Iniciativa brasileira disputa o Prêmio Bússola de Cristal, da Sociedade Geográfica Russa, com proposta que utiliza trilhas para conectar áreas protegidas e fortalecer a conservação da biodiversidade.
A Rede Brasileira de Trilhas está entre os projetos indicados ao Prêmio Bússola de Cristal, uma das principais premiações internacionais dedicadas à geografia, conhecida como o “Oscar da Geografia”. A iniciativa brasileira concorre na categoria “Reconhecimento Público” com um projeto que propõe utilizar a infraestrutura de trilhas como ferramenta de conservação, educação ambiental e conexão entre áreas naturais protegidas.
Promovido anualmente pela Sociedade Geográfica Russa, o prêmio chega à edição de 2026 com mais de 500

O projeto Rede Brasileira de Trilhas abrange diferentes biomas brasileiros. Foto: Rede Trilhas
projetos de 29 países indicados. Criada em 2012, a premiação reconhece trabalhos relacionados à geografia, ecologia, expedições, preservação do patrimônio natural e cultural e outras áreas associadas às ciências geográficas.
Além da votação popular, os vencedores das dez categorias serão avaliados por um conselho de especialistas formado por cientistas, autoridades e personalidades de destaque, incluindo vencedores do Prêmio Nobel. A votação do público ocorre até 31 de outubro, e cada pessoa pode registrar um voto por dia.
Trilhas como ferramenta de conservação
O projeto brasileiro inscrito no prêmio é denominado “Rede de Rotas Turísticas Brasileiras e Conectividade: Utilizando Infraestrutura Recreativa para Conservação por meio da Educação Turística”.
A proposta integra o programa Conecta Brasil e parte de um princípio: as trilhas podem desempenhar uma função que vai além do lazer e do turismo. Quando planejadas de maneira integrada ao território, elas podem ajudar a aproximar áreas naturais protegidas, estimular a educação ambiental e contribuir para a conservação da biodiversidade.
A proposta está alinhada à própria concepção da Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade (RedeTrilhas), política pública criada em 2018. Entre seus objetivos estão promover as trilhas como instrumentos de conservação da biodiversidade e conectividade de paisagens, além de estimular o turismo em áreas naturais e sensibilizar a sociedade sobre a importância da conexão entre ecossistemas.

A Rede Brasileira de Trilhas estimula o túrismo ecológico ao mesmo tempo que cria corredorres para biodiversidade. Foto: Cátia Dias RedeTrilhas
Atualmente, a Rede Brasileira de Trilhas contabiliza 10.500 quilômetros de caminhos implementados e outros 20.500 quilômetros planejados. Segundo dados divulgados pela própria organização, a rede envolve 160 trilhas e 390 unidades de conservação. Dados do Ministério do Meio Ambiente indicam que quase 300 trilhas já adotam a sinalização oficial da RedeTrilhas, somando mais de 10 mil quilômetros e conectando mais de 200 unidades de conservação.
A dimensão da proposta acompanha o crescimento da própria política nacional de trilhas. Dados divulgados pelo Ministério do Turismo em 2026 apontam a existência de 205 trilhas de longo curso no Brasil, conectando paisagens, municípios, unidades de conservação e comunidades.
O desafio da fragmentação dos habitats
Por trás da proposta está um dos principais desafios contemporâneos da conservação: a fragmentação dos ambientes naturais. A criação de áreas protegidas foi uma das principais estratégias utilizadas para preservar ecossistemas e espécies. No entanto, com a expansão da agricultura, pecuária, mineração, infraestrutura e urbanização, muitos desses territórios passaram a ficar isolados por áreas modificadas pela atividade humana.
Nesse cenário, uma unidade de conservação pode funcionar como uma espécie de “ilha” de natureza em meio a uma paisagem fragmentada. O isolamento reduz a possibilidade de deslocamento dos animais entre diferentes áreas, dificulta o fluxo gênico e pode aumentar a vulnerabilidade de determinadas populações.
É nesse ponto que entra o conceito de conectividade da paisagem. Em vez de considerar cada área protegida como um território isolado, a estratégia busca estabelecer conexões entre diferentes fragmentos de habitat, permitindo que espécies se desloquem e que processos ecológicos ocorram em uma escala mais ampla.
A própria legislação que estruturou a RedeTrilhas estabelece que os percursos devem considerar sua relevância para a conectividade de paisagens, a recuperação de ecossistemas ou biomas degradados, além de valores ambientais, sociais, culturais e históricos.
Uma rede que pretende ir além dos parques
O projeto apresentado ao Bússola de Cristal propõe ampliar essa visão. A ideia é que uma rede nacional de caminhos possa conectar diferentes áreas protegidas por meio de corredores naturais, utilizando as trilhas como infraestrutura recreativa e, ao mesmo tempo, como instrumento de educação ambiental.
O projeto trabalha com três pilares principais: educação ambiental, geração de emprego e renda e desenvolvimento recreativo.

A sinalização com uma pegada amarela e preta é característica do projeto. Foto: RedeTrilhas
A lógica é criar um ciclo em que a visitação contribua para aproximar as pessoas da natureza e, por meio dessa experiência, aumente a percepção sobre a importância da conservação. Ao mesmo tempo, a atividade turística pode gerar oportunidades econômicas para comunidades e prestadores de serviços localizados no entorno das trilhas.
A proposta também está relacionada à mudança na própria concepção das áreas protegidas. A conservação contemporânea deixou de considerar apenas a criação de unidades isoladas e passou a incorporar conceitos como corredores ecológicos, mosaicos de áreas protegidas e outras estratégias de conservação baseadas no território.
No Brasil, a RedeTrilhas foi estruturada justamente para integrar trilhas de diferentes escalas e conectá-las a unidades de conservação, áreas prioritárias para a biodiversidade e outros territórios relevantes. A regulamentação prevê, inclusive, que os traçados considerem fragmentos florestais, corredores ecológicos e áreas de importância para a conectividade.
Da caminhada à conservação
A indicação do projeto brasileiro ao Bússola de Cristal coloca em evidência uma mudança de perspectiva sobre o papel das trilhas. Tradicionalmente associadas ao lazer, ao montanhismo e ao turismo de natureza, elas também podem ser utilizadas como ferramentas de planejamento territorial. A partir dessa abordagem, caminhar por uma trilha passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla de aproximação entre sociedade e áreas naturais.
A proposta da Rede Brasileira de Trilhas é utilizar essa infraestrutura para estimular justamente essa conexão. A meta de longo prazo é ampliar a rede de caminhos e favorecer a integração entre áreas protegidas por meio de corredores naturais, contribuindo para a circulação da fauna e para a manutenção dos processos ecológicos.
A iniciativa também conta com uma característica particular: a participação da sociedade civil. A Rede Nacional de Trilhas foi concebida com participação de voluntários, organizações da sociedade civil, gestores públicos, comunidades e outros atores locais, e posteriormente se consolidou como política pública nacional.
Em 2026, o governo federal também avançou na institucionalização do tema com a criação do Sistema Nacional de Trilhas (Sintrilhas), ampliando a integração entre conservação, turismo sustentável, uso público e desenvolvimento regional.
Votação segue até 31 de outubro
A indicação ao Bússola de Cristal coloca o trabalho desenvolvido no Brasil em uma disputa internacional que reúne projetos de diferentes países e áreas de atuação.
A votação popular segue até 31 de outubro. Cada pessoa pode votar uma vez por dia na categoria “Reconhecimento Público”.
Para votar no projeto da Rede Brasileira de Trilhas:
Acesse a página da votação no Bússola de Cristal
A premiação será definida a partir da combinação entre a participação popular e a avaliação do conselho de especialistas da Sociedade Geográfica Russa.







