acessos nesse mundo vazio e desconhecido.

Foram 25 anos de investigações, que contaram inicialmente com a desconfiança da comunidade científica. Acreditava-se que os depósitos minerais estudados por Juliani existiam apenas em falhas geológicas, não em rochas vulcânicas.

E o mais antigo depósito de ouro de origem semelhante ao amazônico data de 600 milhões e não 2 bilhões de anos. Mas o acúmulo de evidências acabou validando sua paciente pesquisa.

A situação do Vulcão Brasil me lembra a dos exoplanetas, dez anos antes. Estes últimos são sistemas planetários distantes, orbitando à volta de uma estrela.

O Sistema Trappist, a 40 anos luz da Terra. A estrela é uma anã vermelha. Nosso Sol é uma anã amarela.

Causaram grande sensação ao serem descobertos na década de 1990, principalmente quando a estrela à volta da qual orbitavam era semelhante ao Sol. Ou seja, eram vistos esperançosamente como espelhos do nosso Sistema Solar.

Há aqui dois fatos em comum: primeiro, o interesse não era só nos sistemas em si, e sim na possibilidade de haver zonas habitáveis; segundo, rapidamente outros exosistemas parecidos foram sendo descobertos, havendo hoje mais de dois mil deles. A raridade foi se tornando banal.

Espero que isto não aconteça com nossos vulcões. Pois o interesse geológico não recai totalmente sobre os vulcões em si, e sim sobre valiosos depósitos minerais, como ouro, prata e cobre, que estão logo abaixo.

Sim, esses antiquíssimos edifícios vulcânicos não serão preservados com reverência no futuro – serão simplesmente arrasados pela mineração. E, depois, quando a pesquisa avançar e tivermos descoberto talvez uma centena deles, deixarão de ser a bela novidade que ainda são, enquanto escrevo esse artigo.

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Sobre o autor

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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