As coisas mais bonitas da vida são aquelas que você faz, não as que você tem. Reinhold Messner
Os ingleses realizaram um gigantesco levantamento topográfico da Índia, então sua colônia, desde a extremidade sul até o Nepal ao norte. Esse projeto tomou 35 anos, a maior parte dos quais dirigido por George Everest. Em sua homenagem, em 1865 o ponto culminante encontrado foi renomeado de Ponto XV para Monte Everest. O processo usado foi o de sucessivas e exaustivas triangulações, como mostrado no mapa.

Mapa da triangulação da Índia. Ao norte aparece o Kangchenjunga e, acima dele, o Everest.
Foram os ingleses aqueles que primeiro tentaram chegar ao Everest. As expedições da década de 1920 saíam de Darjeeling ao norte, pois o Reino do Nepal ao sul era então um país fechado. Em 1924 duas figuras lendárias, George Mallory e Andrew Irvine, desapareceram no Everest, sem que nunca se tenha sabido se indo ou voltando do cume. Em 1999, o corpo de Mallory foi achado acima de 8.100 metros, em resultado de uma queda fatal de talvez 400 metros. O de Irvine jamais foi encontrado.
Na década de 1950, as expedições passaram a se iniciar no Nepal, no glaciar Khumbu na face sul ao invés do Rongbuk na norte. Até que, afinal, todos os picos de 8 mil metros fossem conquistados. Se esses grandes alpinistas habitam o mundo real, George Mallory pertence à história, com sua personalidade singular e sua expedição lendária. É dele a mais famosa frase sobre o montanhismo, quando lhe perguntaram por que escalar o Everest. Becaus it´s there, respondeu.
É praticamente unânime a opinião de que o maior montanhista da história foi Reinhold Messner, nascido em 1944 no Tirol italiano. Ele conquistou seu primeiro cume junto com o pai aos 5 anos. A sua região contém a cadeia dos Alpes Dolomitas, montanhas calcárias agudas e esbranquiçadas, encimadas pelo Pico Marmolada (3.343 metros). Messner sempre foi apaixonado por elas.

Os Alpes Dolomitas da juventude de Messner (Fonte – wikimedia commons).
Sua dedicação às montanhas tornou-o um dos maiores escaladores do Ocidente com pouco mais de 20 anos – novas e arrojadas rotas nas velhas montanhas alpinas. Mas foi o Nanga Parbat no Paquistão (8.126 metros) que mudou em 1970 sua vida, numa escalada dramática onde morreu seu irmão e onde Messner teve de amputar sete dos dedos do pé.
A partir de então, abandonou as escaladas em rocha e passou a se concentrar nas ascensões das altas montanhas nevadas. E com a prática do chamado estilo alpino: ausência de cordas fixas para guiar a rota, de carregadores para os equipamentos e alimentos e, finalmente, de oxigênio suplementar acima da zona da morte, a 7.500 metros.

LIvro sobre a conquista das maiores montanhas (Fonte – goodreads.com).
Até então, as expedições eram semelhantes a assaltos, com grandes grupos de escaladores e carregadores, com enormes quantidades de equipamentos e suprimentos, movendo-se e aclimatando-se lentamente.
Como se fossem verdadeiras invasões das montanhas, antecedidas por batedores e orquestradas por grandes líderes. Messner demonstrou que era possível escalar leve, em equipes pequenas sem carregadores, alpinistas rápidos e aclimatados, com enorme resistência e coragem.
Messner foi o primeiro alpinista a completar todos os picos acima de 8 mil metros sem O2 adicional e o primeiro a escalar o Everest em solitário (8.848 metros). É emocionante visitar o vídeo em que chega à noite sozinho no campo base e abraça sua namorada como se estivesse voltando de um passeio.

Reinhold Messner aos 72 anos (wikimedia commons).
E executou entre 1970 e 1986 novas rotas e travessias, inclusive no inverno, algumas vezes junto com figuras lendárias como Peter Habeler e Hans Kammerlander.
O maior alpinista contemporâneo de Messner foi provavelmente o polonês Jerzy Kukucza, que também completou os maiores picos sem O2. Diferentemente dos demais, faleceu na montanha, quando sua corda de segunda mão se rompeu – morreu pobre, pois nunca teve o talento promocional de Messner.
Depois de suas grandes conquistas nas montanhas, Messner atravessou a Antártica e a Groenlândia a pé em 1989, sem trenós puxados por cães, bem como o Deserto de Gobi em solitário em 2003. Também completou os sete maiores cumes de cada continente, naturalmente com rotas originais.
Foi membro do Parlamento europeu, escreveu dezenas de livros (no seu típico estilo rude e direto), regeu uma famosa sinfonia de temática alpina, casou-se várias vezes e teve quatro filhos.

Uma das sedes do Museu da Montanha, o Castelo de Firmian, onde Messner reside (Fonte – messner-mountain-museum.it).
A partir do início deste século, fundou o Museu de Montanhismo Messner, que opera em seis locais na sua terra natal do Tirol. Ele procura unificar as histórias do crescimento e do declínio das montanhas, a cultura da região do Himalaia e a história do Sul do Tirol. Ele o descreve como um lugar de encontro com a montanhas, com as pessoas das montanhas e finalmente com nós mesmos.







