Perdidos nas Matas e Montanhas e o Curso de Buscas em Áreas Remotas 2026

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Em 2024, após alguns anos vivenciando com maior ou menor proximidade ações de buscas, procurei algo otimizado com especialistas a partir dos dados brutos, com a natural concatenação dos eventos que ocorrem ao longo de anos. Encontrei o edital do Curso de Buscas em Áreas Remotas (CBAR) promovido pelo Clube Paranaense de Montanhismo (CPM) e incontinenti, me inscrevi. Foi um ano anômalo, de relativa tranquilidade, após trilhar um crescendo nos anos anteriores culminando na AC de 2023 com 10 dias de tempo “não tão bom” e uma centena de quilômetros percorridos. Vivia meses sabáticos, com trilhas menos complexas e exigentes e procurei evitar cursos de “busca e resgate” por entender que são ações complementares, cujo ensino e aprendizado transcorre melhor se tratadas de forma individualizada.
O curso, magistralmente ministrado pelo Máfia, superou em muito o que eu esperava. Vasta experiência em ocorrências, desde a criação do Corpo de Socorro em Montanha (COSMO) em 1996, “dentro” do CPM. Conhecer o corpo discente, nas apresentações do primeiro dia, explicitou o quanto a proposta era séria: quase metade da turma era formada por profissionais envolvidos em buscas e resgates. Já na terça, dispúnhamos do nosso Coordenador Geral definido e, pouco depois as demais funções de estafe estavam povoadas. Relatei isso em 4º Curso de Busca em Áreas Remotas – CPM – Metodologia e reflexões, leitura que complemente o presente texto.

Figura 1. Instrutor, alunos e monitores do curso CBAR 2024.

Certos de que o desafio proposto pelo CPM para o simulado seria algo de elevada densidade, tratamos de efetuar as tarefas “de bastidores” o melhor possível, para podermos focar apenas nas atividades de busca durante o final de semana. Definimos os materiais que precisaríamos, mantimentos e caronas. O exercício de campo foi intenso e, apesar de todos os nossos esforços, a vítima “morreu”. Anotei pontos de melhoria e
trabalhei alguns deles, à exemplo a parte de rastreio.
Ainda em 2024, tive oportunidade de colocar parte desses estudos em prática durante o simulado organizado pelo Grupo de Operações e Socorro Tático (GOST) em preciosa parceria com o CPM. Sob a coordenação do Máfia, os voluntários percorreram cerca de 160 km de trilhas, entrevistaram dezenas de visitantes dentro definida, levantaram dados em cadastros e redes sociais. Aproximadamente 12 horas após o inicio das atividades, os bombeiros que representavam as vítimas foram acompanhados até o Posto de Comando,
em segurança.
Em 2025, após concluir a ACE em 19/7, retornei ao Paraná para colaborar como monitor no simulado de buscas do CBAR 2025, com a pretensão de ficar apenas na base, pois ainda estava bem desgastado pelos dias de montanha que acabara de vivenciar. A Luísa, na coordenação dos monitores, questionou-me se poderia
acompanhar uma dupla em campo. Fariam a subida do Caratuva retornando pela a Trilha da Conquista, rastreando indícios da passagem do “perdido” da vez. Apesar de convalescente, assumi a função, retirando alguns gramas de materiais menos úteis da mochila de ataque que levara de SP. Tive oportunidade de acompanhar alguns momentos, sob essa ótica complementar.
Em 2026, após a reunião deliberativa de ações da Travessia TransParaná (TPR), o Chrispin, em nome do CPM, propôs que assumisse a docência do curso, pois o Máfia se afastara por questões particulares. Pedi alguns dias para pensar, pois a tarefa era hercúlea, ainda mais para um paulista, residindo e trabalhando a muitas horas de
distância.
Me detive em alguns pontos, por me parecerem críticos: segurança, equipamentos, navegação e evolução do Montanhismo no Brasil. A cultura de segurança me acompanha há décadas, como brigadista em diferentes empresas e, atualmente com os embarques ocasionais em plataformas marítimas. Vivenciei bastante da evolução do mercado nacional de equipamentos, desde os anos 80, quando era comum uma cargueira passar de 20 quilos e ao encontrar um orelhão para pedir qualquer apoio externo já se havia superado a quase totalidade das provações. Buscas e resgates eram quase que sempre acionados por familiares e amigos, que permaneciam na dita “civilização”. Saber seguir rastros de passagens anteriores e assegurar a capacidade de,
ao menos, retornar pelo caminho da ida era a base do conhecimento de muitos que andavam nas matas por essa época. Navegar com carta topográfica e bússola era o suprassumo da autonomia. Os tempos mudaram, os equipamentos evoluíram e, em 1999, o encerramento da Disponibilidade Seletiva trouxe a acurácia das localizações de GPS, em aplicações civis para a ordem dos 10 metros. Permitindo o real emprego desses aparelhos para recreação em áreas de matas. Antes disso, o erro aleatório imposto resultava em uma precisão na ordem de 100 metros, inviabilizando o uso dessa ferramenta para navegação, de forma individual.

Figura 2. Rastro produzido pela passagem de 3 caminhantes (2 à direita, próximos à cerca e 1 (o autor) à esquerda). em descida por vegetação campestre. Serra do Pasmar, Diamantina, MG. Registrado a cerca de 50 m, elevação contígua.

Relatos descrevendo as bifurcações e o tempo de deslocamento entre cada ponto de interesse ainda imperavam como a forma mais confiável de transmitir as informações para outros montanhistas. O aprendizado dos trilheiros e montanhistas seguia uma curva mais suave, com o ganho de experiência ocorrendo, durante boa parte da formação, na mesma serra, montanha ou trilha. Era comum que a pessoa repetisse dezenas de vezes o
trajeto, antes de ousar inventar modificações maiores. Palmilhávamos, e muito, as cercanias próximas. Trilhar distante da base de aprendizado? Quase sempre em companhia de alguém que conhecia a outra serra, trilha ou montanha. Relatos e descrições de amigos ou montanhistas que já haviam feito o trajeto eram verdadeiras
“minas de ouro”, pois muito do que se encontra nas matas não aparece nos mapas e cartas. A popularização do acesso aos sistemas de GPS, em aplicativos de celular, trouxe imenso avanço e viabilizou grandes ousadias, com crescente potencial de exposição às desorientações e ao perder-se.
O Governo Federal, através do Ministério do Turismo e em parceira com a sociedade civil, emitiu em 2005 o “Manual de Criação e Organização de Grupos Voluntários de Busca e Salvamento de Turismo de Aventura” após concluir de que a expansão do turismo de aventura passa por tornar a prática mais segura e robusta frente à ineludível incerteza que atividades em ambiente natural encerram em seu DNA.
Após a epidemia de COVID19 tem se observado expressivo aumento de interesse por atividades “outdoor” ou “de aventura” e, pari passu ao incremento de pessoas nas trilhas, vem crescendo a demanda por buscas e resgates. Esse cenário nos trouxe até aqui, e esse artigo pretende contribuir na lida com o desafio presente e com a evolução do cenário das atividades em áreas remotas nos meses e anos vindouros. As matérias nas
mídias revelam não apenas um sólido crescimento do apelo das práticas em ambientes naturais, como evidenciam que a exposição à realidades diversas, em municípios, estados e até países tem acompanhado esse movimento. Tanto o montanhismo, quanto o trekking, nascidos com DNA esportivo e de caráter individual, foram em grande parte cooptados pelo turismo de aventura. Os novos tempos que vivenciamos na questão climática nos obrigam a reconhecer que a conscientização ambiental precisa ser crescente, e nesse sentido, parques, Áreas de Preservação Permanentes (APAs), Reservas Particulares de Patrimônio Naturais (RPPNs), Monumentos Naturais (MONAs) se mostram cada vez mais estratégicas nos serviços sócio-ambientais que
prestam.
Nos últimos anos, venho ministrando a disciplina de Orientação e Navegação para dois cursos básicos de montanhismo de clubes aqui de São Paulo. Tanto no curso do Centro Excursionista Universitário (CEU) quanto na formação ofertada pelo Clube Alpino Brasileiro (CAB), apresento e discuto ações a partir de uma eventual desorientação ou perdido. Era, e é uma forma que trabalhar pela segurança nas trilhas, matas e montanhas, não impondo regras e limites, mas educando para o preparo, para a lida com as incertezas e visando minimizar as consequências de decisões ruins, pois elas ocorrem, gostemos ou não.
Sopesadas as dificuldades e a potencial contribuição ao Montanhismo, aceitei o desafio.
Para conciliar a nova empreitada com a agenda de trilhas e de trabalho, separei um período de férias para as aulas teóricas e reservei o final de semana anexo para a prática de campo.

PREPARO

Apliquei ao tema um dos pilares do método científico: levantar a bibliografia já existente, cotejar autores, trabalhos e conclusões e, a partir desse amalgama trazer o suprassumo dados processos de buscas no mundo, cotejando com nossas particularidades.
Foi exaustivo, mas acredito ter conseguido, ainda que parcialmente, cobrir o proposto.

Figura 3 Livro de referência para a abordagem estatístico-comportamental do curso de 2026. Edição de 2019, apresenta o “estado da arte” nos estudos sobre o Comportamento das Pessoas Perdidas.

Dediquei um tempo de qualidade, durante as aulas teóricas, em sala a análise do Comportamento da Pessoa Perdida e às consequentes ações de exposição, por parte dos buscadores.
Basicamente, há uma lógica no movimento da vítima, ainda que aparentemente o deslocamento se mostre aleatório. Que não se
entenda que apenas o ambiente condiciona o movimento da pessoa perdida. Não é algo simples assim. As experiências pregressas em trilhas do buscado, seu condicionamento físico, os equipamentos de que dispõe, a educação familiar, acadêmica e profissional se somam ao ambiente para produzir a lógica individual de cada evento.

Figura 4. Rastro de passagem de curta duração. Serra do
Pasmar, MG.

Contatei amigos e conhecidos que, ao longo do tempo, haviam participado de ações de busca e resgate, como resgatistas ou como vítimas a serem resgatadas. Entrevistei longamente cada um, visando identificar as características mais relevantes de cada caso.

Aproveitei os meses de trilhas precedentes para produzir material ilustrando conceitos e situações que já havia presenciado em ocorrências de perdidos ou desorientados, em diversos biomas. Produzir alguns dos rastros efêmeros que podemos encontrar nas buscas e acompanhar o seu envelhecimento, gradualmente esmaecendo a nitidez com que se consegue distingui-los foi um aprendizado de campo bastante interessante.
Viajei para Curitiba na manhãzinha de segunda, preferindo fazê-lo de carro, para maximizar a mobilidade, pois haveria necessidade de idas a campo, para inserir as evidências que os alunos encontrariam (ou não) durante a prática de campo. No primeiro dia de aulas, ajustamos o horário do curso, em resposta a piora no trânsito que Curitiba tem vivido devido às
obras viárias, postergando o início das aulas teóricas em 30 minutos de forma que a maioria conseguisse acompanhar a integralidade da parte teórica. Optamos por não fazer intervalo, dedicando o tempo “ganho” para discutirmos de forma mais detida alguns pontos.

Figura 5. Pictograma zoomorfo. Registro de passagem humana de longa duração.

Os temas das aulas foram divididos de forma a permitir o encadeamento lógico dos  assuntos, preservando a quarta-feira, dia de acesso livre da comunidade ao CPM, para a parte de segurança nas operações de busca, item crucial em todas as atividades em ambientes remotos.

AULAS TEÓRICAS

Figura 6. Primeiras apostilas preparadas, impressas, em Santos/SP.

Preparei 20 apostilas em Santos e, em Curitiba, providenciei as complementares de forma a guarnecer todos os alunos.
Iniciamos o curso com a apresentação dos alunos, da metodologia do curso, uma síntese das operações de busca no Paraná e a inserção do CPM nesse cenário, seguido por uma revisão dos motivos e circunstâncias que resultam em desorientações e perdidos. Encerrando a segunda-feira, discutiu-se as diferentes responsabilidades
em eventos de Busca e Salvamento.
Dedicamos a terça às ações prévias ao processo de busca: planejamento e estrutura das equipes, relação entre os envolvidos na ocorrência (vitima, resgatistas, familiares, amigos, mídia e operativos do Estado), avaliação técnica da situação e tarefas de resposta imediata. Conhecemos a estrutura e a cronologia das ações em operações de Busca e Resgate.

Figura 7. Reunião dos alunos, após o término das aulas para ajustes de estrutura e delegação de tarefas.

Quarta, tradicional dia em que o CPM abre suas portas à comunidade, independente de filiação ao clube, vínculo acadêmico, ser praticante de montanhismo ou atividades outdoor, foi o dia em que nos detivemos sobre os aspectos de segurança (raios, hipotermia, hipertermia, quedas, cabeças d’água, orientação e navegação, desidratação, equipamentos mínimos, primeiros socorros, emprego do apito etc), fortalecendo esses
conceitos da forma mais ampla possível na comunidade de Montanhismo.
Adicionalmente, discutiu-se a forma com que o Pedido de Ajuda é recebido pela equipe e a necessária disciplina, cautela e empatia no recolher de informações. Nesse dia, os alunos souberam em qual região ocorreria o simulado, permitindo que se inteirassem das características do histórico de ocorrências, providenciassem o mapeamento da área e dos caminhos, trilhas, pontos de apoio para resgates e suporte médico-hospitalar.
Quinta-feira tratamos da parte mais técnica e densa, como a questão comportamental da vítima, análise estatística para definição e refino das áreas de busca, comparamos as operações de Buscas com operações de Resgates. Foi o momento de comparar os muitos biomas que temos no país e ponderar sobre as ações mais efetivas para cada bioma, frente às suas particularidades.

 

 

Figura 8. Diferentes arranjos de equipamentos indicam as atividades pretendidas.

Sexta-feira, ultimo dia de teoria em sala, focamos nas ações de rastreio, apresentando evidências de eventos reais e comparamos o envelhecimento das marcas de passagem com o tempo decorrido. Em seguida, discutimos as ações administrativas que ocorrem nos bastidores do trabalho de campo e a processo para criação de Grupos Voluntários de Busca e Salvamento (GVBS). Finalizou-se com o processo de encerramento de uma operação de Busca e Resgate, o zelo com os registros produzidos durante as atividades, as avaliações de causas diretas e indiretas dos diferentes atores no processo, buscando a melhoria nos processos de buscas e o minimizar de fatores contribuintes que possam ser gerenciados pela Sociedade, na gestão dos parques e áreas assemelhadas.

SIMULADO

Com o elevado fluxo de visitantes e o histórico de eventos do Parque Estadual Pico Paraná (PEPP) decidimos por efetuar o exercício de campo ali, com o PEPP franqueando o acesso dos alunos e disponibilizando, dentro dos devidos limites legais, a consulta aos registros de entradas e saídas, efetuados naquele momento, parcialmente de forma digital, pela questão da descontinuidade do acesso à internet na base, um ponto
que precisa ser equacionado.
Concluindo a preparação para o simulado, fiz uma última entrada na serra do Ibitiraquire, com o Dindo (para os alunos Edimilson) após a aula de sexta, próximo das 23h, inserindo as ultimas evidências que poderiam conduzir a turma ao “perdido”. No processo de inserir as evidências, foram vários os escorregões que sofremos, deixando
rastros involuntários. Retornei ao carro pouco antes das 4h, deixando o Dindo acampado a pouco mais de 100 m do Posto de Comando. Acordei às 6h e dei uma rápida ida ao posto MAHLE (BR-116, km 48/50) para tomar um café da manhã reforçado. Retornei para a Fazenda Rio das Pedras e, às 8h03 de sábado, a equipe, com o Posto de Controle já plenamente estabelecido, recebeu o Pedido de Ajuda, dando início a uma corrida contra o inexorável passar do tempo.
De forma a trazer mais complexidade ao cenário do simulado, assumi o papel de pai da vítima, mantendo o fluxo de informações com generalidades e comentando que estava a caminho do Paraná, saindo de Belo Horizonte ainda pela manhã de sábado. A presença do familiar seria mais um elemento de tensão, estressando a equipe e buscando aproximar o exercício de uma realidade complexa. e multifacetada que emulava.


Figura 9. Evidências coletadas. Nenhum dos itens pertencia à vítima. Registro por equipes diversas.

Ciosos de sua responsabilidade, os alunos engajaram-se intensamente nas diversas etapas e interfaces que a atividade prática demandava. Em busca de informações úteis, “apertaram” o amigo e entrevistaram centenas de visitantes por toda a área do PE Pico Paraná. Lidaram, com a brandura possível frente ao correr das horas com a apreensão do “pai” do perdido. As equipes de campo palmilharam dezenas de quilômetros de trilhas, colhendo indícios que, por vezes, não são do buscado. As coordenações precisaram processar essa miríade de informações, visando identificar entre tanto joio, algum trigo. Erraram, acertaram e, no processo, aprenderam. Terminaram o exercício como uma equipe coesa, conhecedora das inúmeras complexidades que as ações de busca ensejam. Se conformaram em um todo muito maior e mais denso que a mera soma de suas partes.
Simulou-se uma travessia pretendida em 3 dias, iniciando pela Fazenda da Bolinha e concluindo na Fazenda Rio das Pedras. Os amigos teriam se desentendido ainda no primeiro dia e ao alcançar o cume do Tucum, um deles, Edson (Leandro Turco) teria decidido retornar. O Edimilson (Dindo) decidiu manter o planejado e concluir a
travessia, subindo: Camacuã, Camapuã, Tucum, Cerro Verde, Taquaripoca, Itapiroca, Caratuva, União, Ibitirati, Pico Paraná, Camelos, Taipabuçu, Ferraria, Ferreiro e Guaricana. Apenas no Cerro Verde percebeu que o pretendido exigiria que voltasse ao Camapuã, pois na discussão acabaram por esquecer de fazer o ataque ao Camacuã. Decide então fazer apenas o trecho central da travessia, abortando os cumes derivativos. A janela de tempo bom se encerra, com uma intensa tempestade no final da tarde.
O segundo dia, nasce com tempo chuvoso e baixa visibilidade. Parte do Cerro Verde, passa pelo Itapiroca, Caratuva, Taipabuçu e acampa no Ferraria. Utiliza o celular para navegar, se orientando em meio a neblina que, ora ou outra, torna difícil distinguir qualquer coisa a mais de 5 metros de distância. Cogita abandonar a travessia, descendo por algum tempo em direção ao Getúlio, mas o orgulho ferido pela desistência do Edson faz com que retroceda serra acima. Ao acampar no Ferraria, acaba por descuido, danificando o aparelho celular. Na manhã de sexta, desmonta acampamento e desce pela Face Leste até alcançar o Degrau. Lera a respeito e portanto nota que não está seguindo em direção ao Ferreiro. Retorna e toma a saída para esquerda, sentido Taipabuçu. Ao
alcançar o trecho de corda, percebe o novo erro e sobe novamente para o Ferraria. Ao alcançar o cume, consegue encontrar a descida que leva ao colo entre o Ferraria e o Ferreiro. A água coletada na descida do Taipabuçu acabara ainda no retorno da Face Leste. Sem cometer novos erros, mas sem considerar a possibilidade de consumir água da chuva ou das poças que se formam nos trechos planos de terra nua, avança ciente da pequena cachoeira na base do Ferreiro e mantém-se focado em chegar lá.

Figura 10. Evidência encontrada na madrugada de domingo, pertencente à vitima. Registrado por Luiz – equipe FOXTROT.

O corpo molhado máscara sua desidratação. Desce a encosta do Ferreiro e ao chegar na cachoeira, já no final da tarde de sexta, faz uma breve parada para comer alguns gomos das últimas bergamotas, já racionando. Come alguns pinhões cozidos e sem sal. O sabor o enjoa há algum tempo, mas sabe que são nutritivos e se força a comer Ao levantar-se, guarda a mão esquerda da luva no bolso e esquece a mão direita. Só percebe a falta
quando, sob os cabos de energia da rede de alta tensão, a procura para vestir. As sombras do crepúsculo dificultam a busca aos próprios pés e por entre a vegetação que suja e turva a trilha, resultado da poda de manutenção da rede, deixando-a mais confusa que o habitual. Não tem ânimo para retornar e procurar, não se recorda onde a viu ou usou pela ultima vez.
Alcança a Picada do Cristóvão sob as sombras da noite que se avizinha. Sobe alguns metros, faz nova parada, onde perde a aba do chapéu, junto com algumas cascas de bergamota e pinhões. Se orienta e retoma o caminhar, alcançando a placa com indicação “Ferreiro” e errando um pouco nas estradas de manejo de pinus. Com a madrugada de sábado se aproximando, vadeia por vários rastros confusos após desviar do portão de
ferro pela esquerda.
Quase na saída, após desviar do portão pela esquerda, perde-se novamente no remanescente de estradas de manejo de gado. Com o corpo molhado desde o início do dia, treme de forma incontrolável a cada curta parada. Receia que hipotermia se aprofunde de forma irreversível com o esfriar da madrugada e monta acampamento,
exausto. Retira as vestes molhadas, veste as roupas secas, entra no saco de dormir e apaga, sem perceber. Sábado acorda tarde, exausto e estranhamente, sonolento. Não correlaciona com a glicemia mal controlada.
Ao longo do sábado, enquanto as equipes de buscas se espalham pelo Ibitiraquire, ele aquece a agua coletada na véspera, faz café, come parte das guloseimas que restaram e aproveita para pitar entre um apagar de consciência e outro. Imediatamente após se alimentar, sente-se melhor, mas logo a sonolência retorna, forte. Na madrugada de domingo, teve a impressão de ouvir passos próximos, em passo célere na direção do
Ferreiro/Ferraria. (De fato, a equipe FOXTROT passara a poucas dezenas de seu acampamento).
Acorda tarde no domingo, o tempo voltou a apresentar chuviscos e por algum tempo protela abandonar o acampamento. A noção de que é domingo e a esperança de encontrar algum apoio no caminho o faz decidir. Com a piora do tempo, não acredita que encontraria alguém nas matas, sob chuva, na segunda-feira. Desmonta
acampamento, recolhe e guarda as tralhas enlameada e se força a partir, tem impressão de ouvir vozes adiante. Alcança a base de operações às 11h54, enfim tomando conhecimento das equipes que o procuram.
Os passos que ouvira provinham da equipe FOXTROT que, em trabalho de rastreio reportaria às 6h37 o encontro da aba do chapéu, das cascas de bergamota e dos pinhões nas coordenadas -25.20924 e -48.82904 através de mensagens de WHATSAPP a partir do falso cume do Ferreiro. Essa pequena informação, adequadamente processada, permitiria suspender o envio de equipes para a região do Camacuã e concentrar as equipes nas áreas da Picada de Cristóvão, com ênfase da região próxima ao acesso da Picada, onde há histórico de desorientações.
O empenho com que os alunos se lançaram às buscas é algo contagiante. Trilharam muitas dezenas de quilômetros, no sábado sob sol e no domingo, partindo às 4h em direção ao Ferreiro e Ferraria, sob uma chuva fina que molhava até os ossos.

PLANEJANDO O SIMULADO

Busquei um cenário que fosse desafiador para a equipe e que mantivesse vínculo com situações reais. Trouxe um paralelo necessário com o ocorrido em 2018, no caso do Erick Welterlin, o francês do Marins. Encontrado a cerca de 200 m de uma casa de fazenda depois de 18 dias de buscas.

Figura 11. Área de Buscas – inicial.

Como um recurso didático, o exercício tem a pretensão de permitir aos alunos lidar com as inerentes limitações de informações e recursos. A área inicial definida foi, deliberadamente extensa para que precisem avaliar e definir prioridades para a busca em campo. As restrições de audição e o oscilar de consciência, decorrente da patologia não controlada (diabetes) também foram definidas para que a busca exigisse mais dos alunos. De fato, é um cenário desafiador.
Pode-se entender que é um caso improvável. Infelizmente, a realidade se apresenta dura: enquanto uma vítima não responsiva seja observável a cerca de 10 metros, uma vítima responsiva que disponha de um apito de segurança eficaz (item de segurança que merece investimento real) pode ser detectada a cerca de 400 metros de distância, pelas equipes de busca. Deixo aqui um desafio: quantos dos meus leitores e, ainda mais, dos
visitantes de final de semana, neófitos do mundo de trilha, portam apitos de emergência consigo?

Figura 12. Imagem de satélite da região onde as evidências de passagem recente foram inseridas na noite de sexta.

A figura apresenta alguns pontos pensados para análise dos alunos:
1) provável erro de alguém que pretendia descer a Picada do Cristóvão e enveredou por um trecho mais aberto no corte de vegetação sob o linhão de AT.
2) estrada de manejo dos pinos, talvez abandonada (viabilidade econômica/ambiental) … permanece o impacto antrópico, a estrada se transforma em trilha … permite o avanço mais fluido/célere para algum lugar. Cortes sob o linhões de AT, trechos de oleodutos ou adutoras…
3) à exemplo do item “2” acima pode ser empregado pela vítima para avançar em uma direção consistente, evitando o andar em círculos.
Sequência pensada para as áreas de busca
A área total de buscas inicial abrangia 66 km2 e foi definida para que desde o começo, a equipe investisse tempo de qualidade em interpretar as informações que tinham: um montanhista em excelente forma física pretendia uma travessia desafiadora em dupla.
No primeiro dia, o Édson (amigo) aborta a travessia e apenas reporta a separação na manhã de sábado após o Edimilson (buscado) não aparecer nem dar notícias no prazo que haviam pensado para concluir a travessia, às 14h de sexta. Ainda aguarda algumas horas, na incerteza do que fazer, postergando o início das operações para o sábado, cerca de 60 horas após o último contato com a vítima. Imediatamente, o pai (Alexandre) efetua o Pedido de Ajuda, dando início às ações da equipe (alunos).

Figura 13. Área de buscas refinada a partir da evidência confirmada “chapéu”: 1,446 km2 .

Com o encontro da aba de chapéu, casca de bergamota e pinhões, a área de interesse para buscas seria naturalmente revisada, focando os corredores de maior mobilidade, sinalizados em roxo na figura 13, acima.
Mesmo com esse último grau de refino, considerando uma vitima não responsiva em uma área que apresenta vegetação bastante cerrada, cobrir esse fragmento apenas, com Probabilidade de Detecção de 83% com 10 pessoas em campo (5 equipes) tomariam estimadas 38 h de trabalho de rastreio, com as equipes separas por 10 m entre si. Seria o momento de baterem todos os carreiros de manejo de gado, descaminhos de perdidos
anteriores.

Figura 14. Área final de buscas:0,175 km2.

Ao se deter sobre os carreiros de manejo de gado e descaminhos, em grande parte sinalizados dentro da região azul, a área de busca “final” seria sensivelmente reduzida, permitindo que os alunos a verificassem com elevado grau de acurácia. Aqui pode ser observada a região destacada pelo perímetro rosa, onde os caminhantes são
naturalmente guiados na direção nordeste-sudoeste (aproximada). Nesse trecho (rosa) a estrada remanescente do manejo de pinus e a topografia deixa pouca margem para erros ou dúvidas quanto a direção de deslocamento. O trecho com o perímetro azul, ao contrário apresenta facilidade de deslocamento em diferentes direções, sendo historicamente reportado como “fácil perder-se ali”. Reportei esse ponto no relato Travessia da Serra do Ibitiraquire de 2023, quando nos preparávamos para a AC e reforcei a complexidade da navegação naquele trecho no relato do Simulado GOST/CPM, de 2024.
O CPM, ao propor o simulado de buscas em áreas remotas na conclusão do curso, visa o equilíbrio ótimo entre a máxima semelhança com situações de buscas reais, e a mínima segurança das equipes em campo. Para alcançar esse equilíbrio, são escolhidas áreas que apresentem alguma constância no fluxo de visitantes/transeuntes. Pistas são inseridas na área de busca, com a pertinente defasagem cronológica. Os materiais das pistas são escolhidos de forma a minimizar o impacto resultante de sua eventual permanência na área natural.

Figura 15. Diferentes regiões quanto à facilidade para navegação intuitiva.

Para esse simulado, empregou-se pinhões cozidos, cascas de bergamota, uma aba de chapéu de lona e uma mão de luva de algodão. Apenas a luva não foi percebida pelas equipes de rastreio e ainda permanece no ponto de inserção (base da cachoeira do Ferreiro). Muitos indícios foram coletados pelas equipes de rastreio: palmilha de tênis, luva de poliéster, perneiras, embalagens descartadas, aba de chapéu de lona. Desses materiais, apenas a aba do chapéu de lona, as cascas de bergamota e de pinhões haviam sido inseridas como “deixadas pela vítima”.
Operações de buscas são fortemente prejudicadas pela ausência de informações de qualidade das vítimas. Essa característica foi reproduzida através do acionamento por parte do pai do Ednilson, que desconhecia os equipamentos que o filho estaria portando, assim como detalhes do que teria sido pretendido. Essas informações seriam obtidas
com o Édson, o amigo que abortara a travessia e retornara à cidade. Mesmo ele desconhecia os equipamentos que o buscado portava. Nesse sentido os arranjos de equipamentos apresentados na figura 8 permitem que os socorristas avaliem com maior acurácia a pretendida atividade. Disponibilizar esse registro ao contato de segurança traz. No repassar de informações, a qualidade decai. O montanhista Leandro Turco, do CPM, representou magistralmente o papel de amigo da vítima, a partir do roteiro recebido. Os entrevistadores o apertaram ao limite, na busca de qualquer informação que fosse relevante e que tivesse sido esquecida.
Cumpre notar que, no momento do Pedido de Ajuda, não se dispõe de fundamento sobre a idoneidade de nenhum dos envolvidos e a equipe não pode desconsiderar a possibilidade de que tenha ocorrido um crime. O levantamento das informações preliminares, subsidiará a análise quanto à criticidade da ocorrência e identificação da ação de resposta inicial mais adequada.

Figura 16. Indício (pertencente a vítima) inserido na região de acesso ao Caratuva. Registrado por Renan – Equipe BRAVO.

Ao longo da operação, novas informações chegam ao Posto de Comando e as ações são revisadas sucessivamente. A comunicação bidirecional entre as equipes de campo e a base/posto de comando é primordial para que esse encadeamento de ações seja efetivo.
Para o simulado, o CPM, através de seus radioamadores instala e mantém uma central de comunicações, contanto com a colaboração, se necessário da comunidade de radioamadorismo. A equipe de alunos indica um Coordenador de Comunicações para fazer todas as interfaces necessárias com essa estrutura de apoio.
Não se pode descuidar do adequado registro das ações e observações pois um evento que inicia como “pessoa desaparecida” pode evoluir para uma fatalidade e os registros comporem parte de um inquérito policial que busque elucidar se houve (ou não) crime e identificar as possíveis ações e omissões que foram contribuintes.

Figura 17. Primeiras deliberações da equipe, após o Pedido de Ajuda.

Em situações de sinistros reais, ocorre da infraestrutura urbana ser severamente prejudicada ou interrompida por intempéries climáticas ou eventos geológicos, muitas vezes, a comunidade do rádio-amadores compõe a base de comunicação entre as diferentes equipes de resposta do Estado.

Segurança durante o simulado – voluntariado e ações

O CPM mobilizou um robusto time de monitores entre radioamadores e monitores de campo. Deixo aqui um singelo agradecimento nominal a cada um: Sintia Reikdal, Cláudio Akim, Emerson, Rodrigo Barroso, Jefferson Diefenbach, Chesi, Felipe, Josnei, Charles, Júlio, Daniel, Ode, Anderson, Leandro Turco (Edson) e Evandro. Aos
mobilizados pelo CPM somou-se nossa vítima da vez, representada pelo Dindo, no papel de Edimilson. Iniciativas dessas tornam as trilhas e montanhas mais seguras e perpetuam os verdadeiros valores do Montanhismo. Mais uma vez, obrigado a cada um.
Um aluno apresentou uma torção no tornozelo esquerdo ao retornar da região do Caratuva, sendo pronta e eficazmente suportado pelo monitor que acompanhava a equipe, de forma a minimizar o trauma. Conduzido ao atendimento hospitalar, avaliado e medicado, no domingo já se encontrava em recuperação, sem sequela.

 

Figura 18. (E)Renan sendo avaliado e (D) atendido pelo Josnei. A importância dos conhecimentos de APH em áreas remotas. Registro Gláucia – Equipe BRAVO.

Figura 19. (E) Pedido de Ajuda, informações mínimas. (D) Registro de entrada pela Fazenda da Bolinha. Registro Rogério.

Conclusão do CBAR – Avaliação e certificação

Findadas as ações de busca, ainda no calor da atividade, é efetuada uma avaliação das impressões a respeito do curso, de pontos fortes, assim como de oportunidades de melhoria. Cada aluno tem seu momento de fala, seguidos dos monitores. Apresentarão ainda, um relatório formal de encerramento da ocorrência, documentando a experiência e registrando pontos que entendam que possam ser melhorados, contemplando as três
instâncias envolvidas: vítima buscada, equipe de busca e infraestrutura local. Cumpridas todas as formalidades, são convidados a compor o grupo de voluntários para atividades de busca do CPM.

Figura 20. Trabalho de bastidores no Posto de Comando

Recebido, avaliado e aprovado o Relatório Final do Simulado, descrevendo em detalhes cronológicos as ações de campo e as ações do Posto de Comando em investigação, coleta e processamento de informações. Em suas páginas, registram oportunidades de melhoria para ações de buscas, para o comportamento da vítima (por deliberada incúria não registra a passagem em nenhum dos livros de cume que passa) e para a própria gestão do Parque Estadual Pico Paraná.

Figura 21. Indício mais formoso observado nas buscas. Registrado pelo Felipe Majvhszak . Equipe FOXTROT

 

 

 

Figura 22. Quadro organizacional: informações das equipes em campo e características da vitima e da ocorrência.

Novos voluntários Capacitados:

Tenho o prazer de informar que os ao lado nominados concluíram, com distinção, o CBAR 2026 e passam a compor o grupo voluntário de buscas do CPM. Certamente, trarão maior segurança nas nossas trilhas e montanhas, não somente em buscas pelas ermas plagas que palmilham como esporte, filosofia de vida ou
contemplação, como na prevenção e no cuidado com o planejamento robusto e responsável.
As atribuições entre eles foram diversas, mas o empenho de cada um foi fundamental para que o simulado, condensando em prática aplicada a teoria aprendida em sala de aula, transcorresse de forma harmônica, interativa e, certamente, muito produtiva.

Figura 23. Equipe do Simulado do CBAR 2026. de esquerda pra direita: Felipe, Marco Carlim, Marcelo Chrispin, Felipe Majchszak, Gabriel Freitas, Patrício Rodrigues (primeira fila). Segunda fila: Júlio, Cláudio, Sintia Reikdal, Fernanda Bertoncello, Fábio Lopes, Raí Boaventura, Lucas Masiero. Terceira camada: Denis de Oliveira, Anderson, Daniel, Luiz Fernando, Rogério Alexandre, Gláucia dos Santos, Miriam Brito, Erick Fernando, Cláudio Macedo e Guilherme Willian.

Centro de Gestão Integrada CGI

Reúne Defesa Civil, Bombeiros, Polícia e secretarias municipais para tomada de decisão, registro de ocorrências e envio de ajuda de forma coordenada. Nesse sentido, o Centro de Gestão Integrada (CGI) funciona como uma central de monitoramento, comunicação e despacho de ocorrências para gerenciar emergências, riscos de desastres e ações de segurança em tempo real.
O protocolo de atendimento e funcionamento cobre três áreas: Acionamento e Registro (pode ser efetuado pela população – através do 199); Monitoramento Integrado (operadores dos sistemas de monitoramento meteorológicos em situações de perigo iminente) e Alertas e Avisos (preventivos – envio do CEP para 40199).
O montanhismo organizado pode se apresentar frente ao CGI em situações de maior vulto, em razão da capacidade para ações autônomas de seus praticantes, dado que muitas atividades são efetuadas em áreas remotas e de difícil acesso. A partir das necessidades para enfrentamento da situação e das possibilidades de cada grupo voluntário, o CGI determinará o deslocamento e mobilização dos montanhistas para compor equipes nas áreas afetadas.

Sistema de Comando de Incidentes SCI

Na prática, é uma ferramenta para o gerenciamento de incidentes de forma a possibilitar uma estrutura organizacional integrada entre múltiplas agências, criando condições ao atendimento das demandas originadas de um único ou de vários incidentes no local de sua ocorrência, sem que haja solução de continuidade, ou afetações, em face das atribuições concorrentes dos órgãos envolvidos das esferas (federal, estadual e
municipal) que, porventura, venham a ser envolvidas. A participação da Sociedade Civil, na forma de voluntários capacitados soma-se aos órgãos de resposta, permite o enfrentamento do incidente com maior eficácia, poupando recursos estratégicos para atividades de maior complexidade e minimizando o sofrimento dos afetados direta e indiretamente pelo incidente.
A Defesa Civil dos estados oferta cursos de SCI, alguns no formato EAD, para qualificar previamente a sociedade. Recomenda-se que os interessados em contribuir nos momentos críticos se capacitem.
Princípios Básicos do SCI Estruturado com base em nove princípios fundamentais que voltados a assegurar ordem e a eficiência:
Terminologia comum: Uso de uma linguagem clara e sem códigos locais entre todas as equipes. Alcance de controle: Cada chefe gerencia um número limitado de pessoas (idealmente de 3 a 7). Organização modular: A estrutura cresce ou diminui conforme a necessidade do incidente. Comunicações integradas: Canais e planos de rádio unificados. Plano de Ação do Incidente (PAI): Metas e estratégias formalizadas para a resposta. Cadeia de comando: Linhas claras de autoridade de cima para baixo. Comando unificado: Gestão conjunta quando vários órgãos têm jurisdição sobre o caso. Instalações padronizadas: Locais específicos definidos, como o Posto de
Comando. Manejo integral de recursos: Controle rigoroso da chegada e saída de materiais e pessoal.

Recomendações

Constatou-se, durante a atividade que as placas de orientações aos visitantes, parcialmente instaladas durante o final de semana do simulado, trazem informações importantes aos usuários, como ações visando o mínimo impacto (caminhar por lajes, e maximizar a sua segurança (adequado condicionamento, evitar derivações em trilhas, uso de protetor solar, hidratação etc). Ação necessária, importante e meritória. Notou-se entretanto, a ausência de orientação para o adequado registro de passagem nos livros de cume. Esses livros, e os adequados e pertinentes registros de passagem neles, compõem um dos pilares de segurança nas montanhas e serras, alem de documentarem a Historia do Montanhismo Nacional em suas páginas. Fica a sugestão que uma nova placa, com horizonte de instalação distante e que, enquanto isso, os folders distribuídos aos visitantes contemplem esse ajuste, já na próxima tiragem.

Figura 24. Placas instaladas nas entradas do PEPP. Orientações importantes aos visitantes.

Aos praticantes das atividades outdoor, fica a recomendação de que, sempre que possível façam o adequado registro nos livros de passagem, assim como nos cadastros das bases de acesso, seja em papel, seja em meio eletrónico. Informem aos familiares e amigos a aventura pretendida, preferencialmente por mensagens em aplicativos que possam ser resgatadas. Estimem com alguma margem de sobra o prazo para que, em
caso de ausência de noticias, as autoridades sejam comunicadas.

Figura 25. Detalhe das recomendações com a ausência de menção aos Livros de Registros, instalados nos cumes das principais montanhas.

O adequado registro de passagem deve conter o nome de todos que estão na atividade, o horario de partida da base e de chegada ao cume. O objetivo pretendido a partir desse, seja outro cume ou o retorno à base. Eventuais alterações do tempo, principalmente para pior, reduzindo a visibilidade merecem registro. Acidentes ou intercorrências de saúde de alguém no grupo, caso se entenda que possam progredir ou prejudicar o retorno
também convém serem reportadas. Caso ocorra desorientação prolongada ou mesmo se encontre perdido, permanecer na mesma posição é a forma mais célere de ser encontrado. Convém contar sempre, na mochila que permanece consigo, com acertos itens de segurança: cobertor, poncho ou saco de bivaque de emergencia, apito de segurança (que emita mais de 110 dB), uma lanterna carregada, power bank com os necessários cabos, uma blusa tipo segunda pele, um gorro e uma capa de chuva descartável. Eletronicos, a blusa e o gorro devem estar muito bem protegidos da umidade, por plástico. Memorize a sequência de atividades: estacionar, sentar,
alimentar, orientar e navegar, com o acrónimo ESAON. Eduque-se para, em caso de ocorrências como acidentes, desorientações e perdidos, ter a presença de espirito necessária para não piorar a situação. Abrigue–se o melhor que puder, preservando o calor do corpo para combater a hipotermia e reduzindo sua exposição ao calor, para minimizar os impactos da desidratação e hipertermia. Busque conhecimento com grupos estruturados, poupe-se de atalhos mágicos e “dicas de 5 minutos”. As atividades de aventura e, em especial o montanhismo em áreas remotas, exigem mais seriedade e a evolução lenta, mas sólida, dos seus conhecimentos e capacidades.
Aos grupos de busca e, principalmente aos voluntários interessados em colaborar em ocorrências, deixo primeiro meu agradecimento: vocês colocam seu conforto e em parte (que seja mínima!) a sua segurança em segundo plano para buscar um desconhecido.
Mas para uma mãe, um pai, um filho, um irmão, vocês são parte das respostas das preces, vocês contribuem para que o mundo de alguém não seja destruído, pelo menos, não naquele dia. Capacitem–se. Tornem-se melhores analistas, melhores planejadores, melhores rastreadores, melhores comunicadores. Depois do caso resolvido, da casa construída, é fácil encontrar culpados, apontar falhas. Façam parte da solução, com o
melhor que puderem.

Conclusão

Em atividades reais, como em janeiro último, o CPM oferta sua equipe de busca voluntária ao Comando da Operação, por parte do Corpo de Bombeiros. Tem sido uma parceria positiva, permitindo a mobilização de expressivo quantitativo de voluntários capacitados, conhecedores das áreas buscadas e que, com considerável frequência apoiam outros montanhistas e turistas, de forma proativa, evitando o agravamento de situações incipientes.
O grupo de voluntários congrega atualmente quase uma centena de montanhistas, com variáveis capacitações e experiências. Os estados de origem são predominantemente das regiões Sul e Sudeste: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Faço votos que outros clubes sigam a seara que o CPM desbravou e passem a contribuir na capacitação dos montanhistas sejam eles seus sócios ou não.
Cada degrau que subimos, cada busca que evitamos através do planejamento ou da ação tempestiva e,. claro, cada busca em que nos somamos em esforços é um imenso avanço que ofertamos ao Montanhismo e, em última análise à Sociedade.
A extensão territorial do nosso país, de forma destacada no eixo Norte – Sul, com grande variação na latitude resulta em uma diversidade de climas, e por tabela, de biomas que não se encontra em nenhum outro país. Países do hemisfério norte, há muito registram seus eventos de buscas e resgates, permitindo a identificação de padrões de comportamento e o preparo de elementos auxiliares às ações de busca. Há pouca variação entre o tipo de vegetação que se encontra, por exemplo na maior parte dos Estados Unidos, nos países da Europa. Mesmo na Austrália, onde o hábito de ir às regiões ermas é bastante presente, não há variação entre os biomas tão expressiva quanto em nosso território.
Os registros do International Search & Rescue Incidente Database (ISRID) se mostram carentes de informações sobre ocorrências em regiões onde o binômio clima – relevo seja mais próximo do nosso. Nesse sentido, acredito que passarmos a registrar os eventos ocorridos em território brasileiro nesse banco de dados traga expressiva
contribuição às operações de busca, minimizando custos ao mesmo tempo em que nos permite maximizar eficiência e eficácia das ações de busca.

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Sobre o autor

Brinco que sou Montanhista de fim de semana. Engenheiro por formação, mestrado aplicado ao entendimento da massa de ar que chamamos de vento. Grande apreciador de leituras históricas e do entendimento geográfico/político/social. Diletante no estudo de biologia aplicada - basicamente flora comestível. O cume não deve ser a maior alegria do rolê. Me divirto em planejar prévio, estudando cartas topográficas e relatos. Detalhista no arrumar da cargueira, buscando a melhor relação peso-segurança. Trilhando em família desde os anos 80… e hoje sigo os passos do meu irmão, que em meados dessa década já se aventurava pela Serra do Mar com toneladas de equipamentos e tento honrar seus ensinamentos. Busco, no divulgar das aventuras estudos contribuir com o Montanhismo Nacional e seu desenvolvimento sustentável como esporte e como atividade econômica.

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